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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

(6347) - SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE CABO VERDE...

Caros amigos
Em primeiro lugar votos de um bom ano 2014 para vocês e a família.
Junto vos  remeto em primeira mão (após ter enviado ao Jornal de São Nicalau) esta primeira parte de minhas investigações e reflexões sobre a História de Cabo Verde. É a visão dos factos, de um leigo não de um historiador, tentando somente criar algum debate e constituir um pano de fundo que demonstre mais uma vez a necessidade de dignificar a ilha de S. Vicente:
1ª Parte-Interdependência Portugal/Inglaterra: Pano de fundo da História de Cabo Verde
In ‘Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vicente: fim da sociedade escravocrata e início do Cabo Verde moderno’
A História de Portugal em toda a sua dimensão é na realidade o pano de fundo da História de Cabo Verde, nomeadamente durante o período que vai do século XVIII ao XIX, em que os dois países formaram um dos vértices do sistema triangular do comércio no Atlântico, no qual Cabo Verde constituiu uma das pontes entre o Ocidente e Mundo Novo, pelo papel importantíssimo exercido na colonização do último. Os dois países estão intimamente ligados por esse passado, unidos por fortes laços de sangue e culturais, comungando, no presente, problemáticas similares.
Reza a História que Cabo Verde nasceu na Ribeira Grande de Santiago num local hoje denominado Cidade Velha, onde se instalou uma das primeiras colónias europeias em território ultramarino. Habitavam ali portugueses e os seus escravos (em relação aos primeiros é provável que tenham sido na maioria judeus portugueses, os famosos Lançados (1,2,3,4) que mais tarde se instalaram no continente africano mais precisamente nas costas da Guiné e que aí deixaram raízes para a posteridade). Estas ilhas foram pois indispensáveis na penetração portuguesa em África (1,2,3,4) e poderiam ter tido uma história diferente, porventura mais feliz, se não fossem as crises e as vicissitudes da História de Portugal e da própria colónia, Cabo Verde, que haveriam de marcar fatalmente a feição original do território de Cabo Verde e de influenciar a formatação do futuro país independente.
O tráfico de escravos, de que Portugal foi um dos grandes protagonistas e Cabo Verde uma importante plataforma, foi um crime ignóbil que a História condena hoje sem remissão, elegendo-o como uma das suas páginas mais negras, só virada quando a consciência da humanidade foi iluminada pelos valores da civilização que emergiram nos finais do século XVIII. Mas a verdade é que sem o negócio da escravatura, Cabo Verde continuaria ilhas desertas humanamente e paisagisticamente à margem da história da civilização humana ou a população cabo-verdiana não existiria exactamente com os traços genético-culturais que a caracterizam e a definem como nação. Poderia existir, talvez, outro povo, mas não este que se conhece, o que só demonstra que querer ajustar contas com a História pode muitas vezes resultar num verdadeiro e estranho paradoxo.  
Uma grande característica e constante da História de Portugal é a sua extrema dependência do exterior. Na realidade, o país esteve ao longo dos tempos totalmente dependente, politicamente e economicamente, da Inglaterra, de tal modo que as riquezas extraídas das suas ricas colónias iam parar directamente aos cofres ingleses sem beneficiar o povo português. As colónias portuguesas não podiam ficar imunes a essa situação de dependência, pelo que o retrato de Portugal pode permitir um decalque, necessariamente mais disforme e gravoso nos seus traços, da situação das suas colónias ao tempo dos acontecimentos em apreço, num mundo que já começava a ser anglo-saxónico.
Para melhor compreender as relações Portugal-Inglaterra e a interdependência entre os dois países, com a balança a pender sempre insidiosa e favoravelmente à Inglaterra, nada melhor do que ler extractos de cartas e memórias que espelham bem as incidências perniciosas daquele relacionamento no período colonial do século XVIII a XIX, que é o que interessa a Cabo Verde (5,6,7,8).
Arthur W. Costigan, nas suas Cartas sobre a sociedade e os costumes de Portugal em 1778-1779, escreveu: “O ouro que lhes vem da América meridional só lhes passa pelas mãos para ir encher as das nações mais industriosas, em paga das coisas indispensáveis de alimento e de vestuário que elas lhes fornecem”, ponto de vista confirmado em “Panorama de Lisboa no ano de 1796” por Joseph B. F. Carrère quando afirma: “A Inglaterra, que absorve todo o ouro dos portugueses, empobrecendo-os e desprezando-os, dita leis ao seu governo”. Em “O Portugal de D. João V”, visto por 3 forasteiros, traduzido, prefaciado e anotado por Castelo Branco Chaves, a Inglaterra domina na realidade o comércio entre Portugal e o Ultramar: “Os ingleses gozam do privilégio de estabelecer carreiras de paquetes entre Falmouth e Lisboa para envio de correspondência, o que, aliás, não passa de um pretexto para encobrir o contrabando de mercadorias proibidas, fazendo-o mais comodamente e com menores riscos. Estes correios são grandes veleiros, muito bons para o mar e que não obstante as suas ricas cargas estão isentos de vistoria, à maneira dos barcos de guerra. O comércio dos ingleses em Lisboa é o mais importante de todos e segundo a maioria das afirmações é tão grande como o de panos finos, vulgares ou grosseiros, grande quantidade de sarjas, estamenhas, droguetes, meias de seda e de lã, chapéus de todas as qualidades, quinquilharias, joalharia, galões de ouro e de prata, etc., chumbo, estanho, carvão, cereais, bacalhau seco, carne salgada, sedas da Irlanda e fazendas de lã e, principalmente, uma prodigiosa quantidade de baetas de Inglaterra, de todas as cores, cujo valor se calcula em três ou quatro milhões de cruzados, em cada ano“. Mais se acrescenta: “As colónias portuguesas são tão vastas e importantes que podem considerar-se desproporcionadas com a pequena extensão do Reino de Portugal na Europa… Mais adiante, neste livrinho, ver-se-á como são os ingleses, os holandeses, os suecos, hamburgueses, italianos, etc., que beneficiam de todas estas riquezas, por meio do comércio que fazem com Portugal, não restando para os portugueses mais que o desgosto e a inveja de verem passar todo o seu ouro para estas diversas nações”.
Nenhum destes relatos menciona Cabo Verde, mas aquilo que se escreve sobre os Açores e da Madeira pode ser facilmente extrapolável: “As ilhas dos Açores e da Madeira dão tecidos, grande quantidade de trigo, milho, doce e seco, águas-ardentes, frutos, cascas de limão cristalizadas. Os estrangeiros, principalmente os ingleses, levam aos habitantes destas ilhas quase tudo o que lhes é necessário ao seu mantimento; de maneira que eles trocam pouco com Portugal, excepto trigo e toucinho, que embarcam em grandes quantidades para Lisboa. Na realidade tanto o ouro do Brasil como o Tratado de Methuen de em 1703 (9) contribuíram para agravar a dependência de Portugal face à Inglaterra e esta nação é finalmente a grande beneficiária dos proventos do vasto Império português ao longo do tempo. É assim que Carlos Fontes (10) defende que quer a “Missão dos Portugueses no Mundo" quer a manutenção do seu Império se traziam "glória", implicavam igualmente sacrifícios e miséria para gerações de portugueses” e que o lendário pessimismo português sobre o destino do seu país “decorria de uma avaliação negativa das consequências da expansão que ainda estava em curso” (11). 
Podemos concluir que do balanço da epopeia expansionista portuguesa e da manutenção do seu Império, a Inglaterra sai largamente ganhadora dessa extraordinária aventura.
A instalação de uma “possessão inglesa” na Ilha de S. Vicente em Cabo Verde justifica-se assim no quadro geral das relações de dependência de Portugal em relação à Inglaterra. A construção de raiz pelos ingleses da cidade do Mindelo irá marcar a história contemporânea de Cabo Verde.
Este artigo constitui o pano de fundo para artigos sobre o mesmo tema, sendo o próximo: “Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vivente: 2ª Parte - Do fim da sociedade escravocrata à eclosão do Cabo Verde moderno no Mindelo”.
Bibliografia:
1- Richard Lobban, Jews in CapeVert and Guinea Coast, University of Massachusetts-Dartmouth,1996; http://www1.umassd.edu/specialprograms/caboVerde/jewslobban.html
3-Peter Mark e José da Silva Horta, The Forgotten Diaspora: Jewish Communities in West Africa and the Making of the Atlantic World; Cambridge University Press, Mar 14, 2011, http://books.google.pt/books/about/The_Forgotten_Diaspora.html?id=VhyRNvdjMAYC&redir_esc=y
5-Charles Merveilleux Du Vignaux, César de Saussure, Biblioteca Nacional, 1989 - Lisbon (Portugal) - 281 pages.
6-J.B.F Carrére, Panorama de Lisboa no ano de 1796, prefácio do autor, pág. 21., Ed. Biblioteca Nacional, série Portugal e os Estrangeiros, BN, Lisboa, 1989
7-O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA. Tradução, prefácio e notas de Castelo Branco Chaves 2ª edição
8-Este é o Reino de Portugal, José Brandão, 2013, Saída de Emergência, 1ª edição
JOSÉ FORTES LOPES
CONTINUA...
 
 
 
 
 
 

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