domingo, 26 de abril de 2015

[8068] - HUMOR - O SUICIDA DESAJEITADO...

Nascido em Chã de Cemitério, chamava-se Manuel da Fonseca Semedo mas era apenas conhecido pelo nominha de Naise d'Tcham. Um divórcio litigioso, a falência da empresa, um desastre de automóvel na estrada da Baía das Gatas que lhe destruiu a viatura e o deixou coxo, para além de um sem número de outras desgraças, fizeram-no num dia pensar em suicídio. E se bem o pensou, melhor o tentou.
Comprou uma pistola de contrabando a um facínora da Ribeira Bote, sentou-se na sua cadeira de baloiço, apontou à têmpora direita e pum... qual pum, qual nada, a pistola era manhosa e encravou de tal modo que por mais tentativas que fizesse nenhuma bala saiu. Verificou depois que elas eram de salva e que tinha sido enganado não uma mas duas vezes.
Naise comprou então uma faca de mato a um marginal que costumava parar no cais acostável. Chegado a casa, lançou-a de encontro à barriga com tamanha violência que a ponta da lâmina colidiu coma fivela do cinto e partiu-se sem remédio.
Em desespero de causa, foi à Casa Gaspar, onde adquiriu uma corda de nylon da melhor qualidade. Esperou pela noite, passou-a por cima de um ramo da acácia que se erguia fronteira à sua residência, meteu a cabeça no nó previamente feito e puxou do outro lado. Pimba, Naise na tchom, fazendo honra ao seu nominha. Tinha-se partido o único ramo possível da árvore, já que os outros eram fraquitos e teve de desistir porque por perto não havia outra.
No outro dia, logo de manhã, dirigiu-se à morada disposto a atirar-se do topo do cais acostável, esperando ter a sorte de ser devorado por um tubarão ou pelo menos morrer afogado. Quando passou pela Rua de Lisboa, ouviu o Tchuna do Café Royal chamá-lo em altos gritos: "Ó Naise, ó Naise, anda cá rapaz, ganhaste o 1.º prémio da lotaria, tens a receber pelo menos uns 80.000 contos". O Naise caiu redondo no chão com um ataque cardíaco fulminante e hoje reside no dezoite dôs ote numa campa perto da da Cesária.

(Adaptação de Joaquim Djack)

5 comentários:

  1. Ah!ah!ah!... azares de um suicida falhado. Não sei porque o bom humor dos mindelenses, frequentadores deste ponto de encontro ainda não comentou este texto, portador aliás, dos "ingredientes" típicos da boa graça sãovicentina! Então? ...comentem e contem outras similares. Desafio-vos.
    O meu lado do Fogo fala um pouco mais alto para estas coisas e lá, os suicídios eram algo sério! daí que não se brincasse muito com o voluntário pôr termo à vida.
    Ri-me muito com o texto do Joaquim Jack...
    Abraços
    Ondina

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  2. O humor negro também faz parte da natureza pícara da nossa gente. Este estória contada pelo Djack é digna de registo e demonstra que ele soube beber a água do Madeiral.

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  3. Quem diria que esta anedota que conheço há um ror de anos e agora estiquei adaptando-a ao Mindelo, ainda iria ter honra de post no Arrozcatum. Por outro lado, pobre Naise d'Tcham, mas quem o mandou jogar na lotaria?

    Braça desgraçóde,
    Djack

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  4. Só o Joaquim Djack para nos fazer rir neste domingo Ventoso em São Vicente
    Um Braço

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  5. Nunca ouvi esta estorinha que "nasceu" depois da minha saida de SonCente visto que deixei Nhô Claude no Café Royal com a estrutura que montou: Royal e seus divertimentos e o Royalzinho para quem jà sabem.
    Gostei imenso e tive um pensamento para o Sr. Sergio Frusoni e para seus "sketch"s" que aproveitei.
    O Mnine de Ponta de Praia encontrou inspiração onde o italo-verdeano encontrava as suas novelas.
    Merci Mr. Djack

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