terça-feira, 18 de novembro de 2014

[7636] - L O B B Y ...

   LOBBY
  
 Ouve-se, a torto e a direito, falar de lobbies, e eu próprio já utilizei a expressão em assuntos políticos e económicos. Como um meu leitor não distraído da Micadinaia – nome por que o malogrado Prof. João Manuel Varela gostava de chamar Mindelo –, que detesta estrangeirismos, me perguntou o seu significado e se não haveria palavra portuguesa para o bicho, vou tentar lançar um pouco de luz sobre o que significa.
Lobby é um termo que surgiu não há muito tempo, na esfera política e económica, e nada mais é do que um grupo de pressão nessa esfera, um grupo de pessoas ou organizações que tentam influenciar, aberta, velada ou secretamente, as decisões do poder público em favor de seus interesses.
O lobby medeia o relacionamento entre o poder político e o económico. Em qualquer democracia, o poder económico é tendencialmente um suporte da direita política, mas, quando o poder económico domina mesmo o poder político – o que vem acontecendo amiudadas vezes desde que vingou o neoliberalismo e a globalização -  e alguns interesses económicos se servem do poder político para dominar outros interesses concorrentes, estamos face a lobbies.
Os lobbies passaram, com o neoliberalismo a todo o pano, a ter uma força terrível, capaz de antecipar, inflectir, protelar ou impedir as decisões políticas de forma a melhor corresponderem aos seus interesses. As cumplicidades políticas, os conluios, a movimentação de funcionários públicos aposentados ou exonerados após bom comportamento militante para postos de direcção e administração de grandes empresas privadas e multinacionais rendem muito mais dividendos do que bons investimentos. Notamos isso em vários países, até de regimes aparentemente de esquerda, em que entre o Estado e as grandes empresas privadas há uma modalidade de comunicação subterrânea em vasos comunicantes, não, é bem de ver, em benefício dos interesses públicos mas dos amigos, apparatchiks e ex-governantes, como prémio pelo bom comportamento e pela capacidade demonstrada enquanto governantes de engolir grandes sapos sem enjoos nem regurgitações.
O lobby parasita o Estado e o património público, tal como fazem os empresários afilhados de ditaduras. Pelo seu poder de intervenção na esfera do político, cala e esmaga o empresário honesto e os chamados organismos intermédios da sociedade civil, podendo dar-se ao luxo e ter o gozo de se rir às escancaras na cara dos utentes e consumidores na maior impunidade, por ser arriscado meter-se com ele sabendo-se que está bem escorado em gente influente bem colocado no aparelho do Estado.
Como nos diz o meu contemporâneo dos tempos coimbrãos, actualmente reconhecido jurista e comentador político, Brederode Santos, a diferença entre a guerra dos lobbies e a dos gangs é uma questão de habilitações literárias: ao contrário do monsenhor Marcinkus, o célebre Alphonso Capone – vulgo Alcapone - não tinha formação teológica, mas ambicionava poder vir a comprar Deus na altura própria. A semelhança entre a guerra dos lobbies e a guerra dos gangs é que o adversário comum é a opinião pública e a sociedade civil, pelo que as pressões se devem fazer na penumbra das secretarias e os tiros devem dar-se com silenciador e sem testemunhas.
Presumo não necessitar de mais precisões para o meu leitor se aperceber de que se trata de reola danada, ruim, mesmo maligna. Se bem me lembro, referi-me um pouco a isso num programa da Adeco, na Rádio Nova, conduzido pela Dra Maïsa S. Vieira, aquando da minha última estada, há cerca de dois anos, em S. Vicente, a respeito dos preços dos combustíveis, da gestão dos telemóveis e da indigência de eficácia das nossas agências de regulação recentemente criadas.

Parede, Março de 2011 
                                          
Arsénio Fermino de Pina
(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

3 comentários:

  1. Lobby, Lobby .....Lobbies, Lobbies
    Oligarquias,Oligarquias
    Um texto do amigo Arsénio de Pina publicado no ArrozCatum. Um texto que incomoda e cai a pique ao analisar o contexto mundial o neoliberalismo 'debridé' que está trazendo novas situações de miséria em todo o Mundo, que o digam a legião dos desempregados sem assitência e cada vez com menos direitos e os bancos, da economia mundial de casino em que tornou o capitalismo da bolsa, que são salvos do purgatório ou do inferno pelos governos neoliberais, e ninguém vai para a cadeia. Depois entra para Cabo Verde adentro e 'c'est lá que le bas blesse', que as coisa começam a doer e que o texto ganha 'piada', nste nosso Cabo Verde que foi a terra prometida dos 'gauchiste de tout bord' que prometiam o paraíso na terra e hoje se resume a uma terra de injustiças, corrupção e insegurança para além de ser um antro de droga . Verdades Inconvenientes, An Inconvenient Truth. Um artigo destes põe o Sistema dos Lobbies que é Cabo Verde em Pulgas, e é por conseguinte do desagrado dos hipócritas e fariseus.

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  3. Inteiramente de acordo com as explicações do amigo Arsénio.
    Diz que o poder económico é tendencialmente o suporte da direita, e isso é uma verdade em todo o mundo, com as raras excepções onde a social-democracia conseguiu realmente implantar-se, pugnando por políticas sociais viradas para as classes mais desfavorecidas. Mas mesmo esses casos de feliz realização política estão hoje ameaçados pelo chamado capitalismo de casino, com o seu efeito maligno sobre as organizações sociais e políticas.
    Os lobbies, como bem demonstra o Arsénio, constituem hoje um fenómeno que perverte as regras da moralidade e da justiça, ameaçando a democracia e a soberania dos Estados. Mas, se sempre houve lobbies ao longo da História da humanidade, hoje atingiram uma sofisticação que é fruto da globalização, das tecnologias e da liberalização dos mercados.
    Vemos que de facto nem o mais bem intencionado governo consegue hoje adoptar políticas de cariz social, porque o sistema económico-financeiro global tudo capturou e passou a impor as suas regras. O fenómeno dos lobbies, que dele decorre, exerce-se à escala planetária e ajusta-se a qualquer realidade social, desde os países poderosos até aos mais pequenos (Portugal) ou aos mais insignificantes (Cabo Verde). Contudo, a natureza moral do lobby é a mesma, independentemente do país em causa. Traduz o triunfo do ter sobre o ser.
    Com isto, é de perguntar o que nos espera. O que é que se pode fazer para suster e se possível mudar o sistema? Não é fácil, e com frequência vemos o ror de contradições entre aqueles que lideram as instituições financeiras regionais e mundiais. Hoje, num assomo de consciência, dizem uma coisa, para amanhã se desmentirem com as próprias acções do seu mando.
    Este problema é extremamente complexo e as respostas não no-las dá nem o Keynes, nem o Hayek, nem o Friedman, nem o Marx, porque o mundo actual é impulsionado por variáveis que não entraram no viés do seu pensamento. Mas então outra pergunta se coloca. Se o poder económico em si é tendencialmente de Direita, o poder económico global tem de pertencer à esfera da Direita mais extrema, que é aquela que coloca o ser humano a uma escala ínfima, ao nível da coisa que se comercia. E como o mundo é constituído maioritariamente pelos excluídos do poder económico global, ou seja, daquela Direita mais pura e mais abjecta, lógico será que os primeiros tenham de pertencer à Esquerda, ou seja, à força social global, que por princípio devia contrariar a pulsão do poder ameaçador.
    No entanto, as coisas não se passam com esta simplicidade linear porque o mundo é tão complexo como a natureza humana. E é por isso que vemos pessoas de camadas sociais baixas a votar em forças políticas de Direita, assim como o inverso é verdadeiro. Este será, por conseguinte, um problema sem solução. A menos que os povos do mundo, em cada nação, consigam criar lobbies com a capacidade de se oporem aos do capitalismo de casino, o que terá o significado de uma revolução à escala mundial.
    Obrigado, Arsénio, por este pedaço de conversa.

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