segunda-feira, 23 de junho de 2014

[7065] - CABO VERDE - IMIGRAÇÃO...

 
António Monteiro afirmou na passada terça-feira que se o governo está na posse de estudos que apontam que daqui a 15 anos metade da população residente em Cabo Verde será composta por imigrantes deve compartilhá-lo para que se tomem as precauções necessárias.
 
Confrontado com as recentes projecções feitas por José Maria Neves, num artigo de opinião, de que no horizonte de 2030 metade da população de Cabo Verde será composta por imigrantes, o líder da UCID mostrou-se surpreendido por não ter conhecimento de nenhum estudo sobre essa matéria, mas que ao que tudo indica estará  na posse do governo.
Monteiro diz que meramente se recorda de, aquando do II Fórum de Transformação de Cabo Verde, o conferencista Carlos Lopes ter chamado, a dado passo da sua comunicação, a atenção para este facto. “Agora se o Sr. Primeiro-ministro volta a frisar isso é porque o governo deve ter algum estudo que deve ser compartilhado com a sociedade civil de uma forma geral e também com a classe política para ser analisado e tomarmos as devidas precauções”.
O líder da UCID voltou a insistir que nenhum estudo sobre a recomposição demográfica de Cabo Verde lhe chegou às mãos, mas frisou que  havendo dados que apontem nessa direcção, a questão deve ser analisada a fundo, porque pela dimensão territorial e populacional de Cabo Verde esta situação poderá trazer consigo consequências imprevisíveis.  
“Daqui a 15 anos estaremos já em 2030 e termos uma reviravolta na sociedade cabo-verdiana a ponto de chegarmos a ter metade da população local e metade de imigrantes, é de um perigo muito grande tendo em conta esse espaço de tempo que é muito curto”.
O geógrafo José Maria Semedo confirma que o alerta foi dado por Carlos Lopes, o qual afirmou no citado fórum que numa perspectiva de desenvolvimento económico de Cabo Verde, poderemos ter num horizonte de 2030 uma população imigrada da ordem dos 50 por cento. “Será isso que o Sr. Primeiro-ministro terá repetido”, conjuntura Semedo.
Para o geógrafo é um processo normal e que acontece com microestados como o Luxemburgo, onde metade da população é estrangeira. José Maria Semedo não acredita que essa situação venha interferir na identidade do cabo-verdiano nem conduzir, por outro lado, à xenofobia. “Essa imigração num horizonte de 10 a 20 anos será feita paulatinamente num processo de absorção progressiva”.
Semedo desvaloriza também a questão da xenofobia que, na sua opinião só surge na primeira geração de imigrantes. Já num horizonte de 20 a 30 anos ela desaparecerá pela via da absorção que terá implicações na cultura cabo-verdiana. “A nossa cultura será cosmopolita, mediante a presença de várias culturas no mesmo espaço”. 
Bons argumentos, mas que não convencem António Monteiro. “Se nós estivermos aqui no país e metade da população residente for imigrante, eu acho que iremos ter um problema muito grande. Quer dizer, nós não teremos capacidade de nos organizarmos e mantermos a nossa identidade”, considera. 
António Monteiro ressalta que a UCID não é contra a entrada de pessoas em Cabo Verde, mas chama a atenção para a necessidade de serem tomadas medidas já hoje como forma de se precaver o futuro. Monteiro aponta o dedo ao Primeiro-ministro que, nas suas palavras, durante os 14 anos de governo não tomou a tempo as medidas que se impunham.
“Não é agora que nós vamos deixar até 2030 para que as coisas aconteçam e nesta altura tomarmos medidas para fazer face a essa nova realidade. Por isso é preciso preparar o Estado, é preciso repensarmos a própria macroestrutura do Estado, é preciso repensarmos a problemática do poder nas ilhas e desta forma estarmos com as condições políticas necessárias para podermos fazer face a esta situação se ela vier a acontecer em 2030”, acautela.
Se Monteiro acusa em primeiro lugar José Maria Neves de não ter precavido o país durante os 14 anos de governação, também não poupa, na sua crítica, os próprios deputados da nação. “Nós os parlamentares não vislumbramos também esse fenómeno e deixamos as coisas irem acontecendo e estamos na iminência de termos uma situação de ruptura cultural que pode ser extremamente grave para o nosso país”,
in Expresso das Ilhas
 

4 comentários:

  1. Negligenciar este tema é contribuir para um genocidio e quem disso virar as costas merece punição superior.
    O Deputado (Presidente da UCID) Antônio Monteiro fez muito bem trazer este tema para ser debatido.
    Força, AcA !!!

    ResponderEliminar
  2. Também acho que sim...A ancoragem de Cabo Verde à Eurpa (?) oferece exemplos que não podem ser ign orados, neste aspecto...

    ResponderEliminar
  3. A meu ver, o presidente da UCID tem toda a razão no que diz.
    Qualquer visão com que a esta distância se deve olhar para o problema tem de ser despida de preconceitos ideológicos, religiosos ou outros. É um erro crasso tentar analisar a nossa realidade com o escopo da abertura e da tolerância ilimitadas ou com o crivo do mais abjecto sentimento xenófobo. Porque o cerne do problema não está apenas em vislumbrar o que poderá ser do ponto de vista sociológico e antropológico a realidade das nossas ilhas daqui a 30 anos, aceitando-a ou não, mas sim em saber se essa realidade terá por essa altura a mínima relação com os fundamentos que levaram à independência da nação cabo-verdiana. Ora, esta só se justificou pela crença assumida de que havia uma identidade nacional cabo-verdiana, que de facto existia e por enquanto existe ainda.
    Não havendo essa identidade nada poderia ter legitimado a aspiração à independência política, à luz do que é consenso universal. Dir-se-á que, sem essa identidade, as ilhas mais não seriam que uma plataforma atlântica que poderia ter um aproveitamento utilitário sob o protectorado de qualquer potência com capacidade para a administrar. Essa potência, no seu interesse, poderia prover as ilhas com as gentes que bem entendesse, oriundas de outras paragens e misturando-as com as populações locais, porque o objectivo seria apenas a sua rentabilidade como espaço estratégico susceptível de potenciar serviços de interesse intercontinental. A acontecer assim, talvez que a renda das famílias fosse minimamente acautelada mas o facto é que a identidade cabo-verdiana iria aos poucos extinguindo-se, relegada para o fundo da memória das gerações mais velhas. E com o tempo certamente que dela nada restaria para o futuro.
    Ora, com a fragilidade da nossa capacidade de sobrevivência económica, esse cenário pode vir a colocar-se, de facto, de uma forma ou outra daqui a 30 ou mais anos. Uma das vias insidiosas para lá chegar é a tal abertura total à CEDEAO como alguns defendem. Se com essa abertura se pretende objectivos de ordem económica, não deixa de ser alarmante se ela se traduzir, desde logo, num surto migratório que lenta mas progressivamente irá apagando os vestígios da nossa cultura e, quem sabe até, os alicerces da nossa religião cristã. Imersos num mundo predominantemente islâmico, será ingénuo excluir a influência que o Corão poderá vir a ter paulatinamente nos nossos costumes. Para mais, não se pode deixar de interrogar sobre a real solidez da nossa identidade cultural, e implicitamente a sua capacidade de resistência, sabendo-se como se sabe que ela se quedou sempre num ponto de interrogação face à encruzilhada entre a Europa e a África. Assim, com uma invasão de povos africanos do continente, talvez a questão dilemática venha a resolver-se definitivamente, pendendo para o campo fisicamente mais próximo – a África.
    Daí que essa opção sobre a CEDEAO não deva deixar de ser analisada com profundidade, não a submetendo a um simples rácio económico. Portanto, na dialéctica entre o idealismo cego e a insanidade da xenofobia é que temos de encontrar as soluções mais sensatas, se de facto queremos sobreviver como povo dotado de uma identidade cultural própria.
    Enfim, penso que o António Monteiro está a fazer um alerta que tem de ser levado a sério.

    ResponderEliminar
  4. Esses aprendizes de feiticeiro que não percebem nada de geopolítica, islamismos, integrismos, identidades etc, deviam estar quietos. Este assunto do Mercado Único Africano etc é muito sensível, deveria envolver especialistas e não ser deixado ao saber de alguns ideólogos analfabetos, que vão acabar por dar cabo de CV.
    Cabo Verde pode tirar uns ‘pnics’ neste mercado mas é com muita cautela, e sobretudo não escancarar a portas, pois esta aventura pode ser uma faca de dois gumes. A Europa, o Canadá a Australia e os USA tomam muita precaução com a problemática da vagas migratória, porque cabo Verde não toma também as devidas precauções? estão a espera que a Lua caia do céu em cima da cabeça deles?
    Enriquecer o país para descaracterizá-lo não me parece vale a pena, que "l'enjeu en vaut la chandelle". A UCID tem que ser incisiva e começar a marcar estes pontos.

    ResponderEliminar