segunda-feira, 26 de outubro de 2015

[8589] - O QUE FAZ CORRER J.M.N.!? - (2)

COMENTÁRIO AO EDITORIAL DO "EXPRESSO DAS ILHAS" PUBLICADO NO POST Nº 8587

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O IMPERATIVO DA ALTERNÂNCIA E A APOSTA EM POLÍTICAS ALTERNATIVAS: POR UMA NOVA
ECONOMIA E UM CABO VERDE REGIONALIZADO

Mais uma vez, temos um Editorial do Expresso das ilhas que deve ser lido com atenção, embora talvez não o seja para o comum dos mortais cabo-verdianos, pouco dados à interpretação de artigos escritos para um público mais avisado.
Leiam-no e perceberão a urgente necessidade de uma alternância política e mudança do paradigma económico em Cabo Verde, sem o que a viabilidade do país será uma miragem.
Para quem vê no betão e no asfalto, desenvolvimento, que se desengane, pois a realidade económica virá ao de cima dolorosamente, como foi o caso do Sul da Europa a partir de 2010.
Não é novidade para ninguém que Cabo Verde está a crescer abaixo do valor que seria condição mínima para aspirar a uma sustentabilidade económica (ver Nota1), e este panorama, que está longe de se concretizar no horizonte próximo dos 10 anos, ficará definitivamente comprometido caso o PAICV se mantenha no poder. Muito mal irá uma democracia em que o mesmo partido se mantenha no poder por ciclos eleitorais repetidos (quatro), o que no nosso caso configuraria quase um quarto de século, persistindo teimosamente num modelo económico que não resultou.
Como venho denunciando, o PAIGC-CV, por um concurso inédito de circunstâncias e coincidências, recebeu quase de bandeja o poder, quando as autoridades coloniais em Julho de 1974 se demitiram por completo das suas responsabilidades históricas, ao não garantirem, como lhes competia, que o povo pudesse escolher, sob os auspícios da liberdade devolvida pelo 25 de Abril, o regime político mais consentâneo com o seu sentimento de independência e o seu sonho de prosperidade e bem-estar. Tornando-se poder em 1974, o PAIGC-CV sentiu a vertigem do poder, assumiu-se Dono de Tudo, correu com todos os que lhe fizeram frente, dividiu e reinou, ostracizou quem duvidava da sua sapiência. Com o uso de um antibiótico político potentíssimo, uma Narrativa Total de Libertação e de Criação a partir do Nada, instituiu um regime de Partido Único Total que hipnotizou por completo os cabo-verdianos.
Após um interregno de 10 anos de governação do MPD, o PAICV regressou em força em 2001 para se enquistar no poder, agora colocando as suas gentes em todas as posições-chaves e estratégicas do país, tornando-se definitivamente Dono de Tudo, instituindo uma visão autocrática do Estado: o Estado é o PAICV. Esta situação preocupa muitos cabo-verdianos e começam a aparecer novas forças no terreno apontando para a necessidade de uma mudança total de políticas no país, que perspective um diálogo entre todas as forças que pretendam que Cabo Verde tenha um novo rumo, que rompa com as actuais políticas fictícias. O país está sobreendividado à custa da política do betão para inglês ver, ou seja, investimentos com o único intuito de conquistar o eleitorado mais frágil e se perpetuar no poder através de esquemas enganosos. Com bem define Humberto Cardoso, colocado perante o dilema, ‘entre Economia e Controlo’, o PAICV prefere o Controlo que lhe assegure a perenidade do seu poder dinástico.
Todavia, a teimosia poderá custar caríssimo num Mundo de hoje bastante competitivo e entregue ao poder dos mercados, com o risco de se comprometer por décadas a vida deste frágil país arquipelágico, quase no limite da inviabilidade económica.
Por isso, deve-se apostar fortemente numa alternância que seja capaz de permitir uma mudança de paradigma económico, transformando o Estado patrão, dono de tudo, em Estado regulador.
Mas, mais do que isso, o que se esperada Mudança é que permita um diálogo entre o Poder e as outras forças democráticas, nomeadamente os Regionalistas, no sentido de lançar as bases para a instauração de um Novo Regime Político, em que a matriz seja o Poder Regional Político e não somente Administrativo, como defendem os centralistas Donos de Tudo.
Sendo assim, a Oposição actual, que inclui Democratas e Regionalistas descontentes com as abordagens do PAICV, deve apostar na Alternância Política, tentando convencer os numerosos descontentes, que incluem reticentes e os incondicionais eleitores do PAICV, fidelizados por rotina ou por mero ‘desporto eleitoral’, uma vez demonstrado que não interessa mais a ninguém a permanência deste partido no poder, que tem incentivado o centralismo (ver Nota2), o desemprego, e o abandono de partes significativas do território nacional gerando decadência ou estagnação económica. Por outro lado não Cabo Verde está hoje a braços com fenómenos antes desconhecidos no arquipélago, tais como a corrupção, o nepotismo, a delinquência juvenil, tráficos de todos os tipos, etc.
Embora as forças da oposição democrática reconheçam a existência de divergências políticas com o MPD (que é na realidade um partido também com uma visão centralista do poder, logo avesso a alterações significativas do actual paradigma político), todos os esforços devem ir no sentido de se constituir uma grande coalizão para derrotar o PAICV e arredá-lo do poder por pelo menos muitos anos para se iniciarem reformas premente e urgentes. Esta é a condição mínima para que se vislumbre no horizonte uma perspectiva de mudanças, económicas e políticas em CV. Neste sentido, apela-se ao espírito cívico e patriótico dos cabo-verdianos para responderem presente à hora da Mudança, como aconteceu nos momentos cruciais da vida cabo-verdiana.
Nota 1: Cabo Verde está a crescer abaixo do valor limite de 2% que permitiria qualquer sustentabilidade económica (para quem não percebe nada de contas, é simples: um pequeno país, de economia emergente, anã (lilipútica) como CV, para se sustentar economicamente (para que a economia gere alguns milhões de dólares), e poder pagar juros, dívidas e investir na sua economia, tem que crescer sempre acima de 5-6%. Tudo o que ficar abaixo desta meta não interessa, pois caso contrário condena-se a endividar-se eternamente no Mercado de Capitais para pagar os encargos:  luxo dos países ricos e o pesadelo dos países pobre. Quem entra na espiral das dívidas para se manter de pé, dificilmente poderá sair da espiral do endividamento, acabando por sequer conseguir pagar os encargos da dívida. É tão simples como isso e este é um perigoso risco que o actual governo do PAICV impende sobre Cabo Verde, um país cuja política de investimento está exclusivamente centrada no betão e no alcatrão, sem aposta em sectores produtivos que garantam o crescimento económico. Se Cabo Verde não for capaz de se tornar economicamente e financeiramente sustentável, então corre um sério risco de se transformar num país inviável, no impiedoso mundo dos Mercados dos Capitais.
Nota 2: Para além do desacordo político com o PAICV, não interessa aos Regionalistas mais nenhum mandato deste Partido  na medida em que este já o teve tempo suficiente para organizar e liderar o processo de Regionalização em Cabo Verde. Ao contrário, fingiu abordar o tema, foi ganhando tempo e por fim organizou uma pseudo-cimeira (onde os principais interlocutores não foram convidados) com o único objectivo de não se debater nada, de falar de tudo, com excepção da substância

José Fortes Lopes

1 comentário:

  1. Caro Djô:
    Eu não comentei e nôs não comentamos.
    Nestas casos, sabes que estamos contigo.
    Não podemos ficar calados; falas por todos
    Força!!!

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