terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

[7796] - O CARNAVAL ENTRE OS CRIOULOS DO MUNDO...

José Almada Dias
“A maioria dos estudiosos afirma que o Carnaval brasileiro surgiu em 1723, com a chegada de portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, que trouxeram a brincadeira de correrias, mela-mela de farinha, água com limão, vindo depois as batalhas de confetes e serpentinas”.
Surpresos? Vamos continuar: “... foram os portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde que trouxeram o Carnaval para o Brasil. Muitos deles eram marranos, cristãos-novos que mantinham uma vida judaica em segredo, fugindo da Inquisição. Os judeus portugueses fugindo à Inquisição foram primeiro para as Ilhas Atlânticas (Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) e depois para o Brasil. Muitos se dedicavam à cultura da cana de açúcar, que depois continuaram no Brasil”. Para todos os efeitos em 1723 os cabo-verdianos eram portugueses de Cabo Verde, de modo que até prova em contrário a essas citações retiradas de vários sites brasileiros, parece que tivemos uma perninha na introdução do Carnaval no Brasil. E esta?!  Até parece uma brincadeira de Entrudo!
Proponho em plena folia de carnaval mindelense, uma viagem ao mundo da fantasia do Carnaval, a festa que os crioulos deste mundo festejam como ninguém.
A origem do Carnaval
Vários historiadores, entre os quais o conceituado brasileiro Voltaire Schilling, afirmam que o Carnaval é a festa profana mais antiga de que se tem registo, existindo há mais de 3 mil anos. A festa terá origens agrárias e não religiosas cujas origens parecem provir do antigo Egipto e o seu processo de formalização foi concluído com a oficialização das festas dedicadas ao deus Dioníso da Grécia Antiga, de 605 a 527 a.C., que passou depois a ser celebrado em Roma como o deus Baco, passando daí para os países de cultura neolatina. Digno de registo é que nesse tempo o mote dessas festas era dado pelas mulheres que as usavam para escapar à vigilância dos maridos e cair na folia, saindo em bandos, com o rosto coberto de pó e com vestes transformadas ou rasgadas, cantando e gritando!! Segundo consta, esta tradição continua viva em Munique na Alemanha, entre outros sítios.
De acordo com Hiram Aráujo, pesquisador de Carnaval, director cultural da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) e autor do livro “Carnaval – Seis Milénios de História”, essas festas dedicadas a Dionísio duravam 3 dias, durante os quais os pagãos dançavam, cantavam e faziam orgias, numa espécie de “vale-tudo”. De forma metafórica, actuavam num autêntico teatro colectivo de inversão de papéis, em que homens pobres se transformavam em reis, mulheres do povo em damas, num anonimato permitido pelas pinturas e máscaras e onde se podia fazer diálogos de “acerto de contas” com as autoridades.
Houve tentativas de parar estas homenagens a  Dionísio – o deus brincalhão, do deboche e da irreverência – mas as autoridades acabaram por render-se às mesmas, ao ponto do tirano grego Pisístrato no século VI a.C. ter mandado construir um templo na Acrópole, o teatro Dionísio, dedicado a concursos de peças cómicas e dramáticas. Daí o Carnaval terá chegado a Veneza e perde a característica pagã com a sua oficialização pela Igreja Católica em 590 d.C.
Carnaval – de festa europeia a celebração mundial
O Carnaval espalhou-se pela Europa, com maior ênfase pelos países católicos, quando o Cristianismo a vinculou à Páscoa, passando a ser comemorada como Terça-Feira Gorda, 47 dias antes do domingo de Páscoa, significando um tempo de diversão e exagero,  que antecede o período de reflexão e jejum dos cristãos antes da Páscoa.
A palavra Carnaval terá origem nas palavras do latim carnis (carne) e valles (prazeres). Outras fontes falam em “Carrum Navales” que eram os carros navais que abriam as Dionísias Gregas nos séculos VII e VI a.C.  Em Portugal a festa era denominada Entrudo, palavra derivado do latim introitus e que significa entrada, início, nome com o qual a Igreja denominava o começo das solenidades da Quaresma.
Ainda hoje são famosos os exuberantes Carnavais de Veneza em Itália e de Nice em França, que inspiraram os desfiles que hoje se fazem por todo o mundo. Na Alemanha o “Karneval” ou “Fasching” é muito animado em cidades como Dusseldorf, Bona e Colonia, começando a 11 de Novembro e estendendo-se até à quarta-feira de Cinzas. E depois dizem que a produtividade é afectada pelo espirito folgazão: na maior economia da Europa, o Carnaval dura meses!

Em Portugal são tradicionais as celebrações em cidades como Loulé, Torres Vedras e Ovar, entre outras. O maior Carnaval em Portugal situa-se contudo na cidade do Funchal, na ilha da Madeira, que foi trabalhado para ser um cartaz turístico que atrai milhares de turistas todos os anos. Idem aspas para o Carnaval nas ilhas Canárias, cartaz turístico internacional nas cidades de Santa Cruz de Tenerife e Las Plamas. Excelentes exemplos para serem seguidos aqui no planeta verdiano.
Da Europa esta festa espalhou-se pelo mundo sendo hoje comemorado desde as Américas à Ásia, seguindo o percurso e a rota dos Descobrimentos e a posterior colonização de vários territórios.
Carnaval a festa adoptiva dos povos crioulos
Não deixa de ser um facto curioso a grande ligação existente entre o Carnaval e as sociedades crioulas do pós-Descobrimentos, um campo interessante para estudos aprofundados.
Nos países de colonização católica a festa é celebrada nas mesmas datas que na Europa latina, ou seja na Terça-Feira Gorda.
Tomemos por exemplo as Caraíbas. Em Aruba, Bonaire, Curaçao, Dominica, República Dominicana, Granada, Guadalupe, Haiti, Martinica, Porto Rico, São Bartolomeu, São Martinho, Trinidad & Tobago festejam na Terça-Feira Gorda. São regiões que foram colonizadas predominantemente por franceses e espanhóis, mesmo que em alguns casos como Aruba, Curaçau e Bonaire tenham mudado posteriormente de “mãos”, passando a ser holandesas.
Um caso especial é Cuba, onde tradicionalmente se festejavam dois Carnavais, um de “Inverno” com ligações religiosas e festejado na Terça-Feira Gorda e outro de Verão. O de Inverno trazido pelos colonos espanhóis era denominado o “Carnaval por los blancos cubanos”, celebrado em clubes privados. O outro era o “Carnaval de los mamarrachos” ou “Carnaval de las clases bajas”, muito ligado à cidade de Santiago de Cuba e aos escravos. É uma festa que se começou por celebrar no fim das colheitas nas plantações de cana-de-açúcar no mês de Maio, onde aos trabalhadores dessas plantações, na sua maioria negros e mulatos, era permitido festejar o fim dessas colheitas. Era igualmente uma forma de distrair esses trabalhadores, alguns escravos outros já libertos de eventuais actividades subversivas. O Carnaval continua a ser a maior e mais popular festa de Cuba.
Nos territórios caribenhos de colonização britânica, o Carnaval é festejado no Verão e está ligado igualmente à safra da cana-de-açúcar. É o caso da ilha de Babados, da famosa e para muitos leviana Rhyana, e dos arquipélagos de Anguilla, Antigua & Barbuda, Belize, Ilhas Virgens Britânicas, Santa Lúcia, São Vicente e Grenadinas, entre outros.
Um outro fenómeno mais recente são os Carnavais de Verão que se celebram no Canadá, EUA, França, Alemanha, Reino Unido e Holanda onde emigrantes originários das Caraíbas reproduzem o carnaval caribenho. Na Holanda o desfile acontece em Julho na cidade de Roterdão, cidade de acolhimento de milhares de crioulos caribenhos e cabo-verdianos.  
Nos Estados Unidos da América o Carnaval festeja-se em Nova Orleães e noutras cidades que foram colonizadas por franceses católicos, celebrando todas o “Mardi Gras” (Terça-Feira Gorda) com exuberantes e coloridos desfiles com carros alegóricos e ritmos onde se vislumbram as influências africanas, celebrações que remontam ao ano de 1857. Essa região conhecida como a terra da música Jazz, é considerada a “América crioula”, e é povoada pelos Louisiana Creole, uma comunidade que resultou da mistura de colonos franceses e espanhóis com populações de origem africana e índia e com fortes influências da cultura francesa, e de onde provém a mãe da cantora Beyoncée.
Mas é em plena América Latina que o Carnaval atingiu o seu esplendor máximo como festa popular. Introduzida pelos portugueses e espanhóis, a festa ganhou ao longo dos séculos uma dimensão popular inigualável, incorporando elementos diversos de outras culturas, designadamente africanas e ameríndias. De festa com ligações religiosas e ligada ao cultivo da terra, saltou para o palco urbano das cidades cosmopolitas de todo o sub-continente.
É celebrada como a maior festa popular da Venezuela, Panamá, Bolívia, Chile, Argentina, Brasil, Nicaragua, Honduras, Mexico, Costa Rica, Equador, Guatemala, México. Um continente  carnavalesco! É também nesta carnavalesca América Latina, terra por excelência de povos crioulos, que se realizam os dois maiores desfiles de Carnaval do planeta: o maior, o do Rio de Janeiro no Brasil e o segundo, o Carnaval de Barranquilha na Colômbia. Este último foi agraciado pela UNESCO em 2003 como um dosMasterpiece of the Oral Intangible Heritage of Humanity, título que o Carnaval de Oruro na Bolívia, as performances artísiticas do Frevo do Carnaval do Recife no Brasil, e o Samba de Roda de São Salvador da Baía também ostentam. 
No Brasil, o Entrudo era descrito da seguinte forma: “Tanto em Portugal, como no Brasil, o Carnaval não se assemelhava aos festejos da Itália Renascentista; era uma brincadeira de rua muitas vezes violenta. Escravos molhavam-se uns aos outros, usando ovos, farinha, cal, laranja podre, restos de comida, enquanto as famílias brancas se divertiam nas suas casas derramando baldes de água suja em passantes desavisados, num clima de quebra consentida de extrema rigidez da família patriarcal.” Aqui em Mindelo ainda me lembro das brincadeiras de atirar ovos às pessoas, mas sobretudo da temível farinha que era atirada aos olhos de quem passava, hábitos que felizmente cairam em desuso no nosso Carnaval.
Segundo Rita Cássia Araújo, após a independência do Brasil em 1822, o Entrudo de origem portuguesa passou a ser visto como algo negativo e atrasado e por iniciativa de intelectuais, artistas e da imprensa foi substituído pelo modelo das festas da Itália e da França já com o nome de Carnaval, e incluindo bailes e desfiles nas ruas com alegorias.
Carnaval em África e no resto do mundo
Em conversa há dias com um amigo da Guiné-Conackry, que já vive em Mindelo há muitos anos e se considera o “Mandjaco mais mindelense que existe”, ele explicou-me que infelizmente na sua terra natal não existe Carnaval, ele que vive intensamente o Carnaval mindelense. Ao que parece os franceses esqueceram-se de introduzir o Carnaval em África, só o levando para o Sul dos Estados Unidos e para as Caraíbas.
O Carnaval é basicamente desconhecido em África, à excepção de Cabo Verde e de algumas cidades onde os portugueses o introduziram e do Carnaval da Cidade do Cabo a cidade crioula da África do Sul. Os crioulos das ilhas Seychelles querem inverter isso por razões de oferta turística. 
Na longínqua Malásia o povo crioulo de Malaca, que fala a língua crioula de base lexical portuguesa papiá criston, celebra o Entrudo há mais de quatrocentos anos, uma herança portuguesa. De existência recente é o Carnaval de Tóquio, no Japão, onde Escolas de Samba desfilam no Asakusa Samba Carnival...

Carnaval tá aí, vamos vadiar, vamos vadiar para a polícia não pegar...
Mindelo ê nossa, Mindelo ê de quele bom... Ariá!

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