sexta-feira, 11 de julho de 2014

[7157] - CABO VERDE - RECORDANDO GENTE GRANDE...

António Aurélio Gonçalves (Nhô Roque)  
1901-1984
Esboço de Retrato, pelo escritor Manuel Ferreira:
“ E seria pela mão de Baltazar Lopes que viria a conhecer o António Aurélio Gonçalves, um homem seco de carnes, tez sobre o escuro, cabeça avantajada num corpo de estátua meã, olhar vivo, sagaz, ainda quando naquele seu jeito peculiar de semi-cerrar os olhos no vago, como dessa arte melhor situasse todas as suas antenas de captação”
Nascido em S. Vicente, António Aurélio Gonçalves estudou no seminário de S. Nicolau e posteriormente em Lisboa, onde se licenciou em Histórico-Filosóficas. Já em Lisboa colaborou com, entre outras publicações, Batalha, Seara Nova e o Diabo. Em 1940 regressou a Cabo Verde, para exercer a docência no Liceu Gil Eanes, em S. Vicente.
O prestígio literário das suas exíguas publicações era tal que nem um crítico inequivocamente ligado ao regime salazarista, Amândio Cesar (1921-1989), se coibiu de declarar em Novos Parágrafos da literatura Ultramarina (1971):
“ Em fins de 1971 saía dos prelos cabo-verdianos mais uma obra-prima do, para mim, maior ficcionista português contemporâneo: António Aurélio Gonçalves. E não atiro ao acaso esta afirmação. Porque, efectivamente, passando em revista os nossos maiores e mais representativos escritores, sua obra, no volume individual ou no conjunto, não supera as quatro noveletas que, em Cabo Verde, escreveu e publicou António Aurélio Gonçalves; por muito que pese ao brio dos escritores do espaço de língua portuguesa”.
O conto aqui reunido, que, como já vimos, alguns também classificam de novela, havia já saído separadamente, em 1956 (Pródiga) e 1957, tendo o autor publicado, posteriormente, ainda na área da ficção, “Noite de Vento” (1970) e “Virgens Loucas” (1971).Juntamente com alguns destes volumes saíram também os contos “A Consulta” e “História do Tempo Antigo”. Postumamente, foram editados os volumes “Recaída” (1993) e “Terra da Promissão” (1998). Na área do ensaio publicara “Aspectos da Ironia de Eça de Queiroz” (1957) e “ Centelha – Cadernos de Estudo” (1938), saindo posteriormente o volume “Ensaios e Outros Escritos” (1998).
...”Pródiga” é um conto cujo o titulo claramente indica que o seu enredo se baseia na célebre parábola bíblica do regresso a casa do filho pródigo. Aqui é Xandinha que, depois de atravessar o purgatório de uma vida sofrida – um namoro constestado pela mãe, a gravidez que resulta num filho falecido pouco depois, a separação do pai desse filho com quem não chegara a casar, um abandono à vida fácil que marinheiros e outros homens proporcionavam às mulheres do Mindelo, regressa, ainda jovem, a casa de sua mãe, Nhâ Ludovina, e irmãs, Isabel e Augusta.
É também uma narrativa que traduz certo destino incontrolável de algumas mulheres, pois Nhâ Ludovina havia sido mãe-solteira, tal como suas filhas vieram a ser, sem que isso afecte a sua noção de família e unidade.
Do conto “Pródiga” transcrevem-se alguns parágrafos:
…” Xandinha tinha chegado a um largozinho formado de terrenos vagos, de onde partiam as ruas de uma encruzilhada. Desviou-se para um beco, que vinha do Lombo-de-Trás a torcer-se em meandros escusos. Uma lâmpada debruçava-se sobre ela, vibrava o seu centro forte sobre o solo e batia cruamente as paredes opostas; depois, a sua luz atenuava-se numa degradação lenta, agonizava infindavelmente no largo e, incerta, dormente, escorria por ruelas coleantes, enlividecia a aresta das esquinas, deixava planos cair na sombra; mais longe, á direita, um quadrante negro absorvia toda a claridade, ao passo que, para a esquerda, apanhava-se, recortada num pequeno quadrado, a vista da iluminação de uma rua transversal, e esta tomava o ar de um pequeno pano de fundo flamejando pretensiosamente debaixo de um foco intenso.
O vento passava com a sua farfalha incessante nos ouvidos de Xandinha. Não era fácil saber-se onde ia ele tomar impulso e força para estas arrancadas frenéticas, mas a lufadas impetuosas, duradoiras, pareciam baixar de nordeste, dos lados da Assomada de João d’Évora, da Salamança. Irrompiam do escuro, enrodilhava-se como em novelos de cordas possantes e pareciam rodopiar no mesmo sítio com a rapidez de turbilhões antes de lançarem definitivamente na sua fuga para o sul. O Lombo, assim escuro, e húmido, é triste. Quem passa não pára, não se houve uma voz de rapariga, uma brincadeira de crianças, um arpejo de cavaquinho, portas e janelas fecham-se e uma outra luzinha brilha através de uma vidraça.
De face para candeeiro, um grupinho encostava-se à parede, uns de pé, outros assentados, para fugir ao frio. Duas mulheres faziam seu negócio e tinham tabuleiros à frente, com pão de milho, rebuçados de mel, açucrinha, etc. Dois rapazitos brincavam. A Benedita, negra de boa plástica, rapariga-de-vida bem conhecida no Lombo, silenciosa, fitava a rua. Todos se encolhiam, braços cruzados, procurando um agasalho para as mãos nuas e ninguém, a não ser os dois rapazitos que palravam, dizia palavra.
Xandinha aproximou-se dos tabuleiros e galhofou:
-- Que é que vocês têm por aí, meninas? Que é que vocês me guardaram? Não me guardaram nada?
Uma das mulheres propôs-lhe:
-- Compra-me um pãozinho de milho. Estão bonzinhos, menina, queres? Dois tostões, Compra metade; só um tostão.
Xandinha debruçou-se a observar de perto os pães e, com a ponta dos dedos, tacteava-lhes a resistência:
-- Agorinha, assim, deu-me uma fraqueza na boca de estomago. Deveras! Ainda não jantei. Não fias um, anh, Joana? Só até amanhã pela manhã. O teu dinheiro fica certo, menina. Podes estar descansada.
A Joana ajeitou os pães novamente no tabuleiro e, de cabeça baixa, resmungava:
-- Minha filha, se fosse por fiado, fiava a mim mesma. Vontade não falta.”
In: Edições Imbondeiro
 
Pesquisa de A.Mendes

4 comentários:

  1. Aurélio Gonçalves é daqueles mestres que nos marcam para sempre. Uma recordação para mim inolvidável reporta-se a uma aula de História dada por ele num daqueles dias ventosos que às vezes aconteciam por alturas de Fevereiro e Março. Lembro-me de que era sobre o Império Bizantino. As palavras saiam-lhe com uma fluência serena e compassada, livres de qualquer esquema prévio de lição, parecendo que transcendiam os limites do próprio programa oficial. Tinham a arte de nos colocar dentro dos palácios de mármore onde se congeminavam as intrigas e traições, ou na garupa dos cavalos das hordas invasoras. O vento uivava nas frinchas das janelas e confundia-se com o sopro da própria História que ele nos relatava com os seus olhos tipicamente semicerrados, como se fosse um feiticeiro a decifrar os signos que regem as nossas vidas desde tempos imemoriais.
    Diferente de Baltasar Lopes, outro mestre inesquecível, Aurélio Gonçalves tinha a virtude de não pressionar o aluno, desmistificando o ar demasiado solene da aula, com isso libertando a mente do aluno que quisesse também desprender-se da página fria da lição.
    Releio com alguma frequência os seus livros, porque com eles me sinto inteiramente devolvido às peculiaridades do Mindelo e das suas gentes. Impossível esquecer nhô Roque. Que privilégio tê-lo tido como mestre!

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  2. Com a morte destes últimos grandes homens Cabo Verde ficou órfão.

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  3. Com efeito, ler Aurélio Gonçalves é mergulhar na vida e nos destinos de mulheres de um tempo,de uma ilha particular e bem retratada, a ilha de S. Vicente, ou melhor dito, de uma cidade e dos seus arredores, Mindelo. Cidade portuária, cosmpolita, em que as tentações citadinas, mas também a miséria urbana por vezes andaram de mãos dadas. De facto, através das personagens femininas que o autor eternizou numa galeria novelísitca, o neo-realismo e o fantástico cruzam-se, interlaçam-se de uma forma que o leitor maravilhado não lhes reconhece fronteiras. Elas, "nha Ludovina, Joana, Xandinha" e muitas outras, são retratadas com uma verosimilhança que só mesmo a pena de um grande escritor como Aurélio Gonçalves pôde captar-lhes a alma...
    Zito, obrigada pelo belo texto, recordando António Aurélio Gonçalves.

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  4. Bem haja a Ondina Ferreira a este espaço agradecidos com este lindo comentário sobre a obra do Dr Aurélio Gonçalves

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