segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[7535] - MINDELO: DA FICÇÃO À REALIDADE - (8)


O mito


Apesar desta impressionante sucessão de crises, não só a cidade de Mindelo sobreviveu e cresceu, como ainda foi, durante muitos anos, a principal fonte de receitas e sustento do arquipélago. Este facto, aliado à extraordinária pobreza das outras ilhas, ilhas agrícolas onde as secas provocavam fomes terrivelmente devastadoras e mortíferas, como nunca aconteceram nesta cidade, poderá explicar por que motivo para os cabo-verdianos a cidade de Mindelo era vista como um símbolo de riqueza e de oportunidades, “a terra em que a civilização do mundo passa em desfile”, como a imaginava o Chiquinho de Baltasar Lopes. Esta discrepância entre o Mindelo da ficção e o Mindelo real coloca-nos, não apenas perante uma cidade ficcionada, de longe a mais ficcionada na literatura cabo-verdiana, mas perante uma cidade mitificada, ou, talvez seja melhor dizer, mitificada em resultado do encantamento que sobre nós exerce a re-criação literária.
Germano Almeida é de opinião que: “Nas nossas ilhas criámos e vivemos o nostálgico mito de um passado de abundância e fartura que sonhamos sempre ver reproduzidas num qualquer tempo futuro, nosso ou dos nossos descendentes. Em S. Vicente esse mito foi eternizado através de uma das mais belas mornas de repertório nacional: Tempo de Canequinha da autoria do poeta popular Sérgio Frusoni”,33 já acima referido. Mas se estamos perante um mito, estamos perante aquilo que Fernando Pessoa dizia “que é o nada e que é tudo” e que é afinal o lugar para a memória, a imaginação e o sonho dos homens. Mindelo tem sido esse lugar e talvez seja aí que reside o misterioso fascínio desta cidade, capaz de seduzir e adoptar poetas, escritores, artistas e todos, enfim, os que a ela aportam.

Mindelo, Janeiro de 2003
publicado nos n.ºs 1 e 2 da Revista Soncent da Cãmara Municipal de SV, 2005

1. António L. Correia e Silva, Nos tempos do Porto Grande do Mindelo. Praia, C.C. Português, 2000, p. 48
2. ob. cit., p. 51
3. Cristiano de Sena Barcelos, O Arquipélago de Cabo Verde, “Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa”, Lisboa,1908, 27ª série, nº3 – Março. p. 73
4. Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo, Praia, ed. do F.D.N. – Min. da Economia e Finanças, 1984, p.25
5. Francisco Travassos Valdez, África Ocidental, Lisboa, Imprensa Nacional, 1864, p. 120
6. Joaquim Vieira Botelho da Costa, A Ilha de S. Vicente de Cabo Verde, “Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa”, 1882, 3ª série, nº 2.
7. Barjona de Freitas, Conferência realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, 1904. apud G. Almeida in Viagem pela História das Ilhas, Mindelo, Ilhéu Editora, 2003, p.
8. Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo, Praia, ed. do F.D.N. – Min. da Economia e Finanças, 1984, p.85
9. J. Boisse de Black, Voyage aux Îles du Cap Vert, “ La Géographie ”, Paris,1924, tomo 42, nº1, pp.38-56
10. Eugénio Tavares, Pelos Jornais, Praia, ICL, 1997, p. 43
11. Manuel Lopes, Chuva Braba, 2ªed., Lisboa, Ed. Ulisseia, 1965, p.
12. Baltasar Lopes, Chiquinho, 7ª ed., Lisboa, Ed. ALAC, 1993, pp. 116 e 247
13. Immanuel Friedlaender, Subsídios para o conhecimento das ilhas de Cabo Verde, ed. da Soc. de Geografia de Lisboa, 1914, in jornal O Cidadão de 5/11/99
14. João Augusto Martins, Madeira, Cabo Verde e Guiné, Lisboa, 1891, in Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo, Praia, ed. do F.D.N. – Min. da Economia e Finanças, 1984, p. 62
15. João de Sousa Machado, Estudo sobre o Commercio do Carvão no Porto Grande da ilha de S. Vicente (archipelago de Cabo Verde) e no Porto da Luz em Gran Canaria (archipelago das Canárias), Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, in António L. Correia e Silva, Nos tempos do Porto Grande do Mindelo, Praia, C.C. Português, 2000, p. 124
16. Joaquim Vieira Botelho da Costa, A Ilha de S. Vicente de Cabo Verde, “Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa”,1882, 3ª série, nº 3.
17. Albert Picquié, Îes du Cap Vert et Colonisation Portugaise, “Revue Maritime et Coloniale », Paris, 1881, tomo 71
18. António Aurélio Gonçalves, Noite de Vento, 2ª ed., Praia, ICLD, 1989, p. 122
19. ob. cit., p. 79-80
20. Manuel Lopes, Galo Cantou na Baía, 2ª ed., Lisboa Ed. Caminho, 1998, p. 30
21. Teixeira de Sousa, Capitão de Mar e Terra, Publ. Europa-América, 1984, p. 268
22. Germano Almeida, A longa agonia do Porto Grande in jornal A Semana de 6/7/01
23. Mesquitela Lima, A Poética de Sérgio Frusoni, Lisboa, ed. ICALP, 1992, p. 37
24. João Nobre de Oliveira, A Imprensa Cabo-Verdiana.1820-1975, Macau, Ed. da Fundação Macau, 1998, p. 392
25. Marie-Christine Hanras, Manuel Lopes Um Itinerário Iniciático, Praia, ICLD, 1995, p. 268
26. Manuel Lopes, Galo Cantou na Baía, 2ª ed., Caminho, 1998, p. 29
27. António Aurélio Gonçalves, idem, ibidem, p. 117
28. Germano Almeida, O Meu Poeta, Mindelo, Ilhéu Editora, 1990, p. 208
29. Teixeira de Sousa, idem, ibidem, p. 380
30. Manuel Bonaparte Figueira, Subsídios para o Estudo Evolutivo da Cidade de Mindelo de S. Vicente de Cabo Verde, tese de licenciatura, Lisboa, 1978
31. BO 193/1856, Parte Não Oficial in Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo, Praia, ed. do F.D.N. – Min. da Economia e Finanças, 1984, p. 20
32. Joaquim Vieira Botelho da Costa, A Ilha de S. Vicente de Cabo Verde. 1886 a 1891. “Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa”, Lisboa, 1882, 3ª série, nº 2
33. Germano Almeida, A longa agonia do Porto Grande in jornal A Semana de 6/7/01
por Ana Cordeiro  - Cidade | 17 Junho 2010 | Cabo Verde, Mindelo, porto

3 comentários:

  1. Sim, é mesmo esse "fascínio", um fenómeno que não se sabe bem a que se deve mas que na verdade se sente no próprio ar que se respira na ilha, talvez porque ao lugar dos sonhos lhe baste um pouco de nada. O mito do Mindelo deve ser o resultado de a ilha ter congregado um pouco da alma que morava em cada uma das outras. A essa amálgama humana se juntou umas pitadas da universalidade que entrava no Porto Grande e foi o bastante para que um ser de alma própria nascesse na ilha. Penso que aquilo que alguns designam por "cabo-verdianidade" tem um pouco a ver com a capacidade de gente pobre em terra pobre transcender-se libertando-se do corpo para demandar territórios de felicidade. Mas também pode ser o resultado de uma química operada num pequeno lugar do mundo onde a magia da África se rendeu à sedução da Europa.
    É essa gente singular que ainda nos suscita e estimula o desejo de fazer alguma coisa para que a magia se não extinga. Digamos que houve um palimpsesto onde foram cabendo todas as invenções e mistificações, mas que hoje se apresenta infelizmente quase virgem de inscrições.

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  2. O Mito do Mindelo perdura nosso imaginário não obstante as vicissitudes diversas a sucessão de crises e esperanças que o atravessam. É por isso que à dura realidade objectiva sobrepõe muitas vezes a fantasia a transcendência dessa mesma ralidade

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  3. "Fascínio"...É isso mesmo, amigo Adriano e se eu, povoador de circunstância, me fascinei e fascinado me finarei, calculo o fascínio dos mindelenses de raíz, dos filhos uterinos...

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