segunda-feira, 6 de abril de 2015

[7973] - OS GRANDES FOLGAZÕES...

Café Portugal - Mindelo, Cabo Verde

É proverbial o espírito gozador do mindelense, sempre pronto para um dito espirituoso, um alcunha mais ou menos anedótica, uma pescoçada subreptícia, um chiste despistador perante situação delicada, uma fuga para a frente pois, como no futebol, a melhor defesa é o ataque...
Mas, nem só de gandulos fala a crónica dos chamados ",mnis de soncente" e eu conheci alguns bem grandinhos, como se costuma dizer, com idade para terem juízo...O par mais conhecido de épocas mais ou menos recuadas era constituido pelo Juloca e pelo Carvalhinho. O primeiro, era um homem comprido, espadaúdo e o outro, claro, fazia jus ao diminutivo e, quando a serem, ou não "mnis de soncente", o Juloca sei que era bravense e o Carvalhinho, não sei bem mas tinham, ambos, o ADN da gozação, enraizado pela sã camaradagem de muitos anos de convivência, quarentões com  filhos no Liceu que eram...
Tudo tinha começado quando, um belo dia, se lembraram de "acusar" a saudosa Faninha, do Café Portugal, de utilizar "midje de pipoca" para cozinhar o "midge-in-grão" que ela servia, aos domingos, na esplanada da Baía-das-Gatas...Faninha, claro, não gostou da brincadeira pois a sua "catchupinha" tinha como base o melhor "midge de sul" que havia em Cabo Verde, segundo as suas próprias palavras, gritadas aos quatro ventos, proporcionando uma diversão extra aos banhistas da "marigôa"...
Na segunda feira seguinte e, depois, na terça e na quarta, Juloca e Carvalhinho, como se nada se tivesse passado, apareceram no Café Portugal, a meio da tarde, sentaram-se numa dos fundos e, cochicharam de cabeças baixas, perante o olhar inquisidor e espectante de Faninha...Subitamente, calavam-se e pedíam, em uníssono um copo de água...De mau jeito e cara amarrada, Faninha lá levava os copos de água até que, um dia, proclamou um rotundo não, adiantando que andavam há que tempos a beber água à borla, que não consumiam nada, que ela ainda tinha depois que lavar os copos e que nhô Djack Alfama, que já sabia da coisa, não estava nada satisfeito...
Juloca e Carvalhinho desfizeram-se em desculpas e sairam, sorrateiramente e aparentando arrependimento, mas afivelando um meio sorriso que, embora inigmático, denunciava que o drama não acabava por ali...
Efectivamente, no dia seguinte, à hora do costume, lá apareceram os dois no Café Portugal, sobraçando, cada um, uma pasta...Uma vez sentados, abriram as pastas e, enquanto o Juloca retirava da sua uma garrafa enorme, com água, o Carvalhinho sacava da sua dois copos...Depois de beberem, e perante a estupefacção de Faninha, voltaram-se, ambos, para o balcão e indagaram, cândidamente, se ela era servida, exibindo um terceiro copo!
Creio que era intraduzivel o que, no momento, terá passado pela cabeça da irada Faninha!




7 comentários:

  1. Na verdade, S. Vicente era terra de gente "busode", que sabia divertir-se à brava. De onde nasceu esta característica que não se via equivalente em Santiago, nem pouco mais ou menos? Só pode ser do melting-pot de culturas criado no Mindelo, a que não é alheio o humor britânico.
    Como não conhecia este episódio, diverti-me à brava, vindo-me à memória outros casos semelhantes passados com outros personagens. Coitada da Faninha! Pergunto, Zito, se era a Faninha Santiago.

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  2. O Zito apresenta-nos aqui dois "gozões" que eu conheci mas quando deixei Mindelo só Carvalhinho era o mestre incontestável e incontestado das "pirraças". Os seus mártires preferidos eram o Boi Rocheteau e o Jom Pope Sec.
    O Zito conhece de certeza algumas bem boas.
    Do Juloca, ainda meu primo, só o sabia autor e cantor de mornas bravenses.
    V/

    P.S. - Ao Adriano pela pergunta que fez ao Zito: - A Faninha do Café era uma quarentona que nada tinha com a Faninha Santiago, moça jovem (como eu) na altura. Nem uma nem outra são deste mundo.

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  3. Em S. Vicente a malta não levava a vida a sério o que dava azo ao aparecimento dos mnin/home buzod que geravam episódios hilariantes como o que o Zito nos conta aqui. Como essa existem centenas

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  4. Stóra dess Mindel d'diazá, sabim sabim... e budzóde.

    Braça c'pirraça,
    Djack

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  5. Adriano, creio que a "minha" Faninha tinha sido casada (?) com o Djindja, electricista da Central, de quem teria uma filha...Talvez o Val possa confirmar...

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    1. Zito; essa "tua" Faninha tinha sido casada, efectivamente, mas não me lembro de ter sido com o Djindja electricista.
      Certo, certo, é nada ter com a Faninha Santiago da minha toada e dos bailes do Castilho e que criou confusão ao Adriano por terem sido vizinhos na Fonte Cônego

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  6. Obrigado, pelo esclarecimento, Zito e Val. De facto, a Faninha Santiago conhecia-a bem.

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