quinta-feira, 18 de junho de 2015

[8230] - A DIÁSPORA SILENCIOSA...

                     EXTRACTO DE DIÁLOGO SOBRE A REGIONALIZAÇÃO


Existe em Lisboa uma comunidade de origem cabo-verdiana provida de pessoas que, em qualidade e em quantidade, serão, entre a diáspora, as mais preparadas para influenciar a situação política em Cabo Verde. Poderiam fazê-lo, mas não se mexem, não se manifestam. E, no entanto, não acredito que essas pessoas não se incomodem quando chegam a S. Vicente e se deparam com aquele quadro de estagnação social e com a desesperança estampada nos rostos de muitos dos nossos conterrâneos. E também com aquele património arquitectónico entregue aos bichos. Os nossos conterrâneos que vivem em Lisboa têm, relativamente a outras comunidades no estrangeiro, a vantagem da língua, da cultura e da proximidade geográfica, para poderem exercer uma cidadania activa e profícua no contexto dos problemas cabo-verdianos.
Com efeito, perguntar-se-á porque é que em Portugal são apenas 3 cidadãos a dar a cara? E porque é que os lisboetas de origem cabo-verdiana se fecharam em copas quando, por duas vezes, se lhes dirigimos para nos darem o seu apoio e contribuírem com uns patacos, respectivamente, para financiar a actividade do movimento para a regionalização radicado em S. Vicente, e para ajudar a custear o nosso livro sobre a regionalização? Eles não se manifestam em coisa nenhuma, não intervêm na imprensa, nem sequer no facebook.
Receio que estejamos perante sintomas de um problema que exige uma profunda análise sociológica. Razão tinha um ilustre amigo português para fazer-me este desabafo: “Há muitos cabo-verdianos a viver mal em Portugal, mas existe uma elite radicada em Lisboa, que vive bem e se reúne para festas e celebrações, mas sem uma aparente preocupação com os problemas dos seus conterrâneos”. Afinal de contas, a escassa militância cívica dos cabo-verdianos é transversal, quer vivam em S. Vicente, em Portugal ou noutras partes do mundo. Contudo, a nossa gente é exemplar em questões de solidariedade moral (como vi agora com a morte da minha mãe), mas não parece disposta a desenterrar o machado de guerra para lutar pelos seus interesses e pelo futuro dos seus filhos e netos. É isto que tem de ser analisado. Existe uma questão de mentalidade que tem de ser diagnosticada, e em algumas vezes já afirmei que os cabo-verdianos têm de fazer uma autognose.
Desculpem-me a linguagem militar, mas, nós, os poucos da diáspora que se manifestam, disparamos alguma “artilharia”, mas falta no local dos impactos os chamados “observadores avançados” para regular o fogo de modo a fazê-lo incidir com precisão sobre os objectivos. Por outro lado, a nossa infantaria local (o povo) aparenta estar com o moral em baixo, desarticulada e sem comandantes. O povo só se mexe quando sente o estímulo de uma mensagem forte e incisiva. Não havendo quem a transmita, a infantaria permanece inactiva e sem capacidade para fazer mossa a quem quer que seja. O cabo-verdiano tem-se revelado um povo mole, acomodado, e sem vontade de agarrar o cavalo do futuro, não havendo diferença visível entre os residentes nas ilhas e os da diáspora.
Mudando de vector, continuo a frisar que o problema da reforma do Estado em Cabo Verde ficou como que trancado a sete chaves depois de espetarem na Praia quase 2/3 da população do país e de armarem lá todo o arraial das suas conveniências (o aparelho do Estado). Sobre o problema demográfico, alguém dizia, há tempos, num artigo de opinião, que,  para realizar a regionalização em S. Antão, será preciso transferir para lá população. O raciocínio está correcto porque não faz sentido implementar projectos de desenvolvimento sem uma determinada base social e demográfica. Os projectos só se justificam se houver quem opere e trabalhe para os viabilizar, e para mais tarde deles beneficiar. Mas não se vê como colocar pessoas num local ou região para elas ficarem à espera dos projectos, leia-se emprego. O círculo vicioso será difícil de anular. Sabemos que aquela premissa se fundamenta no facto de a ilha de S. Antão estar quase despovoada e possuir, no entanto, determinadas potencialidades económicas. O que porém não tem obstado a que reivindiquem para lá um aeroporto internacional e uma universidade, paradoxo de todo inaceitável. O problema demográfico de S. Antão também se coloca relativamente a outras ilhas, que não a de S. Vicente, cuja população aumentou precisamente à custa da de S. Antão.
Assim, fica à partida posto em cheque um modelo de regionalização que não passe por um substancial corte demográfico na ilha de Santiago e por uma valente purga no aparelho de Estado que foi lá concentrado. A purga, ou seja, a desconcentração do Estado, poderia ser o factor propulsionador de um reequilíbrio demográfico. Com órgãos e instituições do Estado deslocalizados para outras ilhas iriam quadros superiores, funcionários públicos, serventes, empregados de limpeza, trabalhadores. Digamos que seria mais ou menos como regressar à situação demográfica anterior à independência, pelo menos em termos relativos. Mas o busílis da questão é que há uma imensidão de cabo-verdianos não santiaguenses colocada nas estruturas dessa capital macrocéfala. Seria preciso sondá-los para saber se querem deixar as suas casas na Praia, as escolas que os seus filhos frequentam, o círculo de amigos que criaram. Olhem que não é despicienda esta situação. Só à minha conta tenho dezenas de familiares (primos e seus descendentes) que se instalaram, ou se foram instalando, na Praia, a seguir à independência. São quase todos quadros superiores. Mesmo depois de reformados, os que já o foram, não mostram qualquer intenção de regressar a S. Vicente ou S. Antão, de onde são naturais. 
Estamos a falar de questões de índole mais pessoal, mas não é menos condicionadora a dimensão da rede de interesses e negócios que foram sendo instalados na capital à sombra do Estado ou por sua indução: empresas, escritórios de advogados, etc. E também não o é menos a circunstância de os dois principais partidos terem na Praia a parte leonina do seu eleitorado, cujo controlo é tanto mais eficaz quanto maior é a concentração das massas. Ou seja, é lógica de continentalidade a impor-se sobre a dispersão arquipelágica. 
Concluindo, temos em Cabo Verde um grande e preocupante obstáculo aos nossos desígnios de regionalização. Esse obstáculo foi perversa e paulatinamente construído, com olhos postos naquilo que os detentores do poder julgaram devia ser o verdadeiro paradigma cabo-verdiano. Volto a recordar a afirmação de uma conterrânea mindelense quando pessoalmente comentou um artigo que escrevi intitulado “A macrocefalia da capital cabo-verdiana”: “Não, Adriano, discordo. O que Cabo verde precisa é de uma grande capital”. Fiquei banzado com semelhante opinião, mas logo percebi que ela estava possuída de uma forte carga político-partidária. O importante para ela era obedecer ao directório político, mesmo que em flagrante prejuízo do interesse geral dos cabo-verdianos, e da sua ilha em particular.
Ora, o actual líder do governo tem a perfeita noção de que não pode nem consegue desmantelar a capital macrocéfala. E o curioso é que recentemente o Presidente da República voltou a falar no tal estatuto especial para a Praia, o que será a cereja em cima do bolo. Todos preferem um ardiloso jogo de espelhos a dizerem a verdade do que pensam. Uns cínicos!
E a oposição, o MpD? Será capaz de fazer diferente? Eu tenho dúvidas. Só vendo. Sou mais inclinado a pensar que eles poderão dar uns rebuçados à ideia da regionalização, talvez mediante um reforço do municipalismo. Desmontar a capital macrocéfala é que não me parece. Mas não será com um reforço do municipalismo, mesmo com a deslocalização de um ou outro ministério, que o paradigma se vai modificar na nossa querida terra. Eu só concebo a regionalização mediante um agrupamento de ilhas afins e com autonomia suficiente para a governação do respectivo território, incluindo necessariamente o poder de intervir na negociação de investimentos exteriores. Mas tudo isso exige também gente empenhada, motivada e esclarecida, cujo único é móbil é servir a sua região e as suas populações. Não para utilizar os seus cargos em fins pessoais ou partidários.

Adriano Miranda Lima

6 comentários:

  1. A DIÁSPORA SILENCIOSA...
    EXTRACTO DE UM DIÁLOGO SOBRE A REGIONALIZAÇÃO
    Sobre a situação de indigência intelectual reinante em Cabo Verde. Que papel cabe à Diáspora nas futuras transformações de Cabo Verde a saber o debate da Regionalização e da Reforma do Estado?
    Uma análise bastante contundente em forma de desabafo de Adriano Miranda Lima sobre a inutilidade e o silêncio das Elites cabo-verdianas e da Diáspora sobre questões relavantes atinentes às diferentes problemáticas de Cabo Verde e o seu futuro. Elas sabem estar nos banquetes e recepções, têm peritos em todas as áreas, dominam a arte de saber estar e bem conversar mas ficam por aí.

    ResponderEliminar
  2. .
    Incansàvel Adriano com mais este artigo de excelentes e judiciosas propostas bem necessàrias para melhor politica na nossa terra. BRAVO !!!
    Jà o sempre presente José fala de indigência intelectual que discordo parcialmente pois, para mim, existe um conformismo revoltante e uma falta de cidadania. O capitão Ambrosio era pobre e não tinha estudos mas ficou célebre pela sua coragem de ser o arauto de um povo maltratado, abandonado.
    Bem, ao fim e ao cabo, estamos de acordo em como necessitamos de gente corajosa para ombrear os indecisos. Pergunto quando acabarà o "Congresso dos depressivos" que dura hà varias décadas ?
    Se não houver vontade de implicação não vamos a parte nenhuma e continuaremos a ser os colonizados de uma Repùblica que não é a de Cabo Verde.

    ResponderEliminar
  3. Na verdade é de se estranhar o silêncio e a falta de iniciativas politicas da nossa élite cabo-verdiana em Lisboa. As questôes que nos levaram a Independência são as mesmas: a fome e o desemprego, o fosso entre ricos e pobres, a corrupçao, a ausência de politica de emigraçao, tanto mais que o tema da emigraçao para São Tomé e Principe que alimentou o nosso combate de libertação ainda continua por resolver..
    Luiz Silva

    ResponderEliminar
  4. Val, esse "congresso dos depressivos" é uma farsa, uma forma de ocultar o alheamento aos problemas da nossa gente. Haverá, claro, quem se excepcione, mas aquilo é mais uma oportunidade para uma passeata à terra natal.
    Luiz, tudo indica que a corrupção e o nepotismo são actualmente mais acentuados do que antigamente. Hoje em dia, a miséria se expõe na via pública de uma forma que me parece mais chocante do que antigamente.

    ResponderEliminar
  5. Quando ouço falar de desvios, de corrupção, etc., em Cabo Verde, lembro-me de uma frase dita "informalmente" por um politico senegalês: - "No tempo do colonialismo os francêses davam-nos dinheiro e mandavam técnicos para o levar de volta. Agora dão ajudas que guardamos".
    Pediram a idependência mas nada mudaram fundamentalmente. Mudaram-se os patrões que guardaram os costumes. E nôs, os sanvicentinos (e as outras ilhas) vivemos um novo colonialismo.

    ResponderEliminar