domingo, 6 de setembro de 2015

[8443] - CÉREBROS SEM EMPREGO...

Em resposta à notícia publicada no Jornal A Semana dia 24 de Agosto, sobre o crescimento de fuga de cérebros cabo-verdianos, o director-geral das Comunidades, Sr. Francisco Carvalho ao сomentar o estudo intitulado "Is the Brain Drain Good for Africa?", da autoria de William Easterly e Yaw Nyarko , disse o seguinte: "Começa a ser cada vez mais crescente – e preocupante - o número de estudantes cabo-verdianos que não regressam ao país (…),“Isto porque muitos começam a colocar a possibilidade de regresso na dependência da existência de um contrato laboral concreto. Preferem ficar a desempenhar funções muito abaixo das suas qualificações do que regressar sem a certeza de um contrato concreto”. “Parece-nos que, ética e moralmente, há exigências que se colocam aqui. Pois, julgamos que não se pode perder de vista o enquadramento da atribuição da bolsa como parte de uma política pública para a promoção do desenvolvimento do país”.

Jailson Gomes
Essa notícia me tocou profundamente, daí comecei a reflectir seriamente sobre as palavras ditas pelo Sr. Carvalho. Não podia ficar sem reagir e lhe fazer saber através da minha ou de outras histórias porquê é que cresce a fuga de cérebros em Cabo Verde. Alias, julgo que ele sabe muito bem. Por isso, decidi escrever este presente artigo que narra a minha história e o meu percurso do ensino secundário até o termino da universidade. Depois de tantos anos de luta para obter uma formação superior de qualidade para desenvolver o nosso país, nós os jovens sem influências políticas tornámo-nos desempregados e escravos do sistema.

Sou Licenciado em Ciências Politicas (Universidade Russa de Amizade dos Povos), Pós-graduado em Economia (Instituto superior de Gestão-Rússia), Mestre em Relações Internacionais (Universidade Russa de Amizade dos Povos), tradutor, falo quatro línguas estrangeiras. Estou na lista dos 10 melhores alunos da minha universidade entre o ano 2005-2012.

Desde de criança, o meu sonho era trabalhar seguir a carreira de diplomata ou talvez entender os assuntos internacionais. O meu primeiro encontro não foi com um diplomata, mas com um professor de diplomacia em Moscovo. O senhor cujo nome é Yori Koslov, foi o meu professor na preparatória, ele falou muito comigo sobre e diplomacia e disse que o mais importante na carreira diplomática é o amor a sua pátria e saber muito bem a política, economia, política mundial e as línguas estrangeiras. As palavras desse professor serviram-me de guia até a conclusão dos meus estudos superiores para ser diplomata.

Para realizar esse sonho, fiz a licenciatura em ciências políticas e pós-graduação em Economia e Mestrado em Relações Internacionais. Também sem cansar estudei as línguas estrangeiras (Inglês, francês, espanhol e russo).

Tendo terminado com sucesso o mestrado recebi o convite para trabalhar na minha Universidade como tradutor (russo-português e português-russo) e integrar no grupo sénior de analistas dos assuntos internacionais da revista "Vestnik" em Moscovo. Acabei por não aceitar o convite, pois o meu objectivo era viver e trabalhar em Cabo Verde.

No verão do ano 2012, cheguei ao meu país com a certeza de que encontraria uma oportunidade de ser um soldado do Estado cabo-verdiano e aplicar os conhecimentos adquiridos para o desenvolvimento da minha amada pátria Cabo Verde.

Cheguei ao país numa sexta-feira, logo no início da semana comecei a fazer os primeiros contactos. Durante seis meses, após a minha chegada, depois de sete anos no exterior, comecei a compreender a realidade do nosso país, ou seja, encontrar um emprego na minha área de formação não é tão fácil como eu pensava. Por mais incrível que pareça, todos os meus colegas de curso de Relações Internacionais com idade entre os 29 aos 30 anos de idade, hoje já iniciaram as suas carreiras.

Na minha cabeça ficou uma questão. Porquê é que eu ainda não comecei a minha carreira com diplomata? Tive a delicadeza de perguntar muitas pessoas conhecidas, aos meus pais, amigos para tentar encontrar uma resposta, até que uma a minha esposa me disse:” Serias diplomata se os teus pais fossem pessoas influentes socialmente ou ricas, mas infelizmente eles não são e nem serão influentes”. Essa foi a resposta mais sincera que eu ouvi na minha vida, enquanto profissional.

Apesar de tudo, acreditei que sou capaz de conseguir o que sempre sonhei, incansavelmente continuei a procura de um estágio não remunerado no Ministério Exterior como forma de obter a minha primeira experiência profissional, mas a minha carta nunca teve qualquer resposta.

Para confessar, tive momentos de depressão, pois não conseguia ver a solução na altura. E para limitar os meus gastos que os meus pais suportavam, sem orgulho ou receio, comecei a prestar pequenos serviços na minha vizinhança e a ganhar um pouco de dinheiro. Em função disso, os meus conhecidos começaram a fazer o juízo da minha decisão. Agradeço imensamente aos meus pais, familiares e a minha amada esposa que me deram forças para superar aquele momento.

Já lá vão 3 anos após o término da minha formação completa na área de diplomacia e não consigo encontrar um emprego. No entanto, continuo a fazer a minha pesquisa no âmbito do meu Doutoramento e criei a Associação “Por um Cabo Verde Melhor” e o Centro de Línguas Estrangeira –POLYGLOT.

Como Doutorando em Ciências Políticas na Universidade Russa de Amizade dos Povos e vendo roupas second hand “ya” importadas da Inglaterra, faço tradução do russo para português e vice-versa e sou comercial da minha esposa que é professora de Inglês para garantir o meu pão de cada dia e graças a Deus estou muito feliz e até hoje nada me têm faltado e nem à minha família.

Todos os jovens que obtiveram a sua formação universitária no exterior e regressam a Cabo Verde porque, realmente querem dar o seu contributo e aplicar as suas experiências e conhecimentos para o desenvolvimento do nosso país. Mas, hoje há muitos jovens que tiveram grandes oportunidades de emprego no país onde completaram a sua formação e recusaram ficar ou trabalhar para um outro Estado porque tinham a certeza de que ao regressar a Cabo Verde teriam um emprego ou uma chance de integrar no sistema do económico e político do país. Há centenas de jovens formados no exterior que regressaram ao país com grau de Mestre e não encontraram nem sequer um estágio profissional.

O senhor Carvalho esqueceu talvez de frisar a politização total de administração pública e do privado como causa do desemprego e consequentemente como um dos motivos pelos quais cresceu a fuga de cérebros cabo-verdianos. Até porque os filhos e os familiares dos mais poderosos politicamente em Cabo Verde que nem sequer terminaram o liceu ou a universidade, estão bem enquadrados ocupando cargos de grande responsabilidade para o país. Essa é uma tristeza.

Acredito, que há centenas de jovens a passar ou que passaram pela mesma situação. Sejam fortes e aceitam a realidade, mas sem desistir dos vossos sonhos. Tendo em conta a experiência pelo qual eu passei, isso me tornou mais forte e capaz de ser inovador, empreendedor e utilizo os meus conhecimentos para ajudar os que necessitam da minha ajuda.

Na realidade, acho que seria melhor procurar a sorte num país onde os formados são mais valorizados, onde um jovem formado não é visto como uma ameaça, mas sim como uma mais-valia. Estou seguro de que muitas famílias, muitos jovens como eu, tanto em Cabo Verde, como na diáspora estamos na mesma situação e sem uma solução à vista.


1 comentário:

  1. Meu caro amigo esta tua história me comoveu e estou satisfeito por ti. Você cresceu e amadureceu muito e estas mais capacitado para a dureza da vida. A vida só tem sentido com dificuldades; vida fácil não é desejável. O mais importante num individuo é ter uma profissão, e saber fazer, com humildade, e vontade de cada vez aprender mais.
    Uma coisa tenho a certeza, é que Cabo Verde nunca vai conseguir dar trabalho a todos os sues filhos com ou sem formação superior. Vamos ter que continuar a imigrar a procura duma vida melhor. Foi assim no passado, esta a ser no presente, e o futuro não será diferente.as autoridades devem encarar isso sem complexos nenhum pois esta é a nossa realidade.

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