domingo, 9 de novembro de 2014

[7604] - ERA UMA VEZ, ANGOLA...(46)


Acerca desse espectáculo  burlesco de homens em cuecas, à meia-noite, no centro de África, convém recordar que o clima sub-sahariano se caracteriza por, apenas, duas estações: uma, a das chuvas a outra, sem chuvas mas bem húmida... Em Angola, e creio que só em Angola, o período não chuvoso, entre Maio e Agosto, é chamado de "Cacimbo" em virtude de, por força da muita humidade, se formarem, durante as madrugadas, extensos mantos de cacimba, em tudo semelhante ao orvalho ou relento europeus...Na altura, entretanto, estávamos em plena época das chuvas e o calor, seja a que hora for, pode ser sufocante...Não é por acaso que, nesta época do ano, pelo menos, no mato, a vida começa muito cedo e muito cedo se esgota o horário laboral...Esta circunstancia, como adiante se verá, viria, até, a condicionar de forma radical a minha projectada viagem, de Cazombo a Malange...
Esta cena de cerca de uma dezena de homens semi-nus, iluminados pela luz branca do "petromax" ainda hoje me emociona pois espelha da forma mais despretenciosa possível, o grau de unanimidade social e sã convivência que o isolamento civilizacional pode promover entre as pessoas, sem recurso a qualquer tipo de grandiloquência ou de teatrais gestos de magnânimidade... Nunca, como nos meus escassos anos de Cazombo, senti as pessoas serem tão iguais a si mesmas, sem máscaras, sem subtilizas cortesãs, sem meias palavras ou meias verdades...Correndo, quiçá, o risco do exagero, eu diria que essas pequenas comunidades dos confins da África lusófona, eram focos de vivência exemplar em que, com um mínimo de presença da tutoria colonial e o maior respeito pelos usos, costumes e tradições autóctones a vida decorria lenta, pacífica, cacimbo após cacimbo sem surtos de malária,  mas abundância de arroz, amendoim e cera de abelha...Até o Soba Jamba tinha um neto mulato, fruto de um rápido e tórrido romance entre a mais jovem das princesas Quiôcas e um camionista de nome Jacinto, a quem Jamba chamava "minha genro"...apesar de o ter visto uma única  vez, antes de saber das aventuras amorosas da filha...Estávamos no Éden, e não sabíamos!

Mulher quioca com cesto de pesca.


3 comentários:

  1. Como venho dizendo a respeito destas crónicas africanas, é sempre um deleite lê-las. Pois, já calculava que o reduzido traje usado à despedida do Zito se devia unicamente ao calor e também ao ambiente de descontracção e franca amizade em que todos viviam nessas ignotas paragens.
    Quando ao neto mulato do soba Jamba, só gostaria de saber se o "genro" pagou alguma multa, que é como por lá se resolviam normalmente esses conflitos. Estava eu em Angola, Gago Coutinho, sede de batalhão, e um soldado se meteu em cubata alheia e possuiu uma mulher que tinha dono, na altura ausente. Surpreendendo os infractores, o marido cornudo queixou-se ao administrador. Este comunicou o caso ao quartel e este comentador, que na altura era alferes, foi nomeado para instaurar um processo. Que foi com todas as formalidades. Mas depois tudo ficaria em águas de bacalhau porque o marido cornudo, em negociação com a autoridade administrativa, aceitou ser indemnizado em dinheiro, a pagar pelo soldado, claro. No entanto, o processo teve de ser concluído e encerrado. Só que ao voltar a identificar o marido cornudo, este deu um nome que não condizia com o primeiro declinado na abertura do processo. O novo nome era Fulai Maitche, ainda me recordo, passados 48 anos (isso foi em 1966). Tendo ficado perplexo com esta alteração, o administrador haveria de me explicar que em casos de traição conjugal a regra é mudar de nome, dado que o anterior fica manchado pela vergonha.
    Anos mais tarde, já no norte de Moçambique, e capitão comandante de companhia, um furriel meu engravidou uma moça nativa. O furriel não quis saber alegando que ela não era de confiança. Só que a autoridade administrativa foi metida no assunto e o furriel, incapaz de provar que não tivera relação continuada com a moça, teve de pagar o "milando", uma quantia acertada entre o administrador, a minha pessoa e o pai da rapariga. Milando era o termo moçambicano que significava conflito, diferendo. Quando falei no caso ocorrido em Angola, esforcei-me para me lembrar de um termo angolano equivalente a milando, mas, a existir, o tempo já se mo varreu da memória. Mas acho que havia um nome. Quanto ao descendente do furriel, a rapaziada dizia que o bebé mulatinho tinha parecenças com ele. Devo dizer que o furriel não mostrou qualquer problema de consciência. Que será feito do rapaz, que, se for vivo, deverá ter 43 anos?
    Isto é complicado, meus amigos...
    Aproveito para acrescentar que eu tive uma boa relação de amizade com o administrador de Angola, que eu via quase como um pai, pois tinha idade para isso. Era branco e natural de Angola, mas lamento não me recordar do nome dele. E tenho saudades dele, porque era um homem bom, justo e de carácter.

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    1. Felizmente para ele, o Jacinto não sofreu qualquer punição, até porque desapareceu da circulação quando lhe chegou a noticia de que a sua "princesa" estava a "engordar"...Aliás, o Jamba tinha um orgulho desmedido no neto, mulato quase branco...Como, aliás, já contei, quando começou a haver problemas de ordem politico-social, Jamba confirmava a sua fidelidade a Portugal, argumentando que não podia combater gente da "raça" do seu neto!
      Quanto ao "milando", existe em Angola um termo de origem no kimbundo que se usava quando havia problemas delicados, complexos ou graves: MAKA...Tinha, até, entrado na linguagem coloquial do português. Não sei se persistirá.
      Quando às sequelas de actos de traição conjugal, pelo menos na zona do Moxico e entre Luenas, Quiocos, Luchases e outros, o tratamento não era muito diferente do que relata com referencia a Moçambique...Creio, até, que existirão tradições comuns ao todo africano e, com eventuais nuances, este deve ser o caso da infelidade conjugal...
      Um abraço
      Z.

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  2. É isso mesmo, Zito,"maka". É o termo correspondente a "milando". Ai que saudades de África, apesar das razões (guerra colonial) que me levaram até lá!.

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