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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

(6348) - REFLEXÕES...



Passagem do Ano no Atlântico e os votos para 2014
  • Escrito po José Almada Dias
Esta é a época festiva mais bonita do ano nos países de calendário gregoriano. Época de regresso à terra, de rever e abraçar amigos e familiares, de esquecer inimizades e perdoar inimigos e reclusos. Mas não vou falar do Natal, essa maravilhosa festa familiar que nos une. Vou concentrar-me na Passagem de Ano, uma data para celebrar a vida numa espécie de renascimento anual. Trata-se de uma festa que em Cabo Verde se festeja tradicionalmente em todo o país, mas com especial relevo na cidade do Mindelo, onde praticamente toda a população sai à rua no dia 31 para cantar o RECORDAI e depois concentrar-se na Avenida Marginal para ver o fogo-de-artifício ao som do apito dos barcos na Baía (Pite na Baía), tradições cujas origens se perdem na memória colectiva.

Das minhas memórias de infância recordo o fogo-de-artificio constituido por very-lights lançados pelos barcos que iluminavam a cidade e a Baía e o ensurdecedor barulho (para os meus ouvidos de criança) dos foguetes e dos apitos dos barcos na Baía. Para qualquer mindelense o Fim do Ano é uma data muito especial, com um ambiente mágico que não se consegue fácilmente encontrar noutras paragens, sobretudo para quem, como eu, nasceu a 1 de Janeiro.
Uma tradição centenária desta maravilhosa cidade-porto criada pelos braços de cabo-verdianos livres vindos de todos os concelhos dessas ilhas verdianas perdidas no continente Atlântico, na rota das civilizações ditas modernas.
Feito o enquadramento em tom da época, passemos a questões mais práticas.
A cidade do Mindelo é hoje uma cidade com muitos mais habitantes e carros, que celebram ruidosamente a Passagem de Ano naquele que é juntamente com o Carnaval desta mesma cidade os dois maiores eventos populares deste país. O Porto Grande já não recebe tantos barcos como nos tempos áureos, mas em contrapartida as marinas da Baía estão a abarrotar de iates e os apitos dos barcos nacionais e estrangeiros continuam fortes e audíveis na vizinha Ilha das Montanhas. Há voos diretos de Portugal, Holanda, França e EUA que trazem os nossos patrícios e turistas e que são recebidos no aeroporto com batucada sob o olhar aprovador da estátua de Cesária Évora que desta ilha partiu para dar a conhecer este país ao mundo; temos um monumental baile popular na Rua de Lisboa com artistas de renome, que os turistas aproveitam para ver de borla às expensas da edilidade local e temos um esplendroso fogo-de-artificio que faz corar de inveja as cidades europeias onde vivi e que é protagonizado por uma empresa da irmã ilha da Madeira. Mas temos sobretudo a população da cidade concentrada na baixa e na Avenida Marginal desta inclusiva e democrática cidade a celebrar junto ao Oceano Atlântico nesta que é há já alguns anos uma das Baías Mais Bonitas do Mundo, por obra da Mãe Natureza e persistência de uma mindelense chamada Maria Delhmeau, vulgo Delmira.
O bom exemplo da Madeira
O arquipélago da Madeira (parte da Macaronésia) é constituído por 8 ilhas, das quais duas habitadas, a Madeira e o Porto Santo. Na ilha da Madeira com 740,7 km2 habitam 262 dos 267 mil habitantes do arquipélago. A ilha tem uma orografia muito semelhante à nossa ilha de Santo Antão (779 Km2).
A Região Autónuma da Madeira é hoje a segunda região mais rica de Portugal com um PIB per capita acima da média europeia. Nem sempre foi assim. Terra de vida difícil, os seus habitantes emigraram em massa para os EUA, Venezuela, África do Sul e mesmo para Cabo Verde, deixando por cá muitas famílias conhecidas: os Jardim de São Nicolau, os Freitas e os Morais (Brava e S. Antão) e em S. Vicente os Viúla, Vasconcelos e Figueira (dos nossos artistas Sérgio e Tchalé), entre muitas outras famílias.
Muita coisa une os cabo-verdianos e os madeirenses para além dos laços de sangue e de uma História comum. As plantações de cana-de-açúcar que fizeram da Madeira o maior exportador mundial de açúcar no século XVI; a produção do grogue, mel e pontche (poncha na Madeira) e vinho; os nomes de vários concelhos e localidades como São Vicente, Santa Cruz, Ribeira Brava, Paúl, São Martinho, Ponta do Sol, Fajã, entre outros; a construção de casas nas montanhas em locais quase inacessíveis; a comemoração das festas religiosas, especialmente as juninas; no povoamento com envolvimento de escravos africanos e colonos europeus, embora em proporções muito diferentes. Para qualquer cabo-verdiano despido de preconceitos, visitar a Madeira é um regresso a parte das suas origens e é impossível não nos sentirmos em casa. Para os naturais de Santo Antão será como regressar a casa, com mais vegetação e desenvolvimento.
São igualmente interessantes as semelhanças entre as cidades do Mindelo e do Funchal. A forte presença e influência britânicas no estabelecimento de entrepostos de carvão indispensáveis à navegação no Atlântico (em comum com a cidade de Las Palmas nas Canárias); a história popular do golfe – o Clube de Golfe de São Vicente e o Clube de Golfe do Santo da Serra são geminados; o turismo de cruzeiros que é secular nestas duas cidades-porto. Mas o que mais aproxima as duas cidades é a celebração urbana dos eventos populares com o massivo envolvimento de toda a população, com especial relevo para a Passagem de Ano (com os cantares do Dia de São Silvestre) e o Carnaval.
Mas as semelhanças ficam-se por aqui. A cidade do Funchal é uma cidade que vive do turismo, fruto de políticas inteligentes dos seus dirigentes, com eventos populares trabalhados como produtos turísticos há décadas (alguns foram inclusive criados para tal). A indústria hoteleira do concelho do Funchal conta hoje com mais de 19 mil camas! A Região com uma população de cerca de 267 mil habitantes, recebeu em 2008 mais de 1 milhão de turistas e hoje mantem-se em mais de 800 mil turistas/ano. Nada mau!
Mas mais do que quantidade, o que a Madeira tem para mostrar é qualidade (exigência dos seus dirigentes). Todos os anos os hoteis da Madeira ganham prémios entre os melhores do mundo. Na edição de 2013 dos World Travel Awards 2013, os “Óscares do Turismo”, Portugal conquistou 5 “Óscares” em 15 nomeações: país Melhor Destino de Golfe do Mundo, a Parques de Sintra a melhor companhia de conservação do mundo, o Conrad Algarve o melhor resort e spa; da Madeira, The Vine foi considerado o melhor hotel design do mundo e o Vila Joy o melhor boutique resort do mundo, título que ostenta há oito anos consecutivos! Nem tudo é crise na Lusitânea e os restantes membros do planeta CPLP têm ainda muito que aprender com a ex-Metrópole!
As minhas (já antigas) perguntas: quantos cabo-verdianos conhecem o arquipélago da Madeira? Quantos governantes, autarcas, empresários, estudiosos ou viajantes deste país independente já lá estiveram para ir conhecer um bom exemplo? Como podemos conhecer-nos a nós próprios sem conhecer as nossas origens?
Trio das Cidades Maravilhosas Lusófonas do Atlântico
Cabo Verde elegeu as suas 7 Maravilhas. Há muito que defendo em tertúlias que se o Rio de Janeiro é a Cidade Maravilhosa do Brasil, Mindelo é a equivalente para Cabo Verde e o Funchal para Portugal.
Mindelo já não é a única cidade cabo-verdiana com iluminação de Natal, nem a única cidade com fogo de artificio no Fim do Ano, como foi durante décadas. O país vai-se modernizando, urbanizando e abrindo-se ao Mundo e ainda bem que assim é.
Mas o ambiente do Mindelo continua a ser único, porque esse não se pode reproduzir, da mesma forma que o ambiente de Copacabana não se pode reproduzir em nenhuma cidade brasileira, nem o do Funchal em nenhuma cidade portuguesa. Estas três cidades, Funchal, Mindelo e Rio de Janeiro têm muito em comum, a começar pela pátria que é a língua portuguesa, pelo Fim do Ano, pelo Carnaval e por serem incrivelmente bonitas e à beira Atlântico plantadas. São cidades-porto naturalmente turísticas por obra e graça da mãe Natureza e dos cosmopolitas povos que as habitam e que gostam de receber com alegria quem chega porque foram fundadas por gente de espirito livre, que nem as ditaduras conseguiram dobrar.
As baías do Porto Grande do Mindelo e do Rio de Janeiro estão entre as mais bonitas do Mundo, e a cidade do Funchal é um lindo e gigantesco presépio. Mas as cidades do Funchal e do Rio de Janeiro há muito tranformaram os seus eventos em cartazes turísticos internacionais. Vão estar 10 barcos de cruzeiro na Baía do Funchal para assistir ao tradicional fogo-de-artificio de 2013/14. Os hoteis estarão a abarrotar, tal como no Rio de Janeiro. Mindelo chegará lá um dia. À sua escala, à sua maneira e com a sua identidade própria.
Os meus votos para 2014
Que Deus nos ilumine a todos na busca de melhores dias para nós e para as nossas famílias.
Que ilumine principalmente os dirigentes desta nação para que entendam de vez que o populismo e a demagogia não compensam e que a única forma comprovada de combater a pobreza é com foco na criação de riqueza – uma rica rima!
Que sejamos uma nação verdadeiramente livre e progressista, porque sendo a LIBERDADE um processo, temos ainda muito caminho pela frente.
Que as ilhas verdianas possam ser livres de escolher o seu destino e de promover o seu próprio desenvolvimento.
Que os cabo-verdianos sem excepção possam ter a esperança de um emprego e habitação dignos, sem terem que ficar gratos a nenhum Governo, porque o Estado somos todos nós.
Que a memória de Nelson Mandela nos ajude a construir um mundo com paz e solidariedade.
A partir das 19h do dia 31 o grupo da Malta Paridinha reunir-se-á na parede da casa do saudoso Dr. Aníbal, na Praça Nova, para dar início a uma tradição de mais de duas décadas, que todos os anos junta dezenas de amigos vindos de todas as ilhas e diáspora. Cantaremos durante cerca de 4 horas as várias versões do RECORDAI nas casas dos familiares e amigos, recordaremos com saudade os que já partiram e à meia-noite estaremos dentro de água na Avenida Marginal a saudar o Novo Ano. Quem estiver no Mindelo é convidado.
Notícias de última hora dizem-nos que começaremos o ano a cantar em língua crioula da ilha crioula caribenha de Martinique, ao som do grupo KASSAV. Parabéns à Câmara Municipal de São Vicente pela iniciativa, porque como digo sempre, há zouk e há Kassav...
Um forte e fraterno abraço a todos os crioulos cabo-verdianos, aos povos da CPLP, da Macaronésia, aos povos crioulos de Curaçau a Malaca e à humanidade em geral (em especial aos menos afortunados, doentes, desempregados e pobres).
sábado, 28 dezembro 2013 00:07

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