quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

[7824] - QUATRO DÉCADAS DEPOIS...

O Governo de São Tomé e Principe dá um passo importante para a melhor inserção e “inclusão” da comunidade cabo-verdiana radicada naquele país, sendo que esta terça-feira o Ministro do Emprego e Assuntos Sociais de S. Tomé e Príncipe, Carlos Alberto Pires Gomes, anunciou um projecto do Executivo liderado por Patrice Trovoada para conceder a nacionalidade santomense aos cabo-verdianos radicados desde os primórdios da independência.


Uma boa notícia avançada em conferência de imprensa após audiência com o Primeiro-Ministro cabo-verdiano, José Maria Neves e que para Carlos Gomes é uma “questão de justiça” por tudo o que “deram de si” para São Tomé e Príncipe. Para além de contribuir para a sua maior “inclusão”, esta medida terá efeitos práticos na melhoria das condições desses cabo-verdianos.
Um exemplo é que passarão, assim, a beneficiar de regalias e direitos que não dispunham, entre os quais serem abrangidos por inteiro no sistema de previdência social e poderem ter direito a maior protecção e à junta médica. “Com essa nacionalidade santomense (…), estando doentes ou em situação de evacuação, já o Governo irá assumir essa evacuação…”, como poderão votar nas eleições em São Tomé, etc., podendo ser cidadãos de corpo inteiro.
Este é mais um sinal de que o Executivo liderado por Patrice Trovoada estará “dispostos e disponíveis para continuar a estreitar esses laços de amizade, de solidariedade e cooperação entre os dois povos”, afirma o Ministro Carlos Gomes.
Ainda no que concerne à inclusão dos cabo-verdianos, sobretudo os chamados “contratados” que se aventuraram por São Tomé e Príncipe na época colonial para trabalhar nos campos de café, o Ministro Carlos Gomes apela ao apoio de Portugal, pela sua “cota parte de responsabilidade” no processo enquanto Governo colonial, na altura. Todo apoio será bem-vindo”, reflecte, ciente de que Cabo Verde e São Tomé sozinhos “não vamos conseguir resolver os problemas dos cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe”.  

11 comentários:

  1. Recentemente, já dissemos o que tínhamos a dizer sobre este assunto na internet e em papel. Os são-tomenses estão a cumprir finalmente o dever que (também) lhes cabe, pois não é nenhum favor o que agora anunciam, visto que milhares de cabo-verdianos deixaram naquela terra o couro e o cabelo que contribuiu para o progresso da dita. Agora falta outros cumprirem a sua parte.

    Braça satisfeita,
    Djack

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  2. Esta luta e luto tem mais d'um Século....

    "EMIGRAÇÃO DE SEVIÇAES CABO-VERDEANOS PARA S. THOMÉ"

    " - Vimos há já mezes, com verdadeiro assombro e desgosto, nos jornaes da capital do paíz, que o sr. Azevedo Gomes, então ministro da marinha e colonias, por imposição de roceiros de S. Thomé, -- que continuam sendo os caciques das colonias africanas de Portugal --, ordenara, telegraphicamente o recrutamento de serviçaes em Cabo Verde, por serem os indígenas d'esta província refractários á contaminação da doença do sono.

    Affirmando que houve equivoco na informação prestada do então ministro das colónias, pois que é publico e notório que os caboverdeanos não são tal refractários á epidemia da doença do sonno, -- pois que contra factos não há argumentos --, podemos também afirmar que a emigração dos filhos d'estas ilhas de Cabo Verde, ou antes, d'esta ilha de Thiago, ( ilegível) de S. Thomé e Principe, não só é prejudicial á agricultura e commercio d'este archipélago de Cabo Verde; mas muito principalmente porque o serviçal caboverdeano que for para S. Thomé e Principe, embora chegue a regressar á sua terra natal, quando não venha com a doença do sonno ou com anemia profunda, o seu organismo vem tão atrofiado, que até estúpido regressa!

    E não obstante isso, acossados pela crise alimentícia por que está passando esta ilha, e em consequência do então ministro das colonias, sr Azevedo Gomes, têm sido contratados, e já seguiram para aquella província 2.000 desgraçados que, se lá não encontrarem a morte física, regressarão, todavia, moralmente mortos!

    Ora, se o governo da metrópole não puzer, de vez, um dique á emigração dos filhos d'esta provincia para as roças de S. Thomé e Principe, quando um bambúrrio da sorte, a doença do sonno não entre a devastar o resto da população d'esta ilha, em poucos annos fará d'esta terra um azylo de inválidos..."
    .....
    ( Segue o texto com apelo veemente ao ministro: - " ao invés, facilite e apoie a emigração para os Estados Unido")
    Voz de Cabo Verde / Dezembro de 1911.

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  3. 40 anos depois mesmo assim mais vale tarde do que nunca
    Notemos a ressalva:
    ao apoio de Portugal, pela sua “cota parte de responsabilidade” no processo enquanto Governo colonial, na altura. Todo apoio será bem-vindo”, reflecte, ciente de que Cabo Verde e São Tomé sozinhos “não vamos conseguir resolver os problemas dos cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe”.

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  4. É óbvio que este assunto não pode ser resolvido sem o apoio de Portugal. Tratando de dinheiro o único que pode pagar é este país. Mesmo assim isso não desresponsabiliza Cabo Verde neste dossier que é uma autêntica pouca vergonha.
    Finalmente algumas coisas vão-se desbloqueando aos poucos. Sem a sociedade civil a malhar nada acontece

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  5. Eu nem digo "mais vale tarde que nunca" porque levaram à força um primo meu que faleceu pouco tempo depois por não adaptação ao trabalho que nada tinha com a sua profissão de sarralheiro. Também não vejo razão de estar satisfeito porque os danos são enormes, incalculàveis.
    Obrigaram-nos a ir trabalhar e não cumpriram o determinado no contrato (regresso). Continuaram a trabalhar em condições iguais ou piores quando prometeram (estatuto do partido) ocupar-se deles. 40 anos depois, em altura de mudança politica, dão sinais de vida. O que é isso?

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  6. O art° 3° do Estatuto do PAIGC datado de 1960 diz o seguinte: regresso imediato doscabo-verdianos das roças de São Tomé. Ali ficaram depois da Independência em piores condiçoes que nos anos de contrato com direito ao regresso e uma indemnisaçao. Além disso tinham emigrado como cidadãos portugueses devendo merecer a mesma atençao porque muitos deles tinham prestado o serviço militar no exército português. A situaçao das às secas teve sempre como resposta a trasnferência de milhares caboverdianos para as roças de São Tomé e Principe. Era a unica resposta e servia para engrossar as contas bancarias dos roceiros que viviam da desgraça dos cabo-verdianos.A emigraçao para São Tomé e Principe começa com as fomes de 1861/1863. Mais de mil cabo-verdianos morrem nessa altura de febres tropicais na ilha do Principe.. Em 1902 para proteger e ajudar os roceiros cria-se o passaporte para viajar a um preço elevado para impedir a emigraçao dos cabo-verdianos para o Senegal onde se necessitava da mão d'obra cabo-verdiana para a construcçao da cidade e do porto de Dakar. Sena Barcellos e Eugénio Tavares denunciam essa nova forma de regresso a escravatura.;; Em 1912 o português Jeronimo de Paiva publica no Porto um documento violento contra a situaçao dos trabalhadores caboverdianos nas roças de São Tomé. Em 1918 é a vez de Eugénio Tavares fazer a mais violenta denuncia na Voz de CAbo Verde. E Os claridosos a começar por Osvaldo Alcantara, heteronimo poético de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Gabriel Mariano, Ovidio Martins, Onésimo Silveira e outros ocntinuaram a denunciar esssa situaçao do contrato acompanhado também pelos nossos trovadores como B.Leza, Jorge Monteiro, Abilio Duarte, Manuel d'Novas, etc. O diabo é que quarenta depois veem nos falar do direito à nacionalidade satomense quando em qualquer pais da América ou da Europa éa preciso 5 anos para ter direito à nacionalidade. Isso até parece um escandalo e não o principio duma soluçao. O Paigc prometeu o regresso e Portugal deve ter adignidade de assumir as suas responsabilidades historicas.

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  7. Bom que esta notícia tenha sido aqui postada. Registo os factos antigos que o nosso pesquisador Artur Mendes foi buscar aos arquivos e sublinho a pertinência do Luiz Silva ao chamar a atenção para a circunstância de terem sido necessários 40 anos para ser concedida a nacionalidade àqueles nossos conterrâneos, quando na maior parte dos países bastam, para o efeito, 5 anos. É que eu até julgava que eles já tinham adquirido aquele direito básico que, convenhamos, não era nada por aí além. É caso para este desabafo: - Só em África!
    É absolutamente óbvio que cabe a Portugal grande responsabilidade no acontecido. Claro que Portugal tem as costas largas em quase tudo que se prenda com o problema da descolonização. Claro que as suas costas ficarão ajoujadas demais se se lhe quiser assacar todas as reparações. E é também evidente que o actual Portugal democrático, a passar por imensas dificuldades, não tem culpa pelos erros do passado, e não será justo que o seu povo tenha de apertar o cinto que já não tem furos para acudir a desmandos antigos. Contudo, este caso dos desterrados em S. Tomé é um caso especialíssimo, diferente de outros episódios do descalabro da descolonização. Essa pobre gente foi abandonada, ignorada, desprezada, sem voz própria para se fazer ouvir. É incompreensível que décadas atrás, quando as vacas estavam mais gordas, não tenha havido diligências empenhadas do PAICV para concertar com Portugal uma solução razoável para este problema. Triste sina é a dos pobres e daqueles que estão longe do proscénio da política.

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  8. No meu comentário atrás, deveria ter dito, não o PAICV, mas o governo de Cabo Verde.

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  9. Sobre este tema.

    Há relativamente pouco tempo pedi a RTP ( Arquivo Histórico) que me enviasse uma relação de reportagens feitas em S. Tomé. O "material" é vasto, vai desde entrevistas aos "mártires" até à intervenção de políticos cabo-verdianos e santomenses.
    O custo em suporte DVD é de 90 (noventa) euros...
    Por mor da crise, aguardo uma intervenção divina ou da Santa Casa da Misericórdia !

    Se alguém estiver interessado, apite.

    Seria interessante edita-las ... só para ver a cara de pau dos nossos patrícios governantes!

    " Maldiçon... un ca podê vmorrê na nha terra -- disse um ancião!

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  10. Mendes: a ignorância da historia da emigraçao para São Tomé é tamanha: há dias uma jornalista do jornal Asemana referindo-se a visita desse Ministro de São Tomé a Cabo Verde escreveu que a emigraçao para São Tomé teria tido inicio nos preincipios dos anos setenta. Mandei um comentario violento e o artigo dessa ignorante jornalista desapreceu depois de cinco minutos. No livro de Jeronimo de Paiva editado em 1912 existe umù testemunho digno dum trabalhador cabo-verdiano que sabia ler e escrever e que somente a fome o obrigara a aceitar as humiliantes condiçoes do contrato. Dizia que "lá onde muitos morreram, conseguiu ficar de pé. E agradecia Deus de poder regressar à sua Terra. Mas que no caso de havber fome preferia morrer à beira da estrada que acveitar regressar às condiçoes humilianters do trabalho nas roças. O livro de Antonio Carreira "Migraçoes nas ilhas de Cabo Verde é o maior testemunho dessa dolorosa emigraçao. Estou interessado nesta documentaçao. Podemos criar um grupo e financiar a sua ediçao como aconteceu com o livro Os caminhos da Regionalizaçao. Braça,

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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