sábado, 21 de junho de 2014

{7059] - ADIVINHEM QUEM VEM ALMOÇAR,,,

 
 
Hoje, depois de um almoço de petingas fritas, arroz e salada mista, bateu-me à porta um daqueles ataques de saudade que nos oprime o peito e nos faz chegar a lágrima ao canto do olho...É que veio à baila o nome do Jorge Pedro Barbosa, poeta como seu pai Jorge Barbosa e ainda primo de minha mulher, um tipo impecável, de verve fluente, em catadupas de histórias picarescas, intermináveis, irresistíveis, que a gente ouve e torna a ouvir com redobrado e renovado interesse como se fosse, sempre, a primeira vez...
Amigos desde a primeira hora cedo, porém, nos perdemos de vista, com a abalada do Jorge Pedro para os States, onde residia na Lexington Avenue (Nova Iorque), nome que nunca esqueci porque, na mesma artéria funcionava uma empresa de nome E.J.Abecassis, Inc.,  que fornecia antibióticos que a Farmácia do Leão importava e que eu conhecia por obrigação profissional...
Num ano que não consigo precisar (anos 60), o Jorge Pedro fez uma das suas raríssimas visitas a S.Vicente e consegui, na sua apertada agenda, uma réstia de duas horas para um almoço em minha casa, morava eu já no edifício do Rádio Clube Mindelo, frente ao Palácio...
Na altura, a generalidade do comércio fechava das 12H00 às 15H00 para o almoço, pelo que combinámos que o almoço seria às 12H30...
Às 12H45, já eu tinha tudo preparado para os Gin&Tonic da praxe, incluindo aqueles deliciosos limõezinhos verdes da Guiné, quando a Nininha veio anunciar que o almoço estava pronto...
Já passava da uma da  tarde quando comecei a ficar inquieto mas, infelizmente, na altura ainda não havia telemóvel... Aliás, um telefonema feito para casa da Indiana momento antes, havia confirmado que o Jorge saíra de casa "diásá"...
Às 13H45 bebi um G&T e comi uns grãos de macarra torrada, enquanto o repasto arrefecia e os miúdos se agitavam com fome...
Minha mulher, que não deve nada ao optimismo, já admitia a hipótese de ter acontecido algo de grave e quase me convenceu a telefonar para o Hospital e para a Polícia...Mas, felizmente, eu conhecia o Jorge Pedro e sabia, lá bem no mais íntimo de mim, que o primo americano era capaz de estar algures entre a Praça Nova e a Rua de Lisboa, em amena cavaqueira com meia dúzia de amigos...
Quando, às 14H50 cheguei à Drogaria do Leão para o período de trabalho da tarde, lá estava ele, o Jorge Pedro, encostado à montra da esquina, rodeado de uma dúzia de atentos ouvintes que, ora atentos ora às gargalhadas, escutavam as palavras que jorravam da boca do maior contador de histórias que eu conheci!

Com aquele olhar desvairado que é a sua imagem de marca, olhou para mim, encolheu os ombros e disse: "Sorry, brother..."!

7 comentários:

  1. Boa história, à Mindelo, altamente típica da cidade.

    Não sei é se o Barbosa saberá esta da sua avenida que repesquei da Wikipedia (fiz ligeiras adaptações ao texto):

    A Avenida Lexington quase se tornou famosa por uma cena clássica do cinema em 1955. No filme "O Pecado Mora ao Lado", a atriz Marilyn Monroe vive um de seus momentos mais marcantes quando aparece em frente ao teatro Lexington Loew com a saia do seu vestido voando em ondas, devido ao vento causado pela passagem do metro através das grades de ventilação da rua onde ela estava. No entanto a cena gravada na Lexington com a rua 51 acabou sendo considerada inadequada por causa do grande barulho causado por milhares de pessoas presentes no local e por isso foi refilmada em estúdio.

    ResponderEliminar
  2. Aposto que o Jorge Pedro estava lá, na hora!

    ResponderEliminar
  3. Em priemiro lugar para dizer ao Zito Azevedo Que apreciei o texto, pois trouxe de volta á terra e ao nosso convívio (num texto em que o passado e o presente esbatem propositamente as fronteiras) o nosso "mercano" e excelente poeta, Jorge pedro Barbosa. Interessante é que aqui há dias, lembrei-me da poesia alegre, (apanhei-me a declamar: Djom Pó-Di-Pilom) saudavelmente irreverente e eternamente jovem deste patrício que anda por terras do dito: "Tio Sam"; e a propósito, acabei por publicar no meu "blog," (passe a publicidade, credo!)um texto sobre Jorge Pedro Barbosa. mas a finalidade deste escrito é mesmo dizer ao Zito que gostei do texto. Valeu! Abraços

    ResponderEliminar
  4. Espero que vossa saúde por esta amiga, um dia venha a dar lhe água nos olhos

    ResponderEliminar
  5. Poucas vezes nos é dado ler num blogue peças desta qualidade e "sabura". Pouco ou nada me lembro do Jorge Barbosa, mas no ano passado a sua irmã Solange foi intermediária para um contacto telefónico entre mim e ele. A finalidade era ele confirmar-me ou não uma afirmação maldosa sobre o Bana que um articulista tinha proferido sobre o cantor num jornal online. O Jorge desmentiu em absoluto aquela afirmação maldosa. E então o Jorge, muito entusiasta, prometeu que iríamos ter mais contactos do género. Mas esse foi o último. No diálogo que tivemos eu mal pude abrir a boca porque ele tinha tanta e tanta coisa para me contar... Assim, o seu feitio é mesmo este que o Zito aqui descreve: simpático, conversador, alegre, bonacheirão e, enfim, distraído como os poetas.

    ResponderEliminar
  6. Juro que não esperava tantos aplausos que, afinal, tenho que repartir com o actor principal da despretenciosa crónica...
    Ondina, é um prazer e uma honra acolhe-la à mesa do "arrozcatum"...Agradeço as amáveis palavras e gostaria de ter o link para o seu Blogue...
    Adriano, meu amigo, quando falo das pessoas que, por este ou aquele motivo, me são queridas, sinto-me em completa sintonia com o Unioverso e há um frémito de serena e feliz melancolia que me envolve e me transmite um calor espiritual que renova a minha convicção de que, afinal, vale sempre a pena viver!
    Tenho a certreza de que V., melhor do que ninguém, me percebe!

    ResponderEliminar
  7. AMIGA NOUREDINI, PARA SI EU TEREI, SEMPRE, LÁGRIMAS DE FELICIDADE E ALEGRIA POR TÊ-LA CONHECIDO...CONTE, SEMPRE, COM O MEU MAIOR AFECTO!

    ResponderEliminar