terça-feira, 29 de setembro de 2015

[8496] - DA RETÓRICA OCA DOS DEBATES...



SOBRE A NATUREZA DO DEBATE ELEITORAL

Creio que tem havido um crescente abastardamento do conceito de vitória ou derrota nos debates eleitorais em que as televisões e as rádios põem em confronto dois ou mais políticos. O uso habilidoso da palavra, os ardis de linguagem e a fluência da retórica parecem mais valorizáveis aos olhos dos comentadores e analistas do que o conteúdo concreto das ideias, a substância ideológica das convicções e a credibilidade dos programas eleitorais em presença.
Assim sendo, parece não haver grande destrinça do ponto de vista ético-moral entre o malabarista ou vendedor de banha de cobra e o homem parco ou trôpego de palavra mas rico de carácter e princípios. A mentira sistematicamente repetida, a mistificação e o manobrismo rasteiro tendem a ser cada vez mais tolerados no jogo feio em que se converteu o pleito democrático. Quem não se acautele com o conveniente apetrecho dialéctico para fazer passar a sua mensagem, pode ser desfeiteado pelo opositor de palavra fácil e voz bem colocada, mesmo que entre um e outro a diferença seja como a que separa o dia da noite, em matéria de seriedade, verticalidade e honestidade intelectual. 
Poderíamos deduzir que uma das razões deste estado de coisas é o acesso às fileiras das juventudes partidárias ter passado a estar particularmente facilitado ao jovem falido nos estudos mas de espírito militante, habilidoso e oportunista que, enquanto cola cartazes, vai pontuando no tirocínio do manejo da palavra, tendo-o como um objectivo carreirista em si mais do que o propósito de servir condignamente a causa pública. Em contrapartida, o jovem que triunfa nos estudos e cuida de adquirir uma boa ferramenta académica e profissional para bem servir o país, pode enveredar nas hostes partidárias, mas isso por certo não esgotará a sua capacidade opção de vida. E é quase garantido que constitui um valor potencial para o futuro da política.
O que, por outro lado, confrange é ver comentadores e analistas da nossa praça enfermarem do mesmo olhar viciado sobre a fenomenologia política. Convenhamos que nos últimos debates eleitorais, houve comentadores e analistas que mais pareciam sê-lo do pugilismo. Estavam mais atentos ao efeito do “uppercut” ou do “nockdown” sofrido pelo contendor momentaneamente distraído do que ao conjunto integral do seus requisitos de ordem política e moral. Ou seja, o conteúdo e a justeza do que se propõe parecem contar menos que a atitude manhosa e o golpe baixo para somar pontos. No entanto, e felizmente, há ainda quem tenha a coragem e a lucidez cívica de distinguir o trigo do joio, fugindo ao estereótipo, e não se coibindo de pôr o dedo na ferida quando isso é necessário para a dignificação da vida cívica.
Para mal dos pecados nacionais, esta forma enviesada e deletéria de olhar para a política espelha-se de forma nua e crua nas redes sociais. Muitos cidadãos que intervêm nessas redes revelam uma triste e lamentável carência de formação e informação cívicas, como o demonstram a natureza e o estilo de algumas intervenções e críticas produzidas. Ainda não há muito tempo, escrevi neste espaço um texto em que opinava sobre a falta de uma acção cívica e cultural que pudesse ter dado continuidade às “campanhas de dinamização cultural” que o Movimento das Forças Armadas promoveu a seguir ao 25 de Abril, mas que infelizmente se desviaram da sua intenção original ao serem instrumentalizadas por alguns partidos políticos. 
Na verdade, é surpreendente ver pessoas de estrato social modesto e que mal sabem escrever ou exprimir uma ideia, a aceitar ou apoiar, nas redes sociais, políticas que defendem a privatização de sectores vitais do Estado como a Educação e a Saúde, o embaratecimento do trabalho e a continuação da nossa fidelidade canina a uma política geral da União Europeia orquestrada por políticos que ideologicamente se afastam a olhos vistos dos princípios que inspiraram os seus fundadores.
Creio que não é exagero considerar que o caldo da nossa cultura cívica está um pouco azedo e que urge aplicar-lhe um antídoto qualquer. O mesmo é dizer que temos todos de contribuir para que a política se limpe e se dignifique, de forma a tornar-se uma verdadeira via para a formação integral do homem, o progresso social e a construção do futuro colectivo, resgatando-a das mãos de gente impreparada e pouco confiável.

Tomar, 20 de Setembro de 2015
Adriano Miranda Lima


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