sábado, 18 de julho de 2015

[8311] - SANTO ANTÃO RECLAMA AEROPORTO...


O MpD vai lançar a debate, hoje, a ideia de se construir um aeroporto em Santo Antão para potencializar as valências turísticas e económicas daquela ilha. Mas trata-se de um assunto que divide opiniões, tanto que o antigo ministro da economia, Osvaldo Lopes da Silva, considera um “disparate” projectar aeroporto internacional para cada uma das ilhas.
O debate sobre o aeroporto acontecerá no quadro da conferência “Santo Antão – ganhar os desafios da próxima década”, durante a qual o MpD pretende receber “inputs” para perspectivar o desenvolvimento de Santo Antão. Sabe-se que gentes ligadas àquele partido defendem um aeroporto de médio porte que propicie a ida de turistas e homens de negócios a Santo Antão, sem a necessidade de desembarcar no Aeroporto “Cesária Évora”, em São Vicente,  para depois fazer a ligação via marítima.
Outros defendem mesmo um aeroporto internacional, que poderia projectar o desenvolvimento turístico e económico, à semelhança do que aconteceu com a Boa Vista, a partir da abertura de uma infra-estrutura que recebe voos internacionais.
Mas, o primeiro ministro da Economia de Cabo Verde, de 1975 a 1986, considera “um disparate a toda a linha”  cada ilha pensar num tipo de infraestrutura aeroportuária dessa dimensão. Osvaldo Lopes da Silva argumenta, no número anterior deste jornal, alusivo aos 40 anos da Independência, que os governos têm de ter a coragem de dizer “não” ao povo, assim como ter sentido para não assumir aquilo que “a economia condena”. O antigo governante prefere, nesta altura, ver Cabo Verde a apostar em ligações inter-ilhas, com barcos melhores para cargas e passageiros.
Já a autarca do Porto Novo, Rosa Rocha (PAICV), defende que Santo Antão, para já, não precisa de um aeroporto internacional, mas sim de um aeródromo que permita a ligação rápida da ilha com as outras regiões turísticas de Cabo Verde, nomeadamente, Sal e Boa Vista. Em declaração à Inforpress, a edil não deixa de reconhecer, ainda assim, que uma infraestrutura aeroportuária, mesmo de pequena dimensão nessa fase em que os recursos não abundam, ajudaria a “Ilha das Montanhas” a dar um salto no seu desenvolvimento.
Existem argumentos prós e contra de vários quadrantes. O certo é que, desde 2010, o Governo anunciou um estudo preliminar sobre a construção de um novo aeroporto para Santo Antão, no quadro de um debate feito a partir da década de 1990, quando o aeródromo da Ponta do Sol deixou de receber voos de aviões comerciais. O estudo viria a apontar a zona entre Casa de Meio e Ponte Sul, a sete quilómetros da cidade do Porto Novo, como possível localização dessa infra-estrutura. E agora o assunto deve entrar em pauta no ciclo eleitoral de 2016.
Ensino superior também
Outro assunto que o MpD deve levar a debate é a abertura ou não de institutos ou escolas de Ensino Superior em Santo Antão. Este dossiê também divide opiniões, na medida em que há o argumento de que o Ensino Superior voltado para a agricultura, agro-indústria e outras áreas afins poderia propiciar o desenvolvimento da ilha. Mas há quem se mostre contra a dispersão de estruturas universitárias a todos os contos do país porque a qualidade sairia a perder.
Seja como for, o MpD convidou um conjunto de personalidades ligadas a Santo Antão para projectar o desenvolvimento da ilha, no horizonte 2016 a 2020. O presidente do partido, Ulisses Correia e Silva, vai a Ribeira Grande dar o mote ao debate, que passa por diagnóstico, visão, desafios e prioridades que o MpD projecta para a próxima década. Depois entrarão em cena conferencistas como o edil da Ribeira Grande, Orlando Delgado, Jorge Santos, Felismina Reis, Leão Lopes,  João Chantre, Albertina Pinto (Santantão Art Resort) e  Valdemiro  “Vlú” Ferreira.
O debate a ser promovido em Santo Antão, hoje, enquadra-se no ciclo “Cabo Verde UP”, que constitui uma “plataforma criada pelo MpD para promover o diálogo com a sociedade civil, no país e na diáspora e com os especialistas de todo o mundo, seja utilizando as novas tecnologias de comunicação e informação, seja promovendo os canais presenciais e directos”.

4 comentários:

  1. Sobre este assunto da megalomania de alguns santantonenses, penso que já dissemos tudo ou quase tudo. Por mais voltas que se dê ao carrossel, acabamos sempre no mesmo ponto.

    Também sou descendente de santantonenses: avó materna e avô paterno. Aliás, qual é o sanvicentino que não tem raízes na ilha vizinha? Muito poucos. Gostamos tanto de Santo Antão como de S. Vicente. A questão que se coloca não é de ordem sentimental ou de progenitura, mas tão-só de racionalidade, realismo, humildade e prudência. Sem estes predicados perdemos a visão correcta do interesse colectivo e de um projecto credível e sustentável para a nossa terra. Se calhar até se pode comprometer a sua sobrevivência se alguns patrícios não abdicarem das suas visões egocêntricas e irresponsáveis.
    Penso que nem sequer um aeroporto médio e regional se justifica em S. Antão. Quanto muito um pequeno aeroporto ou pista para evacuação sanitária de emergência. Pergunte-se a um turista estrangeiro o que ele prefere: desembarcar de avião em S. Antão ou fruir o prazer da travessia do canal? Acabei de ler o texto do Germano de Almeida (Cimeira da Regionalização) e sou de opinião de que há verdades que ele denuncia com toda a crueza, apesar de incorrer em algumas imprecisões e vacuidades no tocante a outros assuntos. Ele diz: … “Não tenho dúvida de que a principal virtude de nós cabo-verdianos é esquecermos que Cabo Verde é um pequeno país de 500 mil habitantes e cerca de 300 mil eleitores. Porém, essa virtude tem inconvenientes, sendo um deles, e principal, esquecermos que vivemos numa terra ausente de recursos materiais. Tão ausente de recursos próprios, que acontece uma catástrofe natural como o que está aconteceu no Fogo, e temos que estender a mão à caridade da comunidade internacional para ajudar as vítimas da erupção.” Mais: “…É essa nossa capacidade de ignorar que somos pobres, que nos faz passar o tempo a imitar modelos, sejam eles económicos, sejam sociais ou políticos, criados para realidades que ficam nos antípodas da nossa, quer pelas riquezas naturais, quer pelas riquezas acumuladas, mas que achamos terem sido criados a pensar em nós e por isso nos assentam como fatos feitos por medida.”

    Bem, nisto o homem tem carradas de razão, não há como reconhecê-lo.

    Repare-se que neste momento a dívida pública de CV é 114% do PIB, e a tendência não creio que seja uma diminuição a breve trecho.

    Deixem-me que vos diga que pessoas que defendem aeroportos internacionais e universidades em todas as ilhas é que vão ser os carrascos de qualquer solução sobre regionalização. Mas, provavelmente, nem sequer terão oportunidade de ser carrascos, pois vão espantar a presa antes de ela se colocar na mira.

    Eu sempre tenho opinado que o único modelo de regionalização em que acredito é o de agrupamento de ilhas afins, e, nesse sentido, parece-me que S. Antão, S. Vicente, S. Luzia e S. Nicolau terão condições para constituírem um projecto-piloto. Desde que haja políticos capazes, responsáveis e dotados de visão de conjunto em vez de visões afuniladas e aferidas pelos seus interesses pessoais ou de grupo. Em suma, devem ser cabo-verdianos antes de santantonenses, sanviventinos ou sanicolaenses. É óbvio que o presidente dessa eventual região não tem de ser desta ou daquela ilha mas simplesmente alguém que justifique o cargo pelo seu próprio mérito.

    Mas julgo que cada vez mais se torna nítido que a regionalização é indissociável de uma profunda reforma do Estado e do sistema político. Significará emagrecer e reconfigurar consideravelmente o centro em proveito da periferia, o que desde logo torna implícita a ideia de que a racionalização de meios e recursos daí resultante jamais será de molde a que haja proliferação e duplicação injustificável de infra-estruturas nas ilhas. Reafirmo que o Germano Almeida tem razão quando diz que somos pobres mas fingimos que somos ricos, ah-ah-ah...

    Mas o que importa antes de mais é saber se haverá um político cabo-verdiano (ou força política) capaz de ousar essa profunda reforma do Estado e do sistema político.


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  2. Também compreendo o argumento de muitos santantoneses . É por isso que eu não fecharia as portas para uma pequeno aeroporto fortemente ligado ao de S Vicente, para ligações básica e apoio logístico de natureza variada, para escoamento de pessoas e bens por exemplo militar etc.

    Agora multiplicar aeroportos internacionais por 10 é que sou contra. Eu acho que ao ritmos chegaremos lá se não for em 10 será em 20 anos. Reparem que eu sou pela sinergia entre SA SV e SN e por aquilo que chamo uma Macro Região tipo Conseil Regional em França, que englobe várias ilhas por afinidade. Reparem que esta não exclui o facto de poder haver a Ilha Região uma estrutura política que governe cada Ilha. Agora a Macro Região punha em comum recursos e políticas economia de escala etc.

    Mas reparem também que caso as populações optarem por que cada ilha tenha tudo Aeroportos Universidade etc é também uma opção. E é por isso que não fecho a porta a uma Federação-Presidencialista e mesmo outras possibilidade
    Neste aspecto sou totalmente liberal e defendo o direito das Ilhas à sua Autodeterminação (alo Paigcv!!) desde que assim o desejarem.

    Agora sou da opinião que SA é um santuário. Foi resguardado durante séculos e um certo abandono da colónia não permitiu que a onda avassaladora do desenvolvimento chegasse ali. Ficou um santuário também pelas suas condições naturais. Agora replicar SVicente em S Antão, a coisa feiosa que está-se fazendo nesta ilha as aberrações as favelas bairros de lata, etc, é um crime contra a natureza, a paisagem natural desta ilha, a essência das pessoas, pois esta ilha é essencialmente rústica agrícola com um forte carácter e urbaniza-la aos pontapés pode ser mais uma violentação. Aquilo que foi feito em Mindelo nos 40 anos não desejaria que fosse replicado em SA, nomeadamente o urbanismo caótico, embora já vejo muitas casas feias e torres mamarrachos o estilo importado da Meca cabo-verdiana e muita alienação em SA. Na minha opinião um turismo rural sustentável com uma urbanização de estilo colonial seria o mais adaptada para o desenvolvimento de SA.
    Mas como disse é tempo de afastar a divisão entre as nossas ilhas e é tempo da da Praia permitir que intelectuais políticos etc das diferentes ilhas possam um dia sentarem-se em torno de uma mesa e discutir sinergias projectos políticos e económicos conjuntos sem dirigismos.
    Abraço

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  3. É por demais evidente que num país pequeno, pobre e sem recursos, dependente da ajuda internacional, é um atentado à inteligência e ao bom senso conceber cenários de desenvolvimento económico mediante avultados investimentos em infraestruturas a serem suportados por outros. Como diz o José, o exemplo da Grécia está aí a demonstrar o ponto a que chega a irresponsabilidade política ou mesmo a ausência de política que valha o nome.
    Para contestar a pretensão megalómana de aeroporto internacional e universidades em S. Antão, vou apontar o exemplo do aeroporto internacional de Faro. Como se sabe, é uma infraestrutura que se rentabiliza com a enorme procura turística na região. Na época alta, os aviões aterram nele de 5 em 5 minutos. Nas restantes épocas, é óbvio que o movimento decresce mas mesmo assim mantendo um nível que no cômputo geral torna rentável e justificável a infraestrutura ali construída. Inaugurado em 11 de Julho de 1965, serve a região do Algarve, o sul de Portugal e sudoeste de Espanha. Cerca de 5,67 milhões de passageiros viajaram pelo aeroporto em 2012. Eis o exemplo de uma infraestrutura que iniludivelmente se justificou e é sustentável.
    No caso de S. Antão, a pretensão se colocará, na óptica dos seus defensores, talvez, por observância de qualquer das seguintes condições: a ilha tem valências económicas e turísticas que são efectivas, e já devia estar a ser maximizada a sua exploração; a ilha tem valências económicas e turísticas que são potenciais, e deve investir-se na sua exploração.
    Não quero ser desmancha-prazeres, mas oferece-me dizer o seguinte. Estive há 3 anos no resort Pedracim (Ribeira Grande) em meados de Julho, época alta do turismo, e entristeceu-me constatar a escassíssima presença de hóspedes ou turistas. Além da minha pessoa e família, apenas vi dois casais de turistas. Ao almoço, apenas nós. Viajei depois pela ilha e não divisei o que pudesse ser um fluxo turístico minimamente encorajador. Portanto, não é observável a primeira das condições citadas.
    Quanto à segunda condição, torço por que as potencialidades turísticas de S. Antão sejam bem reais em vez do que pode não passar de um erro de auréola dos defensores da construção do aeroporto e universidades. Não se pode iludir a realidade por causa de alguns jovens turistas que demandam a ilha de mochila às costas para fazer longas caminhadas pelas montanhas. O que eles consomem é muito pouco expressivo do ponto de vista económico e em caso algum justificará grandes investimentos económicos a não ser melhorar a oferta ao nível da hotelaria e da restauração. Por outro lado, não acredito que esses jovens turistas, e mesmo outros, prefiram desembarcar de avião directamente na ilha a fazerem a entusiasmante travessia do canal. Esta demora menos do que o tempo de espera no aeroporto para controlo de fronteira e levantamento de bagagem. Mais, é muito pouco provável que haja turistas que se destinem directamente a S. Antão dispensando a passagem prévia pela ilha vizinha.
    Julgo que salta à vista de qualquer um que o aliciante de uma oferta turística para o caso de S. Antão passará por um pacote que conjugue a fruição de uma dualidade de oferta que inclua S. Vicente. Para o caso, o aeroporto da Cesária chega e sobra, aeroporto que tem de ser visto como uma pertença tanto de sanvicentinos como de santantonenses. Só os que sofrem de alucinação podem conceber que S. Antão terá uma procura turística tão intensa que justificará plenamente ser dotada de um aeroporto próprio. Se querem comparar com o tipo de procura existente nas ilhas do Sal e Boavista estão a cometer um erro de palmatória. As extensíssimas praias de areia branca daquelas ilhas possuem um valor competitivo que não se pode comparar com algum turismo rural que S. Antão oferece, sim, mas a uma escala pequena e semelhante ao de outros destinos concorrentes e bem apetrechados, como Madeira e Canárias. (Continua)

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  4. (Continuação)
    O que se tem de fazer é melhorar os transportes marítimos, como bem sugeriu o Osvaldo Lopes da Silva. E quanto à criação de mais universidades, penso que pessoas mais qualificadas do que eu sobre a matéria já se pronunciaram sobre seu número exagerado no país e ainda por cima sem garantias de efectiva qualidade.
    Julgo que quando se fala de regionalização, que pode ser implementada com sucesso no país, há que chamar os bois pelos nomes e não tomar a nuvem por Juno. Convém colocar os pés no chão e tirar a cabeça da lua. A regionalização jamais poderá resultar numa competição disparatada entre ilhas nem num processo de ressarcimento de complexos não curados. Somos cabo-verdianos de todas as ilhas e de cada uma delas. Não nos ficará bem emulações doentias. O que precisamos é de unir esforços para explorar convenientemente e com cabeça a força colectiva que pode resultar da conjugação das características individuais de cada ilha, ou seja, explorar o efeito de sinergia, como sói dizer-se actualmente. Isso não será possível com egoísmos saloios ou egos individuais inflamados. Quando questionamos o centralismo político e apontamos a Praia como a expressão de uma macrocefalia danosa e injusta para o todo nacional, não estamos a atacar ou a invejar os santiaguenses, estamos, sim, é a lastimar a extensão inusitada do erro político cometido no pós-independência.
    A dívida pública já vai em 114%. Ou tomamos juízo, ou qualquer dia o Banco Mundial e o FMI estarão a bater-nos ruidosamente à porta para cobrar a dívida. E não teremos outro modo de as liquidar senão vendendo algumas ilhas, porque os tipos não dão nada de borla. À laia das privatizações, vão se fazendo cobrar, como se tem vista em Portugal e na Grécia.

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