domingo, 11 de outubro de 2015

[8536] - S.VICENTE, A COSMOPOLITA...

(Foto - Antoine Wibrin)

O apagado início de colonização da Ilha de S. Vicente dificilmente faria prever que se transformaria na terra de desenvolvimento e vida que é desde a primeira metade do século XIX.

S. Vicente mantém o baptismo original, associado ao santo celebrado a 22 de Janeiro, data a que aqui chegaram os primeiros navegadores, capitaneados por Diogo Gomes, em 1462.

No entanto, como outras se chamam “do Fogo” ou “Brava” depois de terem tido os seus santos baptistas, S. Vicente poderia designar-se “Ilha da Música”, ou “Ilha da Alegria”, tal é a vivacidade que adquiriu e a relevância que tem no universo multifacetado de Cabo Verde.

Apesar de ser uma das quatro ilhas de menores dimensões geográficas do país, S. Vicente é a segunda mais povoada e conquistou tal notoriedade que a cidade do Mindelo chegou a ser lembrada como possível capital de Cabo Verde.

Os primeiros séculos de vida humana no território, porém, não foram prometedores. A secura da terra, a aridez do solo, os obstáculos ao desenvolvimento da vida vegetal, de tal modo que até as acácias – preparadas para quase tudo – sentem problemas em vingar aqui, não encorajaram os humanos a fixar-se.

Da vizinha S. Antão vinham os pastores a soldo dos senhores da ilha para apascentar os rebanhos de gado capaz de se contentar com a frugalidade dos arbustos que medravam em terra agreste. S. Vicente, rica em pureza natural, não era mais do que um cenário de desolação humana.

A partir dos anos trinta do século XIX, a instalação de um depósito de carvão pelos ingleses transformou a situação. De todo o mundo começaram a passar pelo Porto Grande do Mindelo, procurando combustível, navios a vapor de diferentes nacionalidades, trazendo uma animação até então desconhecida. S. Vicente povoou-se, ganhou uma vida dinâmica graças à desenvoltura económica que revolucionou a ilha.

S. Vicente abriu-se ao mundo e ficou a ser uma das principais portas do cosmopolitismo em Cabo Verde. O carvão foi substituído depois pelo diesel como combustível dos grandes navios, que passaram a rumar a Dakar e Canárias, mas S. Vicente retomou o fôlego como âncora dos cabos submarinos do telégrafo e do telefone.

O cosmopolitismo ajudou a projectar as raízes culturais de Cabo Verde no mundo e promoveu a sua mistura com costumes, música e palavras de diversos países.

O Mindelo tornou-se cidade de impressionante diversidade cultural, de uma alegria contagiante e de uma animação que ignora as fronteiras entre o dia e a noite.

Uma experiência inesquecível podo começar ao fim da tarde no meio dos sons e da alegria que se concentrara na Praça Amílcar Cabra e depois se estendem, sem destino nem orientação, pelos restaurantes, cafés, clubes e bares do Mindelo.
Da dolência da morna à vertigem do funaná, passando à coladera e tantos ritmos espelhando a universalidade mindelense é um não acabar de animação que ajuda a fazer as pazes com a vida. Para tal conte-se também com os sabores plenos da cachupa ou o paladar único de uma moreia de escabeche no meio de uma oferta imaginativa de petiscos.

A natureza, outrora agreste em absoluto, como que se adoçou com a universalização. A Baía das Gatas, as praias do Calhau e de S. Pedro e outros espaços naturais tornaram-se pontos humanizados e procurados para usufruto de areias brancas e águas suaves.

S. Pedro é um paraíso para windsurfistas de todo o mundo; e se o veículo escolhido for, por exemplo, a bicicleta, S. Vicente abre-se à descoberta oferecendo arquitectura colonial de estilos mistos entre o português e o britânico no Mindelo e paisagens com as marcas indeléveis de África.

O Monte Verde e o Monte Cara são ícones a procurar por outros meios, mas não devem ignorar-se. Quando chega a Lua Cheia de Agosto o culto da música atinge o êxtase no Festival da Baía das Gatas.

Ao fim de cada jornada, a extroversão buliçosa do Mindelo assegura um acolhimento tão alegre como retemperador, ou não fosse S. Vicente a “Ilha da juventude” uma vez que dois terços dos habitantes têm menos de 30 anos. (Texto de Kaunda)

1 comentário:

  1. Uma retrospectiva interessante da Ilha do Monte Cara, ao qual nos leva a conclusão de que um futuro "Risonho" esta garantido.

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