quarta-feira, 15 de outubro de 2014

[7526] - AS BRUMAS DO RIO GÃMBIA...

Rosário da Luz
Em 1976 o escritor afro-americano Alex Haley publicou o seminal Roots, um romance que se tornaria num dos textos mais influentes da modernidade do seu país. Nele o autor, inspirado pelas reminiscências da sua avó materna, ela mesma filha de escravos, traça a história da sua família até ao Século XVIII, a um antepassado africano chamado Kunta Kinte, a quem a avó se referia como “the farthest back person”. Originário de uma aldeia na atual Gâmbia, o Kinte da saga de Haley foi raptado aos dezasseis anos por traficantes de escravos, embarcado para a América e vendido a uma plantação na Virgínia.
Em finais da década de 1960, Haley chega ao rio Gâmbia; as suas investigações levaram-no a localizar um velho griot na aldeia de Juffureh, que lhe confirma a existência local da família Kinte, assim como a história do rapto de Kunta nos mesmos termos da sua tradição familiar – enquanto este procurava madeira para um tambor. Na série televisiva do mesmo nome (1977), Haley é interpretado pelo ator James Earl Jones – Darth Vader em Guerra das Estrelas – que, na encenação deste episódio, exclama emocionado “I found you, old African!”
Roots suscitou reações di­ver­sas: o sucesso popular do romance e da série foi bom­­­­bás­tico; mas apesar da sua contenção de que a investigação fora rigorosamente documentada, Haley foi alvo de fortes críticas, oriundas principalmente da academia. Os seus críticos questionavam fundamentalmente a  fiabilidade metodológica da obra; mas alguns iam mais longe, afirmando que a confirmação do griot tinha sido encenada e que toda a aldeia se teria unido num complot para a validação da história, em consequência de um forte conjunto de interesses simbólicos e materiais. A sua contenção era que o valor de Roots residia no seu poder narrativo e emocional; mas o rigor histórico não pode ser comprometido a favor do interesse ideológico – e muito menos do melodrama.
A agitação em torno desta obra ilustra bem o dinamismo secular da intelligentsia e da sociedade civil americanas: a paixão e a tenacidade do autor na abordagem do tema; o objetivo admirável de contribuir para o restabelecimento da origem e da memória de um povo que foi tão violentamente despojado; forças cívicas capazes de articular sólidos contraditórios, tanto metodológicos como ideológicos; e uma comunidade fortemente engajada no debate analítico do seu processo histórico.
Nós, coitados, não partilha­mos as mesmas tradições intelectuais ou profundidade cultural; e, justiça nos seja feita, também não temos os mesmos dólares. Mas o que realmente diferencia a relação da psique Cabo-verdiana com a África e com o seu passado escravo é a profundidade do trauma. Para o afro-americano, a escravatura e a segregação racial constituem traumas recentes, brutais, cujas sequelas são parte integrante do seu universo contemporâneo. Mas para o espírito Cabo-verdiano, durante uma longa estação cultural, a escravatura não passou de uma abstração, tratada exclusivamente pelos intelectuais da terra, sem qualquer representação na memória popular.

Como instituição económica.cv, a escravatura falhou redon­damente, tal como atestam todos os nossos historiadores; o tráfico negreiro e as grandes plantações que faziam uso da mão de obra escrava conheceram um declínio abrupto a partir do século XVII, e a sua memória foi suplantada pelo trauma de quatro séculos de estiagens e fome. O nosso trauma é a fome; é a memória social da fome que ainda incute temor em quem não a sofreu, ou sequer a testemunhou; é o espectro da fome e não o da escravidão que ainda povoa o nosso universo psicológico e cultural.
Quanto ao continente dos nossos antepassados, nunca se evidenciou no Cabo-verdiano a necessidade emocional de procurar as suas origens nos Rios da Guiné. Se excluirmos o tráfico entusiástico que sempre se desenvolveu no sentido de dnher d’Angola, veremos que o interesse económico e cultural dos Cabo-verdianos pelo continente Africano é incrivelmente limitado. Não obstante, a nossa indiferença em relação à África real – tão criticada por Carlos Lopes, e tão assumida pelo Primeiro-ministro, bem haja – coincide com uma prodigiosa agitação discursiva e simbólica em torno do útero sagrado de uma Mamãe África por nós imaginada.
Em 1983, Marion Zimmer Bradley publicou As Brumas de Avalon, um verdadeiro fenómeno da literatura popular. No romance, Avalon é um universo paralelo à região de Glastonbury, na Inglaterra; coexiste no mesmo espaço mas só é acessível através da invocação de uma bruma mágica. Avalon representa o velho centro da religião britânica pré-cristã; as suas sacerdotisas têm como missão a defesa do paganismo ancestral, numa Bretanha pós-Romana onde o Cristianismo ganha progressivamente a proteção do Estado e a aceitação popular.
O romance de Bradley evoca uma era edénica da identidade bretã, e celebra a superioridade do seu ethos social e espiritual sobre a Bretanha cristã que lhe sucedeu. Porém, obviamente – ao contrário de Haley – a autora nunca tentou convencer ninguém da veracidade histórica da sua trama: o leitor está ciente a todo o momento que o mundo mágico de Avalon retrata uma Bretanha imaginada, que bebe predominantemente em interpretações literárias da História. Escusado será dizer que nenhum país de ascendência bretã – Inglaterra, Irlanda, EUA – reinstituiu a sua identidade pagã em consequência desta fantasia ou erigiu o estudo de Avalon em pilar do programa educativo e cultural do Estado.
Chez nous, apesar do seu óbito social e cultural, a identidade africana e o passado escravo.cv foram invocados das brumas da memória pelas narrativas da Independência e restabelecidas como elementos centrais do nosso universo simbólico. Num primeiro tempo, o processo resultou linearmente da vontade expressa de um Estado autoritário a quem a ideologia convinha; mas e depois? Em pleno 2014, o que nos faz reforçar maquinalmente as narrativas korda skrabu, sem qualquer questionamento ou contraditório?
O culto obstinado de um passado edénico – em oposição ao seu tratamento como distração literária – é característico das sociedades em disfunção. A população Cabo-verdiana suportou quatro décadas de metamorfoses sociais que a deixaram exaurida; e agora vê-se sub-empregada, sub-educada e sub-capitalizada; não se encontra, certamente, num estado de fortaleza identitária. Neste momento, qualquer aventura social ou conceptual que nos leve para fora da ribeira resulta necessariamente num angstexistencial atroz.
A alternativa é o entrin­chei­ramento cultural: a negação ideológica das línguas que não aprendemos a falar, dos livros que temos dificuldade em ler, dos quadros que não sabemos apreciar, dos talheres que não sabemos usar. Atribuímos essa rejeição à rejeição do Outro – ao seu racismo, paternalismo e arrogância – e refugiamo-nos no nosso quintal paroquial, onde a troça que imaginamos no seu rosto não nos poderá alcançar.  Neste contexto, as identidades globalmente vitimizadas do negro e do escravo prestam-se lindamente à desculpabilização das nossas falhas – e do nosso ego.

Tragicamente, o terreno da fragilidade identitária é sempre fértil para a demagogia. Na perspetiva de cair no goto do eleitor, o estabelecimento político, eleitoral e cultural reforça as imagens que lhe dão segurança: abaixo o branco que nos escravizou; abaixo o seu descendente que se refastela nas nossas praias; abaixo o empresário ricalhaço que compra o que nós não podemos; abaixo a língua Portuguesa que nos secundariza a maternu; abaixo o  profissional que sabe mais do que nós; viva a nossa mediocridade espelhada na TV.
in Expresso da Ilhas...




8 comentários:

  1. A senhora Rosário da Luz é uma voz livre e de grande valia para as nossas reflexões colectivas sobre o que somos e o que queremos ser.
    Conforme se deduz das suas palavras, não creio que o cabo-verdiano precise de olhar para o passado da escravatura como forma de catarse, porque a fome desde cedo se impôs como o principal tormento da sua existência. A fome é, pois, a sombra mais tenebrosa na nossa memória histórica e social, de tal maneira que ela própria deve ter-se encarregado de folgar as grilhetas da escravatura, naturalmente que por conveniência dos patrões. Com efeito, de um modo geral, não há relato de que o escravo sofresse ou morresse de fome, pois isso não convinha ao seu proprietário, mas se tal aconteceu só pode ter sido por causa da natureza madrasta das nossas ilhas. O que é relatado é que tempo houve em que o patrão libertou os escravos para ele próprio escapar às agruras da fome.
    Quanto ao resto do excelente discurso da autora, o cabo-verdiano só pode apurar e fortalecer a sua identidade olhando para dentro de si próprio para salvaguardar e aprofundar o que de positivo colheu no cruzamento de influências civilizacionais e passou a estruturar o seu perfil humano e cultural. Rejeitar a influência europeia é tão pernicioso como eliminar o que de autêntico possa remanescer da presença africana. No fundo, a nossa miscigenação é uma realidade com força suficiente caldeada ao longo de séculos para resolver e ultrapassar quaisquer pontos de conflito que possam subsistir do confronto longínquo de culturas. Julgo que isso foi há muito resolvido e se algumas questões afloram na actualidade é por culpa exclusiva de certa política cultural do Estado, que tem procurado acender conflitos onde eles não existem. Em S. Vicente ou em Santiago, em S. Nicolau ou no Fogo, o cabo-verdiano vive na autenticidade dos seus sentimentos e das suas opções livres, imune aos ardis de quem pensa que deve regular e postular todas as suas inclinações naturais de povo mestiço.

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  2. Assino por baixo Adriano. O pensamento correcto e uma forma bacoca de africanismo generalista colocam-nos num dilema identitário permanente. Devemos ser aquilo que a natureza ditou e não aquilo que os políticos querem, estes que quando a natureza não é como eles pensam ignoram-na ou teimam que ela deva ser como querem os manuais polítcos. A moda da rejeição pegou em cabo Verde e acabamos por rejeitar nós mesmos, num autêntico processo de estilo hara-kiri, o sintoma de uma doença social e cultural que tem abalado a nossa sociedade, nomeadamente a mindelense.

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  3. Arrozcatum destaca mais um dos múltiplos brilhantes artigos de Rosário da Luz publicado no Expresso das ilhas. O mínimo que se possa dizer é que este artigo é politicamente incorrecto, 'decoifant' e deve irritar ao rubro os que teimam em não 'Pensar Bem e Único', na óptica dos cânones impostos a uma sociedade domesticada. No meio de um marasmo intelectual só podemos nos deliciar com a qualidade das análises da senhora Rosário, mesmo nem sempre concordando com a sua opinião.

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  4. Um lapso queria dizer
    'e deve irritar ao rubro os que teimam em 'Pensar Bem e Único''

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  5. mais um lapso no meu primeiro comentário, queria dizer:
    'Assino por baixo anónimo'

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  6. To be or not to be. Eis aqui um dilema Shakespiriano.
    Quando estamos convencidos de uma verdade vem outro ‘tesard=defensor de uma tese em francês’ e diz o contrário. E ficamos todos perplexos perdemos o rumo? Mas quem somos nós? Africanos, euroafricanos, crioulos, cabo-verdianos atlânticos, pretos, mestiços, etc e mais e mais….

    Lembrem-se que segundo uma verdade conveniente dos anos 60/70, Amilcar Cabral ‘a tranche’ definitivamente la questão com a sua tese/teoria naquela altura julgada exacta que Cabo Verde é África tout court a prova que ele e a Guiné Bissau é um único país (irmanados na luta), que os dois paíse serão libertos do jugo coloial português e os dois povos que sempre foram irmão reunidos, irmanados sob a égide do Paigc, rumo à união orgânica definitiva dos dois povos. ‘Affaire portanto Tranché’ para sempre.
    Lembrem-se que esta tese de Amilcar Cabral contradizia :
    -a dos Claridosos, julgada conservadora e nos anos 70, ver reaccionária, a que defendia a cabo-verdianidade exclusiva das ilhas
    -e a do regime de salazar caeteano que defendia a portuguesidade ‘tout court’ das ilhas.

    No fundo Amilcar Cabral e o ancien regime português eram a antítese e a tese nesta questão. Os Claridosos estavam apertados com um autêntico ‘garotche’.

    Em 1975 pensou-se que se atirou o problema pelas janelas ‘Affaire Tranché’ e voilà que ela entra pela porta adentro ‘Affaire a nouveau Non Tranché’. Quem tem razão: todos e ninguém!!! Portanto isto é uma questão equivalente a do ovo e da galinha, cada um encontrará a resposta que pretende. Ela está aqui:

    - Cabo Verde é um Estado africano e os caboverdianos hoje africanos sim.
    -Cabo Verde é África e os cabo-verdianos identificam-se com a África eo s africanos continentais tenho dúvidas.

    Assim o Jornalista Santos veio destabilizar um pouco este equilíbrio intelectual frágil sobre esta matéria sobre a qual assentou todos os regimes ’ y compris’ o democrático.A Rosário atirou uma autêntica pedrada no charco, como é agora moda dizer.

    Nisto tudo quem sai beliscado ó o PAIGC/CV que se legitimou com a tese de Cabral e atingiu o poder total com a independência para cumprir o desiderato de Cabral, que era trazer Cabo Verde de retorno a África (de onde nunca deveria ter saído) e a África de retorno a Cabo Verde. O Paigc defendia assim a sua legitimidade histórica e o partido único: não podia haver em cabo verde outro partido que pudesse construir este destino glorioso e radiante para os cabo-verdiano a não ser ele mesmo.

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  7. No artigo vislumbra-se bem o fenómeno da rejeição de si próprio. O caboverdeano tem que assumir-se como tal e deve orgulhar-se da cultura que criou ao longo de séculos. Tem uma identidade própria e não tem que se procurar fora si próprio.

    Matrixx

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  8. Muita gente gostaria de ser o que somos, o que criamos
    Mas existem "teimosos" (odientes/invejosos) incorrigiveis

    Eduardo Oliveira

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