terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[7814] - O GENERAL RAMIRES OLIVEIRA...

General Arménio Nuno Ramires Oliveira

 O general Arménio Nuno Ramires de Oliveira nasceu em 9 de Julho de 1925, em Codeçais, concelho de Carrazeda de Ansiães,  e faleceu em 28 de Dezembro de 2013, em Lisboa. Entrou para a então designada Escola do Exército em 1944 e, concluído o curso da Arma de Infantaria, teve as seguintes e sucessivas promoções na sua carreira: a alferes, em 1948; a tenente, em 1949; a capitão, em 1952; a major, em 1961; a tenente-coronel em 1968; a coronel, em 1974; a brigadeiro, em 1977; a general, em 1979. Passou à reserva em 1984. Enquanto capitão, frequentou o Curso de Estado-Maior.
    O leitor habitual deste blogue perguntará: - O que leva este colaborador a trazer para o ARROZCATUM a biografia de um general do Exército Português, atendendo a que os temas normalmente aqui abordados, embora primem pela diversidade, procuram o que tem uma mais estreita ligação com os problemas deste mundo caótico, em geral, e os de Portugal e Cabo Verde, em particular?
    Explico as razões: 
    Em primeiro lugar, porque este oficial serviu em Cabo Verde entre 1959   e 1962 (postos de capitão e major), colocado como chefe de estado-maior no Quartel-General do Comando Territorial Independente de Cabo Verde (CTICV), em S. Vicente;
    Em segundo lugar, porque, nessa sua passagem pela minha ilha natal, comeu “arrozcatum”, cachupa e cuscuz, e com muito deleite, como o próprio me confessaria em correspondência trocada entre ambos,  iniciada cerca de 12 anos antes da sua morte;
    Em terceiro lugar, porque foi o coordenador da elaboração do importante “Plano para o Abastecimento de Cabo Verde em Época de Seca”, por nomeação do então governador da província ultramarina, tenente-coronel Silvino Silvério Marques;
    Em quarto lugar ainda, pela especial motivação e cumplicidade profissional que me leva a falar de uma pessoa que eu muito considerava e de um oficial de alta estirpe que passou pelo Exército. 
    Outras razões menores poderiam ser aqui inventariadas, como a profícua e interessante correspondência que mantive com ele, centrada em assuntos de cultura geral e em temas relacionados com a geoestratégia e os problemas de Portugal. Mas fiquemos por aqui.
    Acontece que, como militar que sou, nunca servi às ordens do general Ramires Oliveira, mas há um curioso episódio da minha adolescência que não resisto a contar. Por volta de 1961/1962, estava eu a terminar o liceu e pertencia à então chamada Milícia no âmbito da Mocidade Portuguesa. Se antes eu nunca frequentara a Mocidade Portuguesa, a partir dos 18 anos a Milícia era de carácter obrigatório, sob pena de perda de ano por falta. O compromisso com a Milícia limitava-se a ir receber, aos sábados à tarde, uma espécie de instrução pré-militar no quartel da antiga 2ª Companhia de Caçadores. Aprendia-se Ordem Unida e a manejar a espingarda (na altura, a obsoleta espingarda Lee-Enfield, de 1917. A Mauser era para a tropa pronta e a outra era a instrução da recruta nas colónias).  Ora, vez por outra, realizavam-se acampamentos, sobretudo durante as férias. Um belo dia, fomos acampar para lá do Monte do Sossego. O instrutor responsável era o tenente Santiago Maia, mas grande parte da instrução era ministrada por um sargento chamado Chaves. Este lembrou-se da insólita ideia de um ataque ao cimo daquele Monte, em moldes militares mas sem que soubéssemos o elementar da instrução individual do combatente, quanto mais das pequenas tácticas de infantaria, ou seja, nos escalões esquadra, secção e pelotão. Mas tínhamos efectivos para mais ou menos 3 pelotões e lá desencadeámos o nosso  “ataque”. Eu era “soldado raso” e estava sob o “comando” daqueles que eram graduados provindos da militância  anterior na Mocidade Portuguesa. Enfim, os rapazes lá cumpriram a ordem de “ataque” e chegaram ao cimo do Monte esfalfados e a suar às estopinhas, em magote desordenado, mas impantes de orgulho pelo seu desempenho pré-militar. Regressados do ataque, eis que surge num automóvel militar o major Ramires de Oliveira, ao tempo chefe de estado-maior, certamente com o intuito de ver como andava a portar-se essa Milícia. Perguntou então o que tínhamos acabado de fazer. O graduado mais alto da Milícia lá explicou tudo, e o major abanou a cabeça em sinal de reprovação, reprimindo um sorriso de mofa, ante o visível embaraço do sargento.
    Depois desta pequena deriva, vamos ao que mais importa. Este oficial cumpriu, pois, uma comissão de serviço em Cabo Verde, de 1959 a 1962, e duas em Angola, de 1963 a 1965 e de 1971 a 1973. Em Cabo Verde, ficou já assinalado que, para lá das tarefas inerentes à sua função de chefe de estado-maior, participou nesse já referido trabalho determinado pelo governador Silvério Marques. Na nossa correspondência, dar-me-ia conta da enorme satisfação que ainda guardava na memória pelo seu contributo para algo de importância vital para o povo de Cabo Verde. É das tarefas que “me calaram e calam ainda bem fundo”, confessava ele.
    Em Angola, na comissão de serviço de 1971 a 1973, como chefe de estado-maior (era então tenente-coronel)  do general Bettencourt Rodrigues, no Comando da Zona Militar Leste, desenvolveu uma importante estratégia político-militar, cujos resultados se revelaram fundamentais para reduzir drasticamente a actividade guerrilheira naquela vasta zona do território angolano. Com efeito, elaborou e coordenou a chamada “Operação Madeira”, que consistiu numa espécie de “éntente cordiale” com a UNITA. Esta passou desde então a ter como opositor mais directo o MPLA, o qual, a passar também por dificuldades estruturais e conjunturais,  perdeu fulgor de tal maneira que a subversão se considerou praticamente extinta na zona, dando razão a que se falasse na “Vitória Militar no Leste”. Não tenho conhecimento directo ou oficial deste facto senão por relatórios e narrativas posteriores. Estive, sim, no Leste de Angola, mas numa altura bem mais recuada, em que o MPLA andava no auge do seu poderio militar, tanto que o meu Batalhão sofreu um total de 20 mortos no seu subsector.
    Relativamente a outros cargos militares, refira-se apenas, para se ser breve, que, com o posto de tenente-coronel, este oficial estava colocado na sede do Comando da NATO em Bruxelas, na altura em que se desencadeou o golpe militar do 25 de Abril. Terminada essa função, e sendo promovido a coronel em 1974, foi comandar o Regimento de Infantaria do Porto. Exerceu também o cargo de Comandante Geral da Guarda Fiscal, entre 1978 e 1980.
    No final da sua carreira, ou já na reserva, foi nomeado para coordenar a organização da História do Exército Português (1910-1945), obra que me foi útil quando, há uns anos, escrevi o historial das Tropas Expedicionárias a Cabo Verde durante a II Guerra Mundial. Por mais de uma vez, consultei o general para me confirmar ou esclarecer melhor alguns factos, tendo inclusivamente recorrido à sua memória reportada a São Vicente para me informar do destino que foi dado ao antigo quartel localizado no Lazareto e em que esteve o Batalhão de Infantaria 7. 
    Homem também de grandes preocupações cívicas, dedicou grande parte da sua vida à terra trasmontana, defendendo o vale do Tua e a sua via-férrea “de forma abnegada, sem nunca daí tentar retirar qualquer protagonismo”, como refere em comunicado a Plataforma Salvar o Tua.
    O general Ramires de Oliveira confessava-me o afecto que sentia por  Cabo Verde: “terra de poucos recursos naturais mas rica na sua humanidade, em certa medida a fazer-me lembrar o meu Trás-os- Montes; ainda por cima, nasceu-me uma filha em S. Vicente.” Era de opinião de que Cabo Verde não era uma colónia, dizendo que foi um erro crasso não se lhe ter conferido o estatuto de região autónoma em tempo devido.
    Enfim, liga-me à memória deste grande general do Exército Português a seguinte conjugação de circunstâncias: a minha condição de militar, o amor que ele dedicou à terra cabo-verdiana, e, finalmente, o elevado sentimento de apreço e admiração que me suscitou. Oficial de excepcional competência, dotado de elevados princípios éticos e imbuído  de grande sentido de humanidade,  era uma síntese perfeita do Homem e do Militar.
    Até ao próximo toque de alvorada, Meu General!

Tomar, 22 de Fevereiro de 2015

Adriano Miranda Lima


5 comentários:

  1. O artigo de hoje não é senão um acto de justiça e de reconhecimento. Pela parte que me toca não tenho a memória de qualquer acto indigno dos componentes das Forças Expedicionàrias. Pelo contràrio, mesmo na minha pouca idade, sempre ouvi do bem que faziam - em tudo - para com os civis. Quanta fome mataram ? Quantas vidas salvaram ?

    Logo à chegada deram emprego a muita gente contratando trabalhadores para as construções e parte da manutenção que não podiam ocupar-se. Por outro lado, cada soldado tinha a sua lavadeira, muitos se ocupavam de uma criança indigente a quem asseguravam (total ou parcialmente) da sua alimentação, chamados carinhosamente de "impedidos". Isso nos leva automaticamente a outra faceta dos acontecimentos, mas... cada coisa em seu tempo e, com o Adriano, estou certo que a memória de mais alguns militares virão aqui ou algures.

    Bem haja, meu Coronel !!!

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  2. Excelente. Lembro-me deste general na foto referente ao Plano para o Abastecimento de Cabo Verde em Época de Seca onde entre vária pessoa estava o Dr Teixeira de Sousa. Efectivamente o General tem razão CV não era colónia pois nunca aceitou este estatuto. Vicissitudes da História

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  3. Obrigado, Val. Para que não haja dúvidas para alguém, lembre-se apenas que este oficial esteve em Cabo Verde entre 1959 e 1962. As Tropas Expedicionárias constituíram um episódio ocorrido entre 1941 e 1945, voltando depois tudo à rotina normal (efectivos normais da guarnição).

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  4. Mais um interessante e instrutivo texto adriânico. Não conheci este militar mas sim o seu sucessor (penso que o era), o major Cravo, tendo sido colega de turma de um dos seus filhos.

    Braça castrense,
    Djack

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  5. Errata ao meu comentário
    Onde se lê
    varia pessoa
    deve-se ler
    várias pessoas
    várias pessoas

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