sábado, 28 de março de 2015

[7948] - MAGISTER DIXIT...

Manuel Brito-Semedo

NOTA PRÉVIA - Dada a extensão e o indesmentivel interesse desta palestra do Dr. Manuel Brito-Semedo, hoje proferida na cidade do Mindelo - S.Vicente (Cabo Verde) - a sua postagem obedecerá ao principio há algum tempo aqui enunciado e segundo o qual o Blogue, para conceder aos seus visitantes um período alargado de leitura e comentário a este notável trabalho do insigne académico, não editará qualquer outro material pelo período de 48 horas...Boa leitura!

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Workshop II



UMA ECONOMIA DO CONHECIMENTO PARA SÃO VICENTE

Antes de mais, informo que estou cá não na qualidade de consultor, para dar ou fornecer consultas técnicas ou pareceres ou mesmo apresentar propostas prontas para serem implementadas, mas na de académico, com um conjunto de reflexões e hipóteses para discutir convosco a sua validade, ou não.
Digo isto porque entendo que esta Conferência, integrada por estes três Workshops – São Vicente, Uma economia exportadora e um Centro Internacional de Prestação de Serviços: os factores de competitividade, o ambiente de negócios, o papel do sector privado e a economia das Ilhas; Uma economia do conhecimento para São Vicente; e S Vicente, Um pólo turístico e cultural de excelência – deverá dar pistas e indicar caminhos para a revitalização da economia, da cidadania e da qualidade de vida em São Vicente.
Discutir uma economia do conhecimento para São Vicente é o mesmo que discutir a vocação histórica desta ilha e o papel que ela pode desempenhar no desenvolvimento da região norte do país. Assim, imagino que se espere que trate o tema na perspectiva da articulação do eixo: academia (pública e privada) – sector público (governamental) – sector privado (empresarial). 
Contudo, se Cabo Verde ainda não conseguiu superar o desafio da vulnerabilidade económica, estou convencido que isso não virá da academia intramuros, nem do sector privado fechado em si próprio nem do sector público como D. Quixote a lutar contra os moinhos de vento!
Segundo o Censo de 2010, a ilha de São Vicente tem uma população de 76.107 habitantes. Desses, 69.904, ou seja, pouco mais de 90%, vive na cidade, numa área total de 72 km², o que faz do Mindelo um dos espaços mais densamente povoados do país (970,88 hab./km²). A taxa de desemprego em 2012, segundo fontes do INE, era de 28,9%, muito superior à média nacional, de 16,8%. Para uma população com esse perfil, a economia do conhecimento só funciona se ela se aliar, pelo menos, a mais três eixos: (i) economia criativa – economia cultural – economia solidária; (ii) protecção de serviços urbanos de qualidade – reabilitação do património edificado – preservação do património imaterial; e (iii) democracia participativa – empoderamento do tecido social – articulação com as migrações (emigrantes e imigrantes). Não esquecendo a perspectiva geracional e do género.
Uma visão global e sistémica da questão deverá, assim, passar, obrigatoriamente, pela articulação, não de um dado conjunto de eixos, mas de vários em simultâneo, numa perspectiva de integração e complementaridade.
Passo a explicar-me e a desenvolver esses eixos e as perspectivas de articulação.

EIXO 1: Academia – Sector Público – Sector Privado

Instituições de Ensino Superior Públicas

A Universidade de Cabo Verde é uma instituição nacional e como tal tem de ser acessível a todos os cabo-verdianos, no país e na diáspora. Ciente dessa sua missão, ela deverá ser pensada e estruturada não numa lógica de pólos, como vem funcionando – Santiago (sede, com 4 unidades orgânicas) e São Vicente (1 unidade orgânica e 3 delegações das unidades orgânicas de Santiago) – mas numa lógica de regiões, norte e sul do país.
Recordo que foi essa mesma lógica de região que terá levado a Igreja Católica, em 2003, a criar a Diocese do Mindelo, por desmembramento da Diocese de Santiago de Cabo Verde, com sede na Praia. Aliás, é a mesma lógica que, recentemente, terá levado a Empresa de Energia e Água a separar-se em Electra Norte e Electra Sul e que agora leva o Governo a anunciar o desdobramento do Cabo Verde investimentos.
Partindo da necessidade do reforço da instituição de ensino superior público na região norte do país, com sede em São Vicente, para dar uma resposta de proximidade a todas as ilhas do norte e do barlavento: Santo Antão como ilha agrícola e turística, São Vicente como ilha do Porto Grande, da pesca e do turismo; São Nicolau como a ilha das pescas, da indústria conserveira de peixe, agrícola e turística; Sal como ilha de mar, aeroporto e turismo; e Boa Vista como ilha de mar e turismo; deve-se pleitear por uma escola forte, com qualidade, com diversos níveis de formação, desde a profissionalizante à investigação, que atenda às suas vocações e especificidades socioeconómicas e culturais.
Nesse pressuposto, uma Universidade Pública na região norte do país precisa ser dotada de autonomia administrativa, financeira e científica, constituindo-se numa espécie de Pólo de Desenvolvimento Tecnológico, caminhando gradativamente para uma Universidade Técnica de Cabo Verde (Uni-CV II) e, em associação com o Instituto do Mar e da Meteorologia (resultado da junção do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas e o Observatório Oceanográfico de Cabo Verde), fundarem um Campus do Mar.
Na verdade, a política de expansão da Universidade Pública tem como ponto de partida as áreas definidas pelo Governo como estratégicas para o desenvolvimento sustentável do país e tem como compasso os indicadores de crescimento da população e, em particular, da população estudantil que termina o ensino secundário.
A Universidade Pública em São Vicente, através do seu Departamento de Engenharias e Ciências do Mar (ex-ISECMAR), labora nas áreas definidas como estratégicas para o desenvolvimento do país, nomeadamente dos chamados clusters de desenvolvimento, tais como:
– Mar, oferecendo cursos profissionais de marinheiro, marinheiro pescador, licenciatura em ciências náuticas, ramos pilotagem e engenharia de máquinas marítimas, e oferece ainda os únicos cursos a nível nacional, de licenciatura e de mestrado em biologia marinha e pescas, sendo que a investigação em biologia marinha é um dos ramos mais activos na universidade.
O curso de gestão e planeamento de transportes marítimos pode ser visto também como um esforço de fornecer capacidade humana para a economia do Mar.
– Energias, com os cursos de estudos superiores profissionalizantes em instalação em manutenção de sistemas de energias renováveis, instalação e manutenção de equipamentos industriais, hospitalares e hoteleiros, licenciatura em engenharia mecânica, electrotécnica, mestrado em energias, sendo a única universidade no país que oferece essas formações;
– Tecnologias de Informação e Comunicação, oferecendo a licenciatura em engenharia informática e formações superiores a nível de telecomunicações;
– Engenharia Civil, com o curso de licenciatura em engenharia civil concorrendo também para a economia do mar, sabendo que ela inclui a construção de infra-estruturas portuárias.
Uma vertente importante da política de expansão da Universidade de Cabo Verde é o da qualificação do seu corpo docente. Presentemente, o Ex-ISECMAR, segundo dados fornecidos pelo Gabinete de Planeamento e Cooperação da Uni-CV, conta com 10 docentes em processo de formação, sendo 9 no doutoramento e um no pós-doutoramento, em cinco áreas de especialidade: Ciência da Computação, Biologia Marinha e Pesca, Matemática Aplicada, Desenvolvimento do Meio Ambiente, Genética e Biologia Molecular.
Toda essa capacidade formativa e de prestação de serviço, existente e potencial, com laboratórios e equipamentos sofisticados, adquiridos no âmbito da parceria internacional, e oficinas relativamente bem apetrechadas, poderá ser rentabilizada pensando nos PALOP, como acontecia quando era Centro de Formação Náutica, e nos países da CEDEAO.
Apesar dessa capacidade do ex-ISECMAR, é de se lamentar não existir internamente uma cooperação efectiva entre as empresas dessas áreas referenciadas e a Universidade Pública, parecendo caminhar em linhas paralelas ou estando de costas viradas. Um exemplo é o Parque Tecnológico do Lazareto para o qual a universidade poderá contribuir com capacidade técnica para a sua viabilização. Contudo, já não se estranha nada. Basta dizer que a Uni-CV não faz parte dos integrantes do Núcleo Operacional do Conselho Estratégico do Cluster do Mar e a própria Escola do Mar, anunciada pelo Governo como devendo ser uma unidade orgânica independente dentro da Universidade de Cabo Verde e a ser construída de raiz, não passou pelo Conselho da Universidade, nem consta do orçamento da Uni-CV.
Em conclusão, a política de expansão da Universidade Pública na região norte, deverá passar

-                  pela concentração da sua missão de ensino e investigação nas áreas definidas como de suporte ao desenvolvimento, nomeadamente, nas áreas do Mar, TIC, Energias, Engenharia Civil, Ciências Agrárias e Ambientais (esta ainda inexistente), deixando as outras áreas para as Instituições de Ensino Superior Privadas;

pelo reforço da parceria estratégica com o INDEP, Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas, e o Observatório Oceanográfico de Cabo Verde;

pelo aproveitamento das potencialidades de infra-estruturação, nomeadamente as infra-estruturas existentes e ou construindo nos terrenos da universidade na Ribeira de Julião;

pelo continuado esforço de capacitação dos docentes; e

pela criação de condições de acolhimento de estudantes da região do barlavento, de todo o país e da costa ocidental de África.

De referir ainda a existência do novel Instituto Universitário de Educação, criado em 2012 a partir do Instituto Pedagógico, sob a dupla tutela do Ministério do Ensino Superior e do Ministério da Educação, que se ocupa da formação de professores para o ensino básico e que, de momento, está a fazer o up grade dos docentes oferecendo o complemento da licenciatura.

Instituições de Ensino Superior Privadas

Para além da Universidade de Cabo Verde e do Instituto Universitário de Educação, Mindelo acolhe ainda cinco das oito Instituições de Ensino Superior privadas do País: Universidade Jean Piaget de Cabo Verde e Universidade Lusófona Baltasar Lopes da Silva, ambas portuguesas, Universidade do Mindelo, Instituto das Ciências Económicas e Empresarias e M_EIA, Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, todas concentradas na Morada, num raio de não mais de 1 km.
As ofertas formativas, quase todas do nível da licenciatura, vão das Ciências Sociais e Humanas, Letras e Línguas à Contabilidade e Gestão, Marketing e Turismo, passando pelas Ciências de Educação, TIC, Enfermagem e Arquitectura. De destacar, pela sua especificidade, as Artes, com os cursos de Artes Visuais e Design para Comunicação, ministrados pela M_EIA, a única escola de arte do país, mas de dimensão reduzida.
Curiosamente, ou nem por isso, nenhuma das Instituições de Ensino Superior, pública ou privada, oferece formação na área da Música, do Teatro ou do Cinema. Constata-se igualmente que, apesar de haver um número elevado de estudantes universitários, à volta dos 4.700, numa estimativa com base no Anuário Estatístico do Ensino Superior 2010/2011, sente-se muito pouco o peso da academia na vida da cidade com elevação do nível cultural dos citadinos ou mesmo no exercício de uma cidadania mais activa e participativa, ou seja, no seu empoderamento.
Nesta e noutras áreas é preciso ser-se inventivo e ir a contra corrente, como por exemplo:

a universidade, na modalidade de cursos de licenciatura, não é para todos nem todos têm perfil para ela, não podendo todos ser doutores ou engenheiros. Deve-se pensar num forte investimento no ensino profissionalizante;

cada instituição de ensino superior não é nem deveria ser um compartimento estanque. Os seus eventos (conferências, seminários, palestras, etc.) e cursos deveriam ser abertos, de forma salutar, a alunos de outras instituições e deveria possibilitar a cidadãos não universitários inscrever-se numa disciplina, numa modalidade de extensão.

Nesse caso, numa mesma turma, o docente teria diversidade, o que iria potenciar a relação ensino-aprendizagem: aluno regular, aluno da disciplina que a faz como optativa e aluno de extensão. Todos juntos criam redes, partilham culturas, saberes, valores, empoderam-se e podem daí surgir oportunidades de trabalho. Da mesma forma, tendo uma instituição um professor visitante para leccionar determinada disciplina, este poderia ser convidado para fazer uma conferência numa outra universidade;

as instituições de ensino superior deveriam adoptar o conceito de “escola digital”, informatizando-se para se ter acesso aos chamados objectos digitais de aprendizagem que ajudam os estudantes na aquisição de conhecimentos, tais como mapas, animações, vídeos, jogos, simulações, etc.. Com mais recursos tecnológicos, seria interessante desenvolver iniciativas como Olimpíadas... de Biologia, de Matemática, de Química, de Português, ou até de Astronomia. As bibliotecas, essas, deveriam migrar para mediatecas;

ir a um lançamento de livro, assistir a uma peça de teatro, ir a um concerto ou ver um filme, deveria passar a contar como hora de actividade complementar aos alunos universitários, não se formando aqueles que não fizessem um determinado número de horas. Imagino que, assim, os alunos andariam à procura delas e partilhariam as informações sobre um ou outro evento nas redes sociais. Quero crer que isso é sementeira com garantia segura;

alunos universitários poderiam ser envolvidos em campanhas do Ministério da Saúde, ou outro, por exemplo, entrevistando pessoas sobre os seus hábitos de vida, alimentação, sono, lazer, podendo obter-se assim dados para a implementação de políticas e, principalmente, para a avaliação de políticas públicas;
Uma iniciativa louvável e que, vingando, poderá contribuir para alterar esse quadro é a recém-criada (Julho de 2014) Liga das Associações Académicas Universitárias de São Vicente.

EIXO 2: Economia da Cultura – Economia Criativa – Economia Solidária

Economia da Cultura designa o ramo da economia que integra a criação, a distribuição e o consumo de obras de arte. Inicialmente, esteve ligada sobretudo às Belas Artes, às artes decorativas, à edição, à música e aos espectáculos ao vivo. A partir dos anos oitenta do século XX, alargou-se a outras actividades culturais, o cinema, a edição de livros ou de música, e à economia das instituições culturais, os museus, as bibliotecas, os monumentos e sítios históricos.
São Vicente, sem cinema, sem salas de espectáculo, com unicamente duas galerias de arte (“Zero Point Art” e “Ponta d'Praia Gallery”), sem museus, sem monumentos e sítios históricos, com uma edição de livros e de CDs pouco expressiva e uma fraca capacidade de consumo de objectos de cultura ou obras de arte, tem apenas três produtos como únicos recursos susceptíveis de gerar uma economia de cultura: a Música, em formato de animação nos hotéis e nos restaurantes e festivais, com destaque para o Festival da Baía das Gatas; o Teatro, com o Festival Mindelact, actualmente o mais importante acontecimento teatral de toda a África Lusófona; e o Carnaval, enquanto produto turístico.
Economia Criativa pode ser definida como processos que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços, usando o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual como principais recursos produtivos.
Apesar da ilha de São Vicente ser conhecida pela sua criatividade, haja em vista o seu Carnaval, cada vez mais sofisticado, com alguns pintores que já expõem em galerias lá fora, músicos conceituados, artistas plásticos e artesãos com qualidade e em número significativo, não se pode ainda falar de uma economia criativa, considerando haver, apenas, alguns casos isolados de sucesso.
Ocorre-me ainda que as escolas básicas, ou mesmo as secundárias, não deveriam estar fechadas aos fins-de-semana de modo a poderem ser utilizadas como espaço e como palco para actividades de lazer, de desporto, de dança, de feiras gastronómicas ou de artesanato, etc., de oficinas de música, de uso de novas tecnologias, de oratória, onde pessoas de diferentes gerações possam usufruir das infra-estruturas do seu próprio bairro, sem precisar deslocar-se à Morada para ter acesso ao lazer e à cultura.
Para que Mindelo venha a ser, efectivamente, uma capital cultural, conferindo-lhe poderes que propiciem diversas probabilidades de lucro (económico, cultural, social ou simbólico), a sua produção cultural tem de apostar no tripé: produtores culturais, produtores de acessibilidade e público consumidor.
Economia Solidária é um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem.
A economia solidária vem se apresentando, nos últimos anos, como uma inovadora alternativa de geração de trabalho e rendimento e uma resposta a favor da inclusão social. Compreende uma diversidade de práticas económicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam actividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário.
Em São Vicente já vai sendo realidade esse tipo de economia, praticada na área da agricultura, pecuária e transformação alimentar, pela Associação de Produtores e Criadores, com o apoio da CERAI, da Espanha; no ensino, com Cooperativas de Ensino; e nas áreas da cultura, artesanato e turismo, pelo projecto CRIE (Criando, Inovando e Empregando), de apoio ao artesão para a sua inserção na economia criativa, com o financiamento da União Europeia.
Estou em crer que, enquanto os produtores culturais continuarem fechados nos seus ateliers, gabinetes, escritórios, academias, não haverá economia solidária aliada à economia cultural nem à economia do conhecimento.
Assim, seria desejável que um poeta ou um escritor, a título de voluntariado, realizasse oficinas de poesia ou de escrita criativa com os estudantes; que um músico pudesse fazer uma oficina de música para universitários que tocam instrumentos musicais de forma espontânea, de ouvido, sem nunca terem frequentado escolas de música por falta de oportunidade; que um pintor pudesse organizar uma oficina ou roda de conversa com estudantes sobre a sua arte; que um grupo teatral, no mês do teatro, pudesse oferecer uma oficina de teatro para estudantes com apetência para isso.

EIXO 3: Protecção de Serviços Urbanos de Qualidade – Reabilitação do Património Edificado – Preservação do Património Imaterial

Serviços Urbanos é uma forma genérica de me referir a um conjunto de equipamentos urbanos constituídos por bens públicos ou privados ou de utilidade pública destinados à prestação de serviços necessários ao funcionamento da cidade. Falo, por exemplo, de circulação e transporte, cultura e religião, desporto e lazer, sistema de iluminação pública, segurança pública e protecção, sistema de saneamento. Neste particular, pode-se considerar a cidade do Mindelo bem servida e funcionando de forma bastante aceitável.
Reabilitação do Património Edificado inclui a reabilitação dos edifícios antigos. Assiste-se cada vez mais nas cidades a uma crescente preocupação dos cidadãos e das instituições pela reabilitação do património edificado, dos elementos estruturais no exterior e interior, de alvenaria de granito ou de madeira e outros elementos não estruturais.
Em Cabo Verde existe legislação para esse efeito, mas parece faltar vontade ou visão política para disponibilizar fundos para a reabilitação do património, quando não é falta de coragem política para lutar contra interesses privados ou de grupos.
No nosso caso, a Morada encontra-se há muito numa situação de deterioração por ausência ou escassez de conservação corrente. Torna-se urgente estabelecer estratégias de qualificação urbana em que a preservação, a reabilitação e a qualificação patrimonial possam desempenhar um papel revitalizador, criando um perfil mais atractivo para os aglomerados, com melhoria da qualidade de vida urbana, entendida como atributo de competitividade e de revitalização económica, social e cultural.
Preservação do Património Imaterial ou o património cultural de um povo, compreendendo as obras de seus artistas, arquitectos, músicos e escritores, bem assim as criações anónimas surgidas da alma popular e o conjunto de valores que dão sentido à vida. 
São Vicente é uma ilha com história, que precisa ser preservada e valorizada. Falo de uma ilha que teve a presença dos ingleses por cerca de 140 anos, tendo influenciado a língua local e todo o seu comportamento social, a arquitectura e os seus gostos, fomentado o desporto, do futebol ao críquete, do golfe ao ténis, passando pelo boxe e pelas actividades náuticas. Falo de uma ilha que cedo teve um operariado organizado na defesa dos seus interesses. Falo de uma ilha com homens da baía e da praia de bote e de revoltosos face à fome. Falo de uma ilha que teve o único liceu da província, de 1917 a 1960, tendo produzido uma literatura moderna genuinamente cabo-verdiana. Falo de uma ilha de grandes músicos e de artistas nas mais diversas áreas.
Todo esse património cultural deve ser preservado mediante um conjunto de acções que garantam a sua permanência com os seus diversos valores e significados artísticos, paisagísticos, científicos, históricos e ou simbólicos na vida desta comunidade.

EIXO 4: Democracia Participativa – Empoderamento do Tecido Social – Articulação com as Migrações

A Democracia Participativa é um regime onde se pretende que existam efectivos mecanismos de controlo exercidos pela sociedade civil sobre a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto, mas também estendendo a democracia para a esfera social.
É sentimento de muitos que Cabo Verde precisa consolidar algumas conquistas e empoderar os cidadãos, atendendo às questões do género e, de uma forma transversal, as diferentes gerações, para uma maior participação política.
Um aspecto importante a atender é o da cidadania digital, ou seja, garantir que os “nativos digitais” (os nascidos a partir de 1985) possam efectivamente fazer uso de tecnologias, que não seja apenas estar nas redes sociais.
Os que, como nós, não nasceram nessa época são considerados “imigrantes digitais”. E ninguém quer ser imigrante. Todos querem ser cidadãos de pleno direito. Assim, dever-se-á misturar pessoas com perfis diferentes no ensino e no mercado de trabalho para que os mais velhos não fiquem excluídos ou à margem de tanta inovação. Este partilhar de saber do jovem nativo digital pode criar cidadãos digitais, independentemente da idade, e pode juntar sabedoria de vida com habilidades tecnológicas.
Isto leva-nos a outras questão como o preço da internet, que é cara em Cabo Verde, e a um melhor aproveitamento das novas tecnologias como ferramenta educacional. Um evento como este, por exemplo, deveria poder ser disponibilizado em videoconferência para outras ilhas, num continuum entre o presencial e a distância.
 O Tecido Social é o termo usado actualmente para se referir aos aspectos sociais de uma cidade e não à sua estrutura física; relaciona-se aos indivíduos, à colectividade, que estão ligados por uma ou mais relações sociais profundas, apenas compreendidas pela análise do poder, formando uma malha social.
Os tempos hoje são outros e o progresso económico e social, disseminado pela aldeia global ou devido à nossa permeabilidade ao exterior, pela circulação de pessoas, bens e valores, vêm atingindo a nossa malha social afectando as nossas relações sociais. Mais parece que as nossas referências, enquanto cabo-verdianos e sanvicentinos, deixaram de ser baseadas no que é genuíno e culturalmente nosso, que sempre nos caracterizaram, tornando-se frágeis, ficando com a impressão de que o que prevalece é o “passá sábe”, a sabura, e não o esforço, a audácia, o brio, o préstimo, enfim, perdendo-se o essencial da cultura sanvicentina.
As Migrações são mutações em que os migrantes se fixaram num país diferente, trazendo sua cultura e adoptando a do país de acolhimento.
É já ponto assente que Cabo Verde é uma nação diaspórica, tendo São Vicente, numa dada fase da sua história, funcionado como a porta de saída para a emigração, sobretudo quando as viagens eram feitas através das companhias marítimas. Isso, sem me referir aos que de cá saíram para a Europa para fazer formação superior e acabaram por se fixar nos países de acolhimento como docentes universitários, médicos, engenheiros, arquitectos, economistas, empresários ou mesmo artistas. Contudo, para além do aspecto financeiro e material das remessas dos emigrantes, não se tem sabido aproveitar todo o contributo e a mais valia que poderiam trazer para o desenvolvimento desta ilha.
Nestes últimos anos, para além dos imigrantes da costa ocidental de África, que se ocupam essencialmente do comércio ambulante, e de uns poucos chineses, dedicando-se ao pequeno comércio, já vai havendo europeus que vêm para cá viver adaptando-se ao país e investindo, inclusivamente, na área da cultura e da promoção da criatividade.
No que respeita especificamente aos imigrantes da costa africana, é urgente pensar-se em iniciativas socioculturais para a sua inclusão, o que será, certamente, de aprendizagem mútua, entre povos e culturas. Esta é uma empreitada em que as universidades se poderiam envolver.
Um casal francês, em que ele é arquitecto e ela jornalista, a viver nesta cidade há já algum tempo, construiu um prédio moderno na Rua da Luz e ali instalou o “Capverdesign Artesanato”, que se ocupa da produção e comercialização de artesanato de qualidade das diferentes ilhas. Para além disso, ela já publicou um livro sobre os rabelados da ilha de Santiago, nas versões francesa e portuguesa. Como este casal deve haver outros mais, que devem ser incentivados e estimulados.
Se tivesse tempo e disponibilidade traria ainda para debate um 5.º eixo: a Economia Sustentável, com a criação de recursos humanos e financeiros internos para menor dependência do exterior; e a Sustentabilidade do Ecossistema frágil da ilha, com a conservação e um melhor aproveitamento dos solos, dos recursos hídricos e marinhos e a criação de espaços verdes.
Termino aqui as minhas reflexões pondo-me à disposição para discutir convosco a sua validade, esperando ter agitado as águas à volta do tema “Uma economia do conhecimento para São Vicente”.

Muito obrigado!

3 comentários:

  1. UMA ECONOMIA DO CONHECIMENTO PARA SÃO VICENTE de Brito-Semedo (mais uma pessoa que pensa e sente S. Vicente e Cabo Verde no meio da indiferença generalizada e do marasmo intelectual). Ideias cristalinas para aquilo que devem ser Políticas para esta Ilha de S. Vicente de Cabo Verde a ler obrigatoriamente aqui no Arrozcatum.

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  2. "Ninguém é profeta na sua terra". dizem mas não acredito que isso possa ser palavra de Evangelho.

    Faço votos que a competência deste nosso patricio seja aproveitada diferentemente. Espero que, mesmo depois da "falsa promessa", o prof. Brito Semedo esteja disponivel para servir, também, a Nação Cabo Verde.

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  3. O que sai da mente deste académico tem sido sempre uma mais valia para Cabo Verde, e em particular para S. Vicente. Só que a economia em S. Vicente parece estar, como se diz em crioulo, "enrocode", ou seja, não há perspectivas e as pouquíssimas que surgem estiolam rápida e facilmente. As ideias aqui enunciadas, assim como outras que já foram publicitadas, não frutificam porque encontram um ambiente de secura onde nada pega e ganha raiz porque faltaram e faltam condições políticas propícias à sua fecundação. A ilha foi arredada das prioridades nacionais, por mera opção política, e assim se aniquilou o núcleo inicial que poderia ser o pólo de um desenvolvimento futuro e continuado. Destruir é fácil, reconstruir é que é o problema. Fala-se agora na inépcia, na abulia e na desmotivação do povo do Mindelo, que só parece acordar quando é para a festa e o divertimento. Mas resta saber se esta predisposição virada mais para a satisfação sensorial não é uma resposta para o vazio de esperança. E assim resta ao mindelense brincar com a sua própria má sorte. Ainda há dias, recebi um mail que falava de uma fábrica que ia abrir no Lazareto. Satisfeito, abri o anexo, e o que vi? Um filme da youtube sobre uma fábrica de pénis artificiais. É assim o mindelense. Impotente para mudar os acontecimentos, brinca com as suas dificuldades.

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