quinta-feira, 9 de outubro de 2014

7508] - MINDELO: ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE...(3)

 
 
 
 
A formação da sociedade mindelense

Não obstante as epidemias, as doenças, a falta de água e de habitações, na segunda metade do séc. XIX, Mindelo torna-se um pólo de atracção para camponeses sem terra, que fogem da fome e da miséria, para famílias de importantes proprietários agrícolas ou comerciantes que aqui encontram melhores oportunidades de negócio e também para aqueles que, por serem mais escolarizados, podem encontrar bons empregos na Administração e Serviços. Vêm principalmente das ilhas de Stº Antão e S. Nicolau, mas ao longo dos tempos é todo o arquipélago que aqui se cruza. No dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos.
Mindelo era com certeza uma cidade suja e pouco atraente, mas para quem chega de um mundo rural parado, em permanente susto pela falta de chuvas, o movimento de gentes nas ruas, os estrangeiros, os vapores e os seus apitos, os sinos das companhias inglesas a avisar da chegada de vapores, o barulho das vagonetas e guindastes, as lojas, os bares, tudo isso deveria ser motivo de espanto e encantamento.
Como todas as cidades-porto é socialmente heterogénea, aberta e cosmopolita. Em 1899, Eugénio Tavares escrevia que em Mindelo estava “o extraordinário movimento da navegação inter-oceânica, a estonteadora actividade de uma robusta vida comercial, o espectáculo verdadeiramente original duma população flutuante que os grandes transatlânticos despejam ali, e que, desembarcando de manhã e partindo à noite, fazem daquilo uma enorme feira cosmopolita, um acampamento de multidões que passam para a América e que regressam à Europa e Ásia”.10
É esta abissal diferença entre o mundo rural cabo-verdiano, parado e perdido no tempo e a modernidade trepidante da cidade-porto que explica a diferença de olhares sobre S. Vicente. Se para os estrangeiros chegados das capitais europeias esta urbe não passa de um “Monte de Pó”, como os ingleses lhe chamavam, para Mariano, personagem de Manuel Lopes em Chuva-Braba, “Pois, S. Vicente é terra sabe, vais ver. Tem gente pra cima e pra baixo, como nos campos do Norte no dia de St. André, ou Porto Novo na véspera de S. João. Tem automóveis, lojas sem destino, botes em penca na ourela dos cais. Mete Porto Novo mais de dez vezes dentro.”11
Claro que o desenvolvimento do Porto arrasta um lado menos positivo. A prostituição, as doenças, a precaridade do trabalho, a dependência de factores externos. Para além da sífilis, doença habitual nas cidades-porto, o facto de ser um porto carvoeiro arrasta a propagação de uma outra doença: a tuberculose.Mas para o imaginário do Chiquinho, de Baltasar Lopes, “S. Vicente era … a terra em que a civilização do mundo passa em desfile. Estava farto de ouvir falar no Porto Grande, no seu movimento, nos vapores de trânsito, nas imagens da Europa que passeiam pela cidade.” “Soldados e marinheiros de vapores-de-guerra, apitos trágicos de rebocadores, teatro, cinema, tudo fazia parada em S. Vicente. Mindelo era a estação necessária para o conhecimento mais directo do mundo.”12
Em Mindelo vive também a mais importante comunidade estrangeira do arquipélago, sem esquecer os milhares de passageiros em trânsito que por aqui passavam. Nos anos sessenta do séc. XIX eram em média 50.000 passageiros por ano, mas em 1888 foram 169.440 passageiros. O Porto Grande estava ligado, por carreiras marítimas regulares, às grandes metrópoles portuárias da Europa e América do Sul. As bandas das esquadras estrangeiras tocavam, no coreto da Praça, as novidades musicais. Chegavam hábitos e notícias do mundo. De acordo com Friedlaender que em 1912 visitou Mindelo (na altura com cerca de 12 000 habitantes), a comunidade estrangeira era assim constituída: “Nos serviços da estação telegráfica ocupam-se uns 100 empregados europeus, na maioria ingleses. Os diversos estabelecimentos de carvão contam ao todo um pouco mais de 30 empregados ingleses. A estes brancos adicionaremos os que compõem a pequena guarnição portuguesa, as autoridades deste país, o cônsul inglês, dois padres ingleses, o cônsul francês e um escasso número de outros colonos europeus que, na sua maioria são comerciantes.”13
Apesar do reduzido número de estrangeiros, a vida desta cidade será fortemente marcada por essas influências externas com especial realce para o papel que teve a comunidade inglesa na vida desportiva e social da cidade. Introduziram o golfe o críquete, o futebol e o ténis, mas também novas bebidas e hábitos alimentares, cigarros e novos hábitos de trabalho, enfim uma forma de viver mais moderna, com casas mais confortáveis e higiénicas. Segundo uma personagem do romance Capitão de Mar e Terra de Teixeira de Sousa era tal a mania que os mindelenses tinham de imitar os ingleses que “Até se caga à inglesa, em latas com areia no fundo e areia ao lado”. O médico João Augusto Martins, apesar de criticar as excessivas facilidades dadas pela administração portuguesa às companhias carvoeiras, reconhece que com os ingleses surgiu uma nova forma de estar, influenciada pela “fleuma inglesa e pela febre de trabalho e do comércio”14. Talvez isto explique que, de acordo com Correia e Silva, a passagem da condição de camponês à de operário portuário se tenha feito com relativa facilidade apesar de algumas desadequações ao modelo que os ingleses preconizavam. Segundo João de Sousa Machado, que em 1891 escreveu um estudo sobre o comércio do carvão em S. Vicente, os trabalhadores “causam transtorno ao serviço quando perdem o seu tempo com festas e danças em que despendem quanto ganham”.15 Não seria aliás tão pouco tempo como se poderá pensar, pois de acordo com Joaquim Vieira Botelho da Costa, que durante largos anos foi administrador da ilha de S. Vicente e mais tarde governador, “Este povo, como o de toda a província, é muito amante de festas e folgares, para o que aproveitam todo e qualquer pretexto. As festas de certa ordem duram sempre três dias e mais: regra geral festa onde haja banquete só acaba em se acabando comida e bebida à mesma destinada.” e refere ainda que “não há boda que valha que dure menos de oito dias”16.

 
Continua...
 

3 comentários:

  1. "S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos". Com esta afirmação, Onésimo quer referir-se, com todo o fundamento, à síntese cultural operada na ilha de S. Vicente e que forjou o perfil humano e psicológico do homem cabo-verdiano mais divulgado em todo o mundo: um ser aberto e convivente, alegre e divertido, apto a integrar-se facilmente em todas as comunidades humanas do mundo. Tudo por obra e graça da cosmovisão adquirida em S. Vicente e nas circunstâncias descritas no texto deste post. Essa cosmovisão irradiou em maior ou menor grau para as outras ilhas, principalmente as do Barlavento, e fez com que, em abono da verdade e sem desprimor para os vestígios ainda remanescentes de expressões culturais ancestrais trazidas de África, o cabo-verdiano se identifique genericamente com o que foi forjado no cadinho dos primórdios do Mindelo. Nem tudo é positivo nesse perfil humano, há que reconhecê-lo quando os ingleses se queixam das festarolas que se prolongavam e absorviam num ápice o que se ganhava em dias de trabalho árduo na descarga do carvão. Infelizmente, essa faceta do comportamento deletério não se diluiu com o tempo e outras circunstâncias e, para o testemunhar, basta evocar certos episódios da emigração em que as oportunidades de uma vida melhor foram atiradas para o lixo arrastando para a sarjeta os seus infelizes protagonistas.
    Sublinhe-se, para concluir, que o padrão cultural predominante no homem cabo-verdiano é precisamente o que irradia do Mindelo, seu berço remoto. É o do homem apto a falar outras línguas, de convívio fácil e amigo, que cria anedotas divertidas e inofensivas e se regala com elas, que tem na morna e na coladeira a sua expressão musical dilecta.

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  2. É, caro amigo, como quem diz que o Mindelense acabou por saír da ilha sem dela saír!

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  3. O texto sintetiza bem o perfil de Mindelo de outrora e o comentário de Adriano Lima fecha-o - como sói dizer-se - com "chave de ouro" como ponto de chegada ao que hoje também somos em termos do "cadinho cultural" de somos feitos e que nos define: cabo-verdianos. Apreciei mesmo!

    Abraços

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