quinta-feira, 7 de maio de 2015

[8115] - POEIRA DO TEMPO...

MIGUEL DA CONCEIÇÃO MOTA CARMO
O Homem, o Militar e o Administrador
CAPÍTULO IX



    Considerações Finais

    De tudo o que apurei com base documental e em alguns testemunhos orais, sou levado às seguintes conclusões:
    Creio que tudo o que foi expendido nos capítulos anteriores é bastante para desvendar em maior ou menor grau os traços essenciais do carácter e da personalidade do Mota Carmo. No entanto, é sempre subjectivo e fruto do contexto da época em que se vive o juízo que se possa formular sobre figuras públicas. A época em que este capitão do exército exerceu o seu cargo de administrador nada tem a ver com os tempos da actualidade. Temos o privilégio de viver em democracia e de fruir os seus benefícios como regime político, de pensar e exteriorizar livremente as nossas opiniões, de votar naqueles que confiamos para governar os nossos destinos, de ver escrutinadas pela opinião pública as decisões sobre as nossas vidas. Mota Carmo nasceu ainda no tempo da monarquia, e era criança ainda (10 anos) quando foi instaurado o regime republicano no seu país. Na sua adolescência e juventude presenciou o estrondoso fracasso da experiência republicana em Portugal, marcada por constantes golpes de estado e assassinatos de políticos. Era tenente quando se deu a revolução de 28 de Maio de 1926 e em que o Exército pretendeu pôr cobro ao desastre que foi o regime republicano. Na sequência disso, foi aprovada a Constituição de 1933, elaborada por um grupo de professores de direito convidados por António de Oliveira Salazar, que foi ministro das finanças do pós-28 de Maio e a seguir primeiro-ministro. A Constituição de 1933 representou a concretização dos ideais de Salazar, inspirados no corporativismo, na doutrina social da Igreja e nas concessões nacionalistas. Em suma, foi a criação do chamado “Estado Novo”.
    A partir daí Portugal entrou num regime de autocracia, de ditadura, ou de “fascismo”, como alguns preferem, sob a inspiração dos modelos então em voga, embora fosse um fascismo de trazer por casa, algo mitigado pela natureza cordata dos portugueses. Mas o que é verdade é que, por receio do retorno dos tempos instáveis e conturbados da I República, foram suprimidas as liberdades políticas, existindo apenas um único partido, o do regime em vigor, a chamada União nacional, e criou-se uma polícia política.  O Exército tornou-se o suporte do regime, e para isso Salazar tratava os militares com certa cautela, porque se havia oficiais defensores intransigentes do regime, alguns havia, embora numa expressão insignificante, que não se identificavam com a natureza do poder político instaurado. Mas a verdade é que os oficiais, na sua maioria esmagadora, passaram a subordinar-se ao mesmo crivo de formatação politica a partir do momento em que o Estado Novo se tornou a realidade inquestionável da vida colectiva portuguesa, coarctando ao cidadão todas as liberdades cívicas, de opinar, de criticar, de se associar, etc. Quem disso se desviava arriscava a ser preso, degredado, perseguido ou, no mínimo, prejudicado na sua carreira. Foi neste contexto que os portugueses viveram durante 40 anos, sendo poucos os que se exilaram ou entraram na clandestinidade para promover a resistência política, sofrendo o pesado ónus de terem de se afastar  das suas famílias e de abdicar de uma vida normal.
    Ora, Mota Carmo, embora eu pense que se tratava de um homem generoso e de espírito solidário, não seria propriamente um ser dado a reflexões filosóficas ou existenciais. Daí que o mais fácil e natural seria ele andar pelos carris normais impostos pela instituição a que pertencia – o Exército – sob a égide do poder político instituído. Os louvores vertidos na sua folha de serviço e a análise da sua conduta como administrador do concelho de S. Vicente, demonstram que ele foi um oficial do exército à altura das exigências e condicionalismos do seu tempo. Dotado de aptidão natural para o comando e para a liderança e possuidor de vincado sentido do dever, procurou sempre servir com o melhor das suas capacidades, e é no contexto político e social em que viveu que o temos de avaliar e compreender. 
    Este oficial, com o posto de capitão, exerceu o cargo de Administrador do Concelho de S. Vicente, entre os seus 44 e 50 anos de idade, acumulando com as funções de Comissário da Polícia, Delegado das Obras Públicas e Delegado da SAGA. Interessou-se por dar o melhor de si no exercício desses cargos, mas terá tido dificuldade em abdicar do estilo característico da liderança militar no exercício das suas funções, que eram da esfera civil e, portanto, dirigida a um universo alheio à vida  castrense. Esse pendor pessoal tê-lo-á levado, em algumas circunstâncias, a exteriorizar um certo  autoritarismo, mas quanto a mim mais aparente do que danoso nas suas consequências, até porque procurava pautar o seu procedimento por uma atitude de lealdade e frontalidade, como é aliás próprio dos militares. Em alguns aspectos da sua actividade foi pouco ou mal compreendido pela sociedade local, mormente pelas suas elites, o que pode explicar-se pela resistência que normalmente se oferece a quem vem de fora e descobre no imediato soluções para problemas que nunca passaram pela cabeça dos que toda a vida com eles conviveram. A excepção é, naturalmente, a questão da proibição das “saias curtas”, em que o autoritarismo e o falso puritanismo se deram as mãos para urdir uma medida que se tem de rotular de excessiva e inaceitável. Não obstante, Mota Carmo foi, sem dúvida alguma, eficaz e realizador no seu propósito de servir denodadamente e em prol do bem público, tendo a cidade do Mindelo e a ilha de S. Vicente colhido inegáveis benefícios com a sua acção administrativa. De entre todas, a sua obra mais emblemática foi a infra-estrutura social construída no âmbito da Associação de Caridade de Cabo Verde, por si impulsionada com o maior do seu empenho e fervor, como é bem patente na entrevista que concedeu ao jornal “Notícias de Cabo Verde” (capítulo III).
    Se o seu estilo de liderança teve reacções adversas na sociedade local, suscitou, também, convém dizê-lo, inveja e despeito ao empenhar-se até à medula, dando o melhor de si, para levar avante uma obra de cariz social que nunca antes tinha merecido grande atenção e empenho por parte das elites sociais. Por isso, alguns sectores da sociedade não só não colaboraram como procuraram mesmo dificultar a sua acção. Realce-se que tanto esta obra como outras a que meteu ombros, desdobrando-se em energia inesgotável, contribuíram para que não tenha sido vã a sua passagem pela ilha de S. Vicente. As opiniões podem dividir-se sobre a peculiaridade do seu estilo de liderança, mas julgo que a seguinte exclamação que ouvi a alguns mindelenses que dele se recordam e não se conformam com a tibieza e incapacidade dos actuais governantes da coisa pública, traduz uma síntese bem elucidativa: “Isto está é a precisar de um Mota Carmo!”.    
    Como oficial do mesmo exército a que Mota Carmo pertenceu, senti-me com alguma aptidão para compreender a lógica do seu procedimento por via dos liames mentais que ligam entre si os militares, ainda que cada um seja uma individualidade própria e insubstituível. Daí eu pensar que alguma especulação ou dedução produzida na minha análise onde houve insuficiência de dados ou de testemunhos directos, pode não ter fugido muito à realidade dos factos. E, finalmente, uma secreta sintonia de alma leva-me a crer que Mota Carmo amou a terra cabo-verdiana e compreendeu a índole pacífica e bondosa da sua gente, e aí residirá talvez a pulsão anímica que o levou a tentar minorar o seu sofrimento num tempo assaz difícil, de acentuada fome e carestia, despertando com isso o paradoxo de algumas incompreensões. 
   Tenho a certeza quase absoluta de que quando Mota Carmo terminou a sua missão na ilha de S. Vicente, a sua mala de viagem ia vazia de proventos pessoais, mas certamente carregada com o sentimento  de dever cumprido.
FIM
                                                               
          Adriano Miranda Lima

4 comentários:

  1. Adriano Miranda Lima termina nesta última série longa de 10 episódios dedicados a Mota Carmo, em Poeira do tempo no ArrozCatum (um trabalho para a História e mais uma dádiva deste grande senhor , a CV e SV) com uma análise dos condicionantes do tempo e da formação do homem que explicam as lendas em torno do Administrador de Mão de Ferro, que entrou em rota de colisão com um certo meio mindelense, como já tínhamos referido. Tendo em conta os prós e os contra em favor de Mota Carmo, podemos concluir, ao fim da leitura desta série, que estamos perante a possível reabilitação do homem, tendo em conta o marco histórico da sua obra que contrabalança alguns aspectos julgados negativos da sua acção. Eu sei que isto vai chocar algum meio mindelense que transformou este homem na incarnação do Diabo, mas esta é a conclusão que tiro da leitura atenta que fiz dos 10 capítulos. Outros dirão que estão a tentar recuperar um fascista. Que fique bem claro não estou a propor uma estátua para Mota Carmo, mas sim tentar, à luz da leitura deste longo trabalho de investigação de Miranda Lima, separar o trigo do joio, as verdades das inverdades, no meio da lenda, e compreender a pessoa no seu tempo e meio!!! Só isso. O resto é para os políticos!!

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  2. Criança (11 anos) quando começou as funções, lembro-me das "façanhas" do Administrador que mandava descer a bainha das saias mas que as levantava para o seu proveito. Corroboro quanto ficou escrito pelo Adriano sobre a pessoa que tudo fez para o melhor desempenho das suas funções. Mas, se colhi com agrado o escrito sobre a sua vida, não vou ao ponto de pedir uma estàtua para ele. Ele merece a nota de Muito Bom mas não a de Excelente que lhe daria direito a estàtua e a menção toponimica.

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  3. Amigo Val, essa da menção toponímica faz-me inquirir o que terá feito Mandela por Santiago para merecer ter o seu nome no Aeroporto da Praia? Ou será uma mera questão pan-africana?

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  4. Sabiam que a nossa "DIVA" Cesária Évora, foi acolhida na sua infância/adolescência pelo Orfanato de Mota Carmo

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