sexta-feira, 7 de agosto de 2015

[8354] - À BAÍA DO PORTO-GRANDE NÃO BASTA SER BELA...(02)


 O que se pode fazer com uma das Mais Belas Baías do Mundo? Nada? 
2ª Parte 
(a) A Ilha do Porto Grande: crescimento num emaranhado de caos urbanístico 

 Em Dezembro 2013 o prestigiado arquitecto português Souto Moura numa entrevista à Semana Online (1) declarou o seguinte “A arquitectura de Mindelo lembra-me as vilas das novelas brasileiras”. Segundo o mesmo jornal “uma rápida passagem por S. Vicente deixou o arquitecto Eduardo Souto Moura apaixonado pela ““geografia peculiar” da cidade do Mindelo e as suas características arquitectónicas de influências coloniais portuguesas. Adepto do “small is beautiful”, o prémio Pritzker 2011 não gostou, no entanto, de ver edifícios gigantescos construídos nas encostas. São prédios “contra natura” e “banais”, que, na opinião do especialista, “podem beliscar a beleza de uma cidade que lembra as vilas das telenovelas brasileiras”. Com efeito, sem ser especialista, qualquer pessoa minimamente sensibilizada por estas questões, que já viajou para algumas grandes cidades e destinos turísticos (por exemplo, na Europa, a Itália, França, Espanha e mesmo Portugal) e visitou-os com olhos de ver, só pode ficar preocupado com o que se fez/faz em termos urbanísticos na ilha do Porto Grande. Têm-se cometido “crimes” de mau gosto, muitas vezes por indiferença ou falta de sensibilidade, e digo isso com muita pena quando falo das autoridades camarárias e dos poderes centrais. Com efeito fotografias aéreas das zonas periféricas da cidade do Mindelo, colocadas em Junho de 2015 na página facebook-Clube Matiota com o título S.VICENTE, CAOS URBANÍSTICO, DESORDENAMENTO URBANO denunciam a situação caótica do urbanismo da ilha: “Como justificar tantas casas inacabadas ou barracas num caos urbano onde impera a desorganização, o desordenamento urbano aliado a um desconforto estético, para não dizer, uma incompetência organizacional? Como podem os responsáveis permitir tais desmandos, sem se preocuparem por criar previamente planos para se construir algo devidamente integrado?”. As imagens horrorizaram inúmeros internautas, naturais ou amantes da ilha, ao se aperceberem da verdadeira realidade urbana da ilha do Porto Grande, constatando que afinal ela, tal favelas do Rio de Janeiro ou de qualquer país do 3º Mundo, está a crescer desorganizada e inesteticamente, repetindo alegremente erros que foram cometidos nessas paragens. Comentei da seguinte maneira o post: CACOFONIA URBANÍSTICA NAS PERIFERIAS DO MINDELO O MAU GOSTO NO SEU PAROXISMO “Os arquitectos e engº civis crioulos podem estar orgulhosos desta descaracterização rompante. Este é o inferno de betão que uma coalição de interesses quer mergulhar esta bela cidade. A condenação é sem apelo nem agravo. É preciso repensar o URBANISMO da cidade do Mindelo. Deve-se exigir a realização urgente de um Congresso de Arquitectos e Engenheiros Civis de Cabo Verde e exigir-lhes compromissos com um URBANISMO que respeite a traça e a tradição desta cidade e trave esta tendência pseudo modernista. O conceito de urbanismo actual é amontoar casas em forma de caixote (quanto mais alto melhor) sem telhados nem estética, e sem ter em conta a história da urbanização da cidade e a sua traça. Esta parte da cidade faz-nos lembrar a capital Iemenita (não quer dizer que Sanaa não tenha o seu charme de uma cidade do deserto constituída com materiais locais”…”Com efeito a verdadeira realidade socioeconómica da ilha de S. Vicente, para além da propaganda, reflecte-se nestas fotografias dos arredores do Mindelo. O caos urbanístico é o reflexo da economia fictícia de uma ilha falida, sem projectos, que cresceu desordenadamente e em que a maioria dos seus filhos emigrou, atraindo agora emigração de outras ilhas, na esperança de dias melhores. A ilha de S. Vicente já não tem nada a oferecer senão miséria”. Uma outra reacção de um amigo dá a dimensão do verdadeiro caos urbano “Infelizmente, é esta a realidade urbanística na nossa ilha, José. Este é o rosto de uma realidade que me desgosta profundamente sempre que a visito, como aconteceu recentemente. Eu até procuro fechar os olhos para não o ver, mas o fenómeno é de uma fealdade tão agressiva que é impossível ignorá-lo, adoçá-lo com olhos benevolentes ou desculpá-lo com julgamento tolerante. Aquilo é feio demais para poder ser verdadeiro. Aquilo destrói e compromete a intenção de vender um panorama minimamente aceitável a quem nos visita com fins turísticos. Aquilo não se vê em mais lado nenhum. Nem a pobreza pode justificar semelhante atentado contra o bom gosto, nem as autoridades podem continuar a pactuar com a bandalhice. Cheguei a Portugal e tive o cuidado de verificar se em alguma vila ou aldeia se verificava tal quadro de fealdade e atropelo à estética. Nada, não se vê nada parecido. Só no Cabo Verde da actualidade. A razão de tudo isso é que toda a gente quer comprar um pedaço de terreno para construir e tem o aval da câmara para avançar, sem qualquer projecto de financiamento garantido ou mesmo projecto de construção. Vão construindo conforme podem, primeiro as paredes, depois o tecto, e o resto logo se verá, até que habitam o interior sem que a casa tenha sido concluída ou sequer objecto de prévia vistoria das autoridades. Isto é o que mais acontece nos arredores, mas mesmo mais próximo do centro também se vêm  habitações por pintar. A hipótese de só se vender terreno para habitação mediante um projecto completo, principalmente o de financiamento da construção, não passa politicamente por receio de perder eleitorado com medidas impositivas. E o que acontece na cidade da Praia é ainda muito pior, o que dá à cidade do Mindelo um ar civilizado comparado com aquela cidade. Conclusão: aquilo está entregue ao Deus dará. Não há autoridade pública capaz de meter na cabeça das pessoas que aquele panorama nos é prejudicial a todos os títulos e que nenhum cabo-verdiano se pode orgulhar com tal coisa. Mesmo sem ir para os arredores, encontra-se na morada situações verdadeiramente confrangedoras a denunciar que não houve qualquer plano urbanístico em certas zonas onde se construíram casas novas. Estou a falar de Alto Miramar, Alto Celarino, Madeiralzinho, Cruz de João d’Évora, Monte, etc. Em muitos casos construiu-se e ampliou-se habitação sem acautelar um espaço razoável para os arruamentos. É um autêntico atropelo. Mas há uma situação particular que brada aos céus. Quando se vai na rua que sobe em direcção ao Madeiralzinho, depois de se virar à direita ultrapassando a estação da ENACOL, e mesmo antes do estabelecimento de ensino secundário ali construído há 12 anos, depara-se o seguinte. No lado direito dessa rua existe um prédio de uns 3 ou 4 andares, em que a marquise ou varanda do 1º andar é tão projectada para a frente que um camião com certa altura não consegue passar, sob risco de colidir com essa aberração. E qual foi a solução encontrada? Estamparam nessa aberração um sinal de trânsito com o limite de altura que podem ter os veículos que circulam na via pública. Atenção que essa é uma zona de prédios novos e altos. Disseram-me que o dono daquilo é ‘alguém’. E assim foi caucionada semelhante aberração.” Bom com a leitura disto tudo estamos conversados!!!!!!


Imagens da periferia de uma das Mais Belas Baía do Mundo: O Outro lado do ‘Mundo’ (Clube Matiota)

Por outro lado, surgem perguntas recorrentes sobre o património: como é possível deixar ruir ou promover a destruição, perante a indiferença generalizada, patrimónios como o Fortim Del Rei, o Éden Park, a Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, o Liceu Velho, a antiga sede da Administração? Quando alguém coloca estas questões, a resposta é um silêncio ensurdecedor! Como perspectivar com seriedade o futuro desta ilha e de Cabo Verde, numa óptica sociocultural, como enuncia José Almada, perante tais circunstâncias?! 
Portanto para além dos elogios de circunstância é preciso ler nas entrelinhas as declarações de Souto Moura (que, felizmente, terá ficado somente pelo centro da cidade) e extrair uma crítica velada ao conceito do urbanismo dos profissionais que operaram na cidade do Mindelo nos últimos 40 anos. Perante tais constatações pode-se concluir que a Arquitectura e o Urbanismo em Cabo Verde apresentam um quadro de insuficiências formativas, pelo que recomenda-se medidas correctivas: mais e melhor formação nestas áreas (graduações, pós graduações em arquitectura e urbanismo); estabelecimento e incremento de contactos e parcerias profissionais e universitários com organizações internacionais credenciadas; mais abertura ao Mundo através da organização em Cabo Verde de palestras, Workshops e conferências de âmbito internacional nas áreas em questão; missões de estudo sobre património moderno (Novo Mundo) e clássico (Velho Mundo). De resto, não se percebe porque a Workshop Internacional SIRUM (2) que se realizou em 2006 para se reflectir sobre o Urbanismo Mindelense nunca mais se repetiu e as recomendações não foram até hoje observadas. (este artigo continua)

1- Souto Moura: “A arquitectura de Mindelo lembra-me as vilas das novelas brasileiras”
 http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article95170#ancre_comm
2-1.º SIRUM – Seminário Internacional de Reabilitação Urbana de Mindelo; http://cultura-adriana.blogspot.pt/2010/05/1-sirum-seminario-internacional-de.html

 José Fortes Lopes
Agosto de 2015

2 comentários:

  1. Mais uma vez, bem lembrado, José, para manter a atenção do leitor focada nesta tão delicada como importante questão. As duas fotografias sobre a paisagem urbana da periferia da cidade, são bem eloquentes.

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  2. Francamente não sei o que vai na cabeça dos da CMSV. Então a gestão e ordenamento territorial não faz parte da sua formação? Ou será outra coisa? Eu, quando olho para as fotografias parece-me que andaram dois gigantes aí à luta, atirando caixotes um contra o outro. O resultado foi este labirinto sem graça.

    Matrixx

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