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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

(6316) - DO MENINO JESUS AO NEONATAL...


A ORIGEM DAS ESÉCIES DE ACORDO COM
A SELECÇÃO NATALÍCIA...
 
 
 
 
 
 
Confesso que já faço parte da Era Neonatal. Como Neonatal entenda-se o Natal que sucedeu ao Natal tradicional, ou então, como a conjugação da palavra néon com a palavra natal sugere – na verdade, o resultado e o efeito final são os mesmos.
A geração Neonatal é aquela que já pouco viveu as tradições ancestrais do Natal, tendo em conta que este se pautava por um conjunto de pequenas particularidades e tipicidades ritualísticas mas plenas de simplicidade que ainda hoje geram saudade e nostalgia entre aqueles que as viveram. Consideremos então que estamos perante duas Eras distintas onde, inclusive, predominavam espécies diferentes.
Passemos então à análise das principais diferenças entre ambas.
Na Era Natal, toda a casa que se prezasse tinha como centro nevrálgico o presépio onde se encontrava representada a cena relativa ao nascimento do Menino. Como base para a estrutura do intrincado cenário, eram escolhidas as bryophytas, mais precisamente, o musgo que pais e filhos, ou netos e avós recolhiam das zonas mais húmidas e sombrias da região. Feita a cama deste verde único, era a altura de colocar as figuras. Entre os devotos pastores proliferavam as ovelhas (Ovis aires) e algumas cabritas mais ariscas (Capra hircus). Os lugares de honra cabiam ao burro (Equus asinus), que por sinal se encontra em extinção no nosso país, e à vaca (Bos linnaeus), que com o seu bafo mantinha as palhinhas quentes para a chegada do Menino, que só assumiria a seu lugar na noite de 24 de Dezembro.
À mesa, o incontestável domínio era do bacalhau (Gadus morhua), que por sinal também se encontra na lista das espécies vulneráveis de extinção, da couve portuguesa (Brassica oleracea) aferventada e da batata (Solanum tuberosum) cozida. Tudo isto regado com o mais fino azeite cuja fonte é a Olea europaea.
O azevinho (Ilex aquifolium) dava uma nota de cor ao interior de todos os lares, sendo considerado o ex-líbris da decoração natalícia. Hoje em dia, está proibidíssima a sua recolha dado que, sendo uma planta dióica, ou seja, que tem um macho e uma fêmea, e considerando que só a fêmea produz as afamadas bagas vermelhas, foi ela o alvo preferencial das populações, que a recolheram em quantidades acima do desejável nesta época do ano, deixando os machos com um número muito reduzido de parceiras para posterior reprodução.
Na lareira, o sobreiro (Quercus suber) ou outro Quercus qualquer, ardia lentamente para que, durante a noite, o menino Jesus, que traria os presentes, se pudesse aquecer.
Ao acordar, as crianças podiam viver a alegria do Menino em palhas deitado e do presente que lhes calhasse em sorte e que, à semelhança do que ocorre nos nossos dias, dependia da bolsa dos donos da casa, com a diferença que, naquela altura, o presente mais singelo podia passar pela simples passa de figo (Ficus carica), que segundo consta, lhes sabia pela vida.
Mas os tempos mudaram e hoje, a Era Neonatal caracteriza-se inclusive por alterações climáticas, dado que começa logo a dar sinal de si quando ainda nós fruímos os últimos raios de sol na praia.
As famílias continuam a reunir-se, mas já raros vão sendo os presépios, que são substituídos pelo pinheiro (Pinus pinaster) enfeitado com luzes cintilantes, fitas reluzentes e bolas coloridas. Consta que a primeira Árvore de Natal foi feita pelo Príncipe Ferdinand von August Franz Anton von Sachsen- Coburg-Gotha-Koháry (vulgo, D. Fernando II), marido da rainha Dona Maria II. Este príncipe de origem alemã trouxe a tradição da sua terra e entendeu que os seus onze filhos achariam graça à novidade.
Acrescente-se que esta tradição tem uma origem pagã, dado que os povos do norte da Europa acreditavam que alguns deuses habitavam o interior das árvores e que enfeitando-as os agradariam. Da tradição pagã para a cristã foi um salto. Mas, em Portugal, a explosão do Pinus pinaster só se deu na década de 70 do século XX, quando a trilogia Deus, Pátria e Família”, deixou de ser “referencial do Estado”, e o povo se sentiu mais solto para abrir as portas às modernices que entravam pelos écrans do cinema e da televisão oriundas de Hollywood e da Disney. Foi por esta mesma porta que entrou a nova estrela das mesas da consoada, o peru (Meleagris gallopavo), ave originária da América do Norte.
Outra espécie rara que passou a integrar a Era Neonatal foi um velhote com um ar bondoso e simpático chamado Pai Natal que, sorrateiramente, destronou o menino Jesus na entrega dos presentes e que, segundo consta, se veste de vermelho e branco desde a década de 30 por ser patrocinado pela Coca-Cola.
Mas, nos dias que correm, o Pai Natal faz-se acompanhar por mais duas novas espécies, um hipopótamo (Hippopotamus amphibius) conhecido pelo nome de Popota e uma ave, que de tão rara ainda não consta da literatura científica, e que dá pelo nome de Leopoldina.
 
É a evolução em todo o seu esplendor!                                              
Mas, que se viva o Natal ou o Neonatal, o fundamental é nunca esquecer que esta época visa, essencialmente, salientar, realçar, revelar o que de melhor existe dentro de todos nós e que o Natal é sempre quando o homem (Homo sapiens sapiens) quiser.
 
Algarve, Dezembro de 2013
Zenaida Isabel Mendes Lima
 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

5 comentários:

  1. Tenho vindo a ser comentador assíduo neste blogue, mas em relação a este post não me pronuncio por ser pai da autora...

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  2. Descule, amigo, mas os outros leitores talvez mereçam saber o que pensa o pai da autora...

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  3. Ê com imenso agrado que se lê prosa tão erudita, rica e comparações e ainda por cima versando sobre um Natal de que sentimos mais próximo.

    Portanto, com tantos anos na Diáspora, tínhamos a obrigação de estar mais adaptado mas quem é conservador ou, melhor, quem guarda seus costumes e prefere os seus usos nunca poderá aderir a certas mudanças, ricas talvés, por medo de acompanhar o enterro de uma educação que foi exemplar.

    Â autora do texto agradeço pelo que me toca, desejando muitos e muitos Natais como deseja para si e para a sua Familia e, já agora, muito tempo para nos visitar aqui e nos dois outros lugares irmãos que são "Praia de Bote" e "Esquina do Tempo".

    V/
    P.S. - Conheço alguém que está mudo e orgulhoso.

    "Quem sai os seus não degenera a familia"

    Parabéns e braça, Rapaz !!!.

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  4. concordo e me algro em ser dos antigos natais. Na minha familia ainda se faz presépio, reuniões e troca de presente, temos até algum bacalhau.
    Beijos e Feliz Natal

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  5. Bem, Zito, se propus à minha filha que o ARROZCATUM acolhesse o seu texto foi por duas razões diferentes: o texto é interessante e tem qualidade; e o blogue merece atenção.

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