Caros amigos
Em primeiro lugar votos de um bom ano 2014 para vocês e a família.
Junto vos remeto em primeira mão (após ter enviado ao Jornal de São Nicalau) esta primeira parte de minhas investigações e reflexões sobre a História de Cabo Verde. É a visão dos factos, de um leigo não de um historiador, tentando somente criar algum debate e constituir um pano de fundo que demonstre mais uma vez a necessidade de dignificar a ilha de S. Vicente:
1ª Parte-Interdependência Portugal/Inglaterra: Pano de fundo da História de Cabo Verde
In ‘Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vicente: fim da sociedade escravocrata e início do Cabo Verde moderno’
A História
de Portugal em toda a sua dimensão é na realidade o pano de fundo da História
de Cabo Verde, nomeadamente durante o período que vai do século XVIII ao XIX,
em que os dois países formaram um dos vértices do sistema triangular do
comércio no Atlântico, no qual Cabo Verde constituiu uma das pontes entre o
Ocidente e Mundo Novo, pelo papel importantíssimo exercido na colonização do
último. Os dois países estão intimamente ligados por esse passado, unidos por
fortes laços de sangue e culturais, comungando, no presente, problemáticas
similares.
Reza a História que Cabo Verde nasceu na
Ribeira Grande de Santiago num local hoje denominado Cidade Velha, onde se
instalou uma das primeiras colónias europeias em território ultramarino.
Habitavam ali portugueses e os seus escravos (em relação aos primeiros é
provável que tenham sido na maioria judeus portugueses, os famosos Lançados
(1,2,3,4) que mais tarde se instalaram no continente africano mais precisamente
nas costas da Guiné e que aí deixaram raízes para a posteridade). Estas ilhas
foram pois indispensáveis na penetração portuguesa em África (1,2,3,4) e
poderiam ter tido uma história diferente, porventura mais feliz, se não fossem
as crises e as vicissitudes da História de Portugal e da própria colónia, Cabo
Verde, que haveriam de marcar fatalmente a feição original do território de
Cabo Verde e de influenciar a formatação do futuro país independente.
O tráfico de escravos, de que Portugal foi um
dos grandes protagonistas e Cabo Verde uma importante plataforma, foi um crime
ignóbil que a História condena hoje sem remissão, elegendo-o como uma das suas
páginas mais negras, só virada quando a consciência da humanidade foi iluminada
pelos valores da civilização que emergiram nos finais do século XVIII. Mas a
verdade é que sem o negócio da escravatura, Cabo Verde continuaria ilhas
desertas humanamente e paisagisticamente à margem da história da civilização
humana ou a população cabo-verdiana não existiria exactamente com os traços
genético-culturais que a caracterizam e a definem como nação. Poderia existir, talvez,
outro povo, mas não este que se conhece, o que só demonstra que querer ajustar
contas com a História pode muitas vezes resultar num verdadeiro e estranho paradoxo.
Uma grande característica e constante da
História de Portugal é a sua extrema dependência do exterior. Na realidade, o
país esteve ao longo dos tempos totalmente dependente, politicamente e
economicamente, da Inglaterra, de tal modo que as riquezas extraídas das suas ricas
colónias iam parar directamente aos cofres ingleses sem beneficiar o povo
português. As colónias
portuguesas não podiam ficar imunes a essa situação de dependência, pelo que o
retrato de Portugal pode permitir um decalque, necessariamente mais disforme e
gravoso nos seus traços, da situação das suas colónias ao
tempo dos acontecimentos em apreço, num mundo que já começava a ser
anglo-saxónico.
Para melhor
compreender as relações Portugal-Inglaterra e a interdependência entre os dois
países, com a balança a pender sempre insidiosa e favoravelmente à Inglaterra,
nada melhor do que ler extractos de cartas e memórias que espelham bem as
incidências perniciosas daquele relacionamento no período colonial do século
XVIII a XIX, que é o que interessa a Cabo Verde (5,6,7,8).
Arthur W. Costigan, nas suas Cartas
sobre a sociedade e os costumes de Portugal em 1778-1779, escreveu: “O ouro que lhes vem da América meridional
só lhes passa pelas mãos para ir encher as das nações mais
industriosas, em paga das coisas indispensáveis de alimento e de vestuário
que elas lhes fornecem”, ponto de vista confirmado em “Panorama
de Lisboa no ano de 1796” por Joseph B. F. Carrère quando afirma: “A Inglaterra, que absorve
todo o ouro dos portugueses, empobrecendo-os e desprezando-os, dita leis ao seu
governo”. Em “O
Portugal de D. João V”, visto por 3 forasteiros, traduzido, prefaciado e
anotado por Castelo Branco Chaves, a Inglaterra domina na realidade o comércio
entre Portugal e o Ultramar: “Os ingleses gozam do privilégio de estabelecer
carreiras de paquetes entre Falmouth e Lisboa para envio de correspondência, o que,
aliás, não passa de um pretexto para encobrir o contrabando de mercadorias
proibidas, fazendo-o mais comodamente e com menores riscos. Estes correios são
grandes veleiros, muito bons para o mar e que não obstante as suas ricas cargas
estão isentos de vistoria, à maneira dos barcos de guerra. O comércio dos
ingleses em Lisboa é o mais importante de todos e segundo a maioria das
afirmações é tão grande como o de panos finos, vulgares ou grosseiros, grande
quantidade de sarjas, estamenhas, droguetes, meias de seda e de lã, chapéus de
todas as qualidades, quinquilharias, joalharia, galões de ouro e de prata,
etc., chumbo, estanho, carvão, cereais, bacalhau seco, carne salgada, sedas da
Irlanda e fazendas de lã e, principalmente, uma prodigiosa quantidade de baetas
de Inglaterra, de todas as cores, cujo valor se calcula em três ou quatro
milhões de cruzados, em cada ano“. Mais se acrescenta: “As colónias portuguesas
são tão vastas e importantes que podem considerar-se desproporcionadas com a
pequena extensão do Reino de Portugal na Europa… Mais adiante, neste livrinho,
ver-se-á como são os ingleses, os holandeses, os suecos, hamburgueses,
italianos, etc., que beneficiam de todas estas riquezas, por meio do comércio
que fazem com Portugal, não restando para os portugueses mais que o desgosto e
a inveja de verem passar todo o seu ouro para estas diversas nações”.
Nenhum destes relatos menciona Cabo Verde,
mas aquilo que se escreve sobre os Açores e da Madeira pode ser facilmente extrapolável:
“As ilhas dos Açores e da Madeira dão tecidos, grande quantidade de trigo,
milho, doce e seco, águas-ardentes, frutos, cascas de limão cristalizadas. Os
estrangeiros, principalmente os ingleses, levam aos habitantes destas ilhas
quase tudo o que lhes é necessário ao seu mantimento; de maneira que eles
trocam pouco com Portugal, excepto trigo e toucinho, que embarcam em grandes
quantidades para Lisboa. Na realidade tanto o
ouro do Brasil como o Tratado de Methuen de
em 1703 (9) contribuíram
para agravar a dependência de Portugal face à Inglaterra e esta nação é
finalmente a grande beneficiária dos proventos do vasto Império português ao
longo do tempo. É assim que Carlos Fontes (10) defende
que quer a
“Missão dos
Portugueses no Mundo" quer a manutenção
do seu Império se traziam "glória", implicavam igualmente sacrifícios
e miséria para gerações de portugueses” e que o lendário pessimismo português
sobre o destino do seu país “decorria de uma avaliação negativa das
consequências da expansão que ainda estava em curso” (11).
Podemos concluir que do balanço da
epopeia expansionista portuguesa e da manutenção do
seu Império, a Inglaterra sai largamente
ganhadora dessa extraordinária aventura.
A instalação de uma “possessão inglesa” na Ilha de S. Vicente em Cabo
Verde justifica-se assim no quadro geral das relações de dependência de
Portugal em relação à Inglaterra. A construção de raiz pelos ingleses da cidade
do Mindelo irá marcar a história contemporânea de Cabo Verde.
Este artigo constitui o pano de fundo para
artigos sobre o mesmo tema, sendo o próximo: “Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vivente: 2ª Parte - Do fim da
sociedade escravocrata à eclosão do Cabo Verde moderno no Mindelo”.
Bibliografia:
1- Richard Lobban, Jews in CapeVert
and Guinea Coast, University of Massachusetts-Dartmouth,1996; http://www1.umassd.edu/specialprograms/caboVerde/jewslobban.html
3-Peter Mark e José da Silva Horta, The Forgotten
Diaspora: Jewish Communities in West
Africa and the Making of the Atlantic World; Cambridge University Press, Mar 14, 2011, http://books.google.pt/books/about/The_Forgotten_Diaspora.html?id=VhyRNvdjMAYC&redir_esc=y
5-Charles Merveilleux Du Vignaux, César de Saussure, Biblioteca Nacional, 1989 - Lisbon (Portugal) - 281
pages.
6-J.B.F Carrére, Panorama de Lisboa no ano de 1796, prefácio do autor,
pág. 21., Ed. Biblioteca Nacional, série Portugal e os Estrangeiros, BN,
Lisboa, 1989
7-O Portugal
de D. João V visto por três forasteiros, SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA.
Tradução, prefácio e notas de Castelo Branco Chaves 2ª edição
8-Este é o Reino de Portugal, José Brandão, 2013, Saída
de Emergência, 1ª edição
JOSÉ FORTES LOPES
CONTINUA...

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