sexta-feira, 28 de agosto de 2015

[8423] - COLESTEROL - CARA OU CORÔA?!...

O mito do colesterol


DR. MANUEL PINTO COELHO


Publicado no jornal  Público em 26/07/2015 

Se o aumento da taxa de colesterol é um meio que o organismo encontra para se proteger, então baixar a sua taxa com medicamentos não parece boa ideia

Na luta contra as doenças cardiovasculares, sempre que se pensa em arteriosclerose é admitido, desde há muito tempo, que o culpado é o colesterol que se vai depositando nas artérias, entupindo-as progressivamente a uma velocidade proporcional ao seu nível no sangue. Ora, a verdade é que esta teoria não repousa em nenhum dado científico bem sustentado.
Na realidade, não só a investigação comprova que três quartos das pessoas que têm o primeiro ataque cardíaco têm níveis normais de colesterol, como estudos recentes indicam que os tratamentos, em muitas situações, acabam por ser bem mais nocivos.
Reportando-nos exclusivamente aos problemas cardiovasculares, tem-se negligenciado muitas vezes a importância dos numerosos efeitos secundários provocados pelos tratamentos para baixar o colesterol, essencialmente perda de memória, fraqueza muscular e ligamentosa, impotência sexual e diabetes tipo2, alterações digestivas e hepáticas, dores de cabeça, edemas, vertigens, alterações cognitivas e alergias cutâneas.
No caso das estatinas, drogas que bloqueiam, no fígado, a enzima responsável pela produção do colesterol, essencial para a nossa sobrevivência, talvez nos dias que correm os medicamentos que mais se vendem em todo o mundo, utilizadas para baixar o colesterol total e a fracção LDL do colesterol, (sendo que este último, embora não seja mais que um transportador do colesterol do fígado, onde ele é fabricado, para os tecidos que dele têm necessidade é considerado ridiculamente “mau colesterol”, em contraponto com a fracção HDL, considerada “bom colesterol”, outro mero transportador do mesmo colesterol, dos tecidos que o utilizaram, para o fígado - a sua central de fabrico e reciclagem), o risco de diabetes e obesidade resultante da sua toma foi ainda há pouco tempo denunciado pela comunidade científica.
Assim, em Março de 2012 a Agência Europeia do Medicamentos (EMA) reconheceu a gravidade do efeito diabetogénico das estatinas e recomendou aos laboratórios que os seus efeitos secundários passem a ser claramente anotados nas normas de utilização, norma que, parece, nem sempre cumprida.
Mas não é tudo. Começam a aparecer, cada vez com mais evidência, estudos mostrando que as estatinas pioram também a saúde cardíaca, revelando não só que não são seguras como também não são muito eficazes. Um estudo recentemente publicado, revelou, em contraste com o aquilo que é hoje comummente aceite (a redução do colesterol com estatinas diminuem a arterioesclerose), que estas drogas podem, pelo contrário, estimular a arteriosclerose e a insuficiência cardíaca (Expert Review of Clinical Pharmacology.2015 Mar;8(2):189-99).
Alguns mecanismos fisiológicos discutidos no estudo mostraram que as estatinas podem piorar a saúde do coração de várias formas:
- Inibindo a função da vitamina K2, necessária para proteger as artérias da calcificação;
- Danificando a mitocôndria, prejudicando a produção de ATP (responsável pela energia do músculo cardíaco);
- interferindo com a produção de CoQ10, como se referirá mais adiante;
- O mesmo com proteínas contendo selénium, tais como a glutationa peroxidase, cruciais para prevenir o dano oxidativo do tecido muscular.
Considerando todos estes riscos, os autores concluíram que “as epidemias da insuficiência cardíaca e arteriosclerose, quais pragas do mundo moderno, podem ser paradoxalmente agravadas pelo uso difuso de estatinas. Nós propomos que os correntes manuais de tratamento com estatinas sejam criticamente reavaliados”.
No que diz respeito às doenças cardiovasculares, em que o colesterol teima em aparecer como o mau da fita, há uma grande incerteza sobre as suas causas e têm surgido as teorias mais contraditórias.
Sabe-se que aquilo a que se chama “placa” ateromatosa, que reduz o diâmetro das artérias, é principalmente constituída por células compostas pelo tecido muscular liso das artérias (proliferarando anormalmente), cálcio, ferro e colesterol, sendo este minoritário, funcionando como um curativo qual penso reparador do desgaste provocado pela inflamação da parede das artérias, esta sim a verdadeira má da fita nesta questão da formação da placa ateromatosa e da consequente arteriosclerose. Daí a importância do seu biomarcador – a PCR (Proteína C Reativa) – estar abaixo de 0,5. Quem o tem abaixo deste valor pode comer gorduras à vontade.
Sendo assim, se o aumento da taxa de colesterol é um meio que o organismo encontra para se proteger, então baixar a sua taxa com medicamentos, estatinas ou quaisquer outros, não parece boa ideia.

Doentes devem continuar terapêuticas do colesterol prescritas pelos médicos

DR. R. PALMA REIS
Publicado no jornal Público de 02/08/2015 -

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia aconselha os doentes vasculares e/ou hipercolesterolémicos a continuarem as terapêuticas prescritas pelos médicos que os assistem. 

Um artigo recente, publicado pelo Público a 26/7/2015, apresenta, sob a forma de opinião, um conjunto de conceitos cientificamente corretos, bem como outros, menos aceitáveis, baseados nas evidências científicas disponíveis.
Considerando poder haver risco para a saúde pública, se doentes acreditarem e seguirem as opiniões do autor, entendeu a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, por intermédio do Grupo de Estudo de Risco Cardiovascular, ter a obrigação de esclarecer os portugueses e clarificar os aspetos menos claros, ou até cientificamente menos corretos, do referido artigo.
O que é certo ou errado na medicina atual
Numa era de Medicina Baseada na Evidência, há três níveis de evidência: classe 1, em que a abordagem ou terapêutica é claramente eficaz, e deve ser feita; classe 2, em que há dúvidas quanto à eficácia da terapêutica; e classe 3, em que a terapêutica é desaconselhada/nociva.
Assim, quando as evidências são de classe 1 ou 3 há pouco espaço para a opinião individual, já que há resultados claros, baseados na terapêutica de milhares de doentes. Nas situações de classe 2, não havendo certezas, há espaço para opiniões e decisões baseadas na experiência pessoal. Estas evidências estão organizadas pelas várias sociedades científicas em normas de atuação (guidelines).
As normas (guidelines) de atuação, antes de mais, baseiam-se nos resultados de ensaios clínicos, que avaliam, em grupos de doentes, os resultados de determinadas terapêuticas. Se um determinado tipo de doentes beneficia no ambiente de ensaio clínico de uma determinada terapêutica, alarga-se essa terapêutica a outros doentes semelhantes da população, na expectativa de.
Especificamente no papel do colesterol e nos resultados da sua intervenção os documentos padrão são as normas da Sociedade Europeia de Cardiologia, quer para a abordagem das dislipidemias (colesterol), de 2011, quer as genéricas, de prevenção cardiovascular, publicadas em 2012. São normas que estão disponíveis para quem as quiser ler (escardio.orq), baseadas nas evidências mundiais nas várias situações.
Papel do colesterol nos acidentes vasculares
As evidências clínicas de que dispomos revelam que o colesterol elevado constitui indiscutivelmente um poderoso fator de risco cardiovascular. Não é único – está acompanhado por outros fatores muito importantes, como hipertensão arterial, tabagismo e diabetes, bem como por vários fatores de importância menos marcada, como as inflamações crónicas dentárias e a obesidade. Assim, um doente pode ter um acidente vascular (enfarte ou AVC), sem ter colesterol elevado, ou pressão arterial elevada – basta ter outros fatores de risco – conhecidos ou não.
Para controlo do colesterol elevado, inicialmente, e perante os indivíduos de risco vascular baixo ou intermédio, devemos promover medidas de saúde geral, como alimentação correta (quantidade – calorias adequadas e qualidade – menos gorduras saturadas... ), atividade física regular e adequada à capacidade física do indivíduo, deixar de fumar, ter boa integração social… São os aspetos do artigo considerados corretos.
No entanto, particularmente após acidente vascular, e também nos indivíduos de risco cardiovascular elevado que não conseguem controlar os níveis de colesterol com dieta e exercício, a terapêutica, nomeadamente com estatinas, é indiscutível, com grande eficácia quer na redução dos eventos cardiovasculares (enfartes, AVC, necessidade de cirurgia, entrada em insuficiência cardíaca), quer na diminuição da mortalidade cardiovascular e global.
Dizendo de outra forma, se um doente de alto risco cardiovascular, ou após um acidente vascular, fizer terapêutica com uma estatina, tem menos probabilidades de ter complicações cardiovasculares (novos enfartes, AVC...) e tem menos probabilidade de morrer precocemente.
São evidências esmagadoras, baseadas em centenas de milhares de doentes, consistentes em vários ensaios em todo o mundo, e com várias moléculas independentes e desenvolvidas por várias companhias.
Nestas circunstâncias, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia aconselha os doentes vasculares e/ou hipercolesterolémicos a continuarem as terapêuticas prescritas pelos médicos que os assistem.
MD, PhD, FESC, coordenador do GE Risco Cardiovascular da SPC
Artigo escrito segundo as regras do novo acordo ortográfico

- Colabor. Adriano M. Lima -

3 comentários:

  1. Hoje não sabemos em quê acreditar, se até os médicos andam às aranhas.

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  2. Eu cá por mim mandei as Estatinas àquela parte.

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  3. Tomem muito cuidado. Procurem um conselho antes de depender disso.
    Não falo so para aderir ou impedir outros de aqui virem mas por ter sido
    vitima (por três vezes).

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