quinta-feira, 9 de outubro de 2014

[7510] - CRIADA DE DIA, CRIADA DE SERVENTIA...


 
Ess'ali na esquina é Maria dos Dores, a Bia.
Há anos, quando não havia água canalizada
Ela era jovem criada de servir, criada de dia
Carregava a água de Madeiral para morada.
Ela era tão garbosa, agradável, contentinha
Andou pela escola e outros predicados tinha.
Depois, a jovem pretinha cheirando a sabão
Com frescura no corpo, que nunca dizia não
Perdeu sua juventude, a honra e a inocência,
E para com ela, já ninguém tinha paciência.
Chegou a traiçoeira velhice, lançou as raízes
A miséria e a doença nas pernas com varizes.
A vitalidade da sua juventude desaparecia
Já não tinha forças para ser criada de dia.
Sem água canalizada a merda era enlatada
E na calada da noite por ela era despejada.
Como a Bia tinha de ganhar a subsistência
Para não pedir esmola e viver de assistência
Então, na esquina, contava as horas do dia:
às nove horas ia buscar a lata de serventia.

- Valdemar Pereira, Tours, França

2 comentários:

  1. ***

    Por favor, vejam nisto, simplesmente, a continuação da merecidissima homenagem que o Zito fez às Nininhas, amas, criadas de dia e, mais tarde por algumas, imprescindiveis criadas de serventia para depois das "nove horas".
    Outros tempos, outros costumes !!!

    ***

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  2. Entristece-me lembrar a triste sina das mulheres que tinham de se submeter a este trabalho sórdido, penoso e sujo. Seria exagerado chamar-lhes heroínas? Sim, nem todas tiveram a sorte da Nininha.

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