segunda-feira, 26 de outubro de 2015

[8590] - ERA UMA VEZ, ANGOLA...{55}


A acumulação de detritos que, a meio do rio tinha provocado a derrocada da ponte, desviara a força da corrente para as margens que, por sua  vez, levantavam algumas dificuldades pois, se do lado de cá  era relativamente plana, do lado oposto, o do nosso destino, constituía-se em ravina, pouco pronunciada, embora, mas encharcada pelas fortes bátegas de chuva... Os eficientes homens da engenharia militar haviam, entretanto, estendido alguns cabos de sisal, aos quais as pessoas se agarravam para vencer a inclinação do terreno recoberto daquela lama avermelhada, escorregadia como manteiga...
A nossa rota fazia-se numa diagonal ao rio, bastante pronunciada, centímetro a centímetro, pois a força da corrente era razoável e, apesar da improvisada jangada parecer resistente tal não evitou que, a escassos três a quatro metros da margem já tivessemos água até  aos tornozelos...
Transpirando por todos os poros o suor frio destilado pelo receio, dei comigo a rever cenas de filmes de aventuras vistos no Eden-Park, com jangadas descendo rios caudalosos  em violentos solavancos que acabavam por destruí-las atirando com os passageiros para as águas revoltas e pejadas de jacarés e piranhas que lutavam ferozmente para conquistar o melhor pedaço de inesperado banquete...Quando,  num impacto que nos teria derrubado se não estivessemos amarrados, me apercebi de que tínhamos alcançado a outra margem, senti uma paz súbita mas de curta duração pois à nossa frente erguia-se, desafiante, uma ravina escorregadia que iria provocar esforços acrescidos à meia-dúzia de passageiros extenuados pela dureza da última meia hora de renhida luta contra a força da corrente e contra o medo de um desenlace fatal, perfeitamente possível...
Só horas mais tarde, depois de alcançada terra firme e relativamente seca e engolida, sofregamente, uma caneca de café quente, tive a serenidade suficiente para me aperceber dos perigos evidentes a que tinha estado exposto...Passados todos estes anos, ainda sinto um friozinho na espinha
sempre que "revejo" estes acontecimentos mas me sinto grato pelo esforço, dedicação e eficiência daquele punhado de militares em cujas mãos, afinal, tínhamos depositado as nossas vidas...Sempre que os recordo deixo-me transportar para aquela tarde do ano de 1956 em que a calema, no porto da Praia, em Cabo Verde, me fizera vítima de um naufrágio de que acabei por ser salvo para poder contar a história...
Creio que devem ser muito boas as minhas relações com Poseidon!

(Continua)

2 comentários:

  1. Sempre interessante de ler, Zito, empolgando quem andou por essa África profunda. Mas faço um pequeno reparo. Como esta narrativa é publicada aos pedacinhos, quem, estranho a este blogue, aqui vier não consegue ligar ponta com ponta. Não seria conveniente uma breve introdução?

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  2. Olá, amigo Adriano...É claro que, através do "link" PESQUISAR NESTE BLOGUE, na faixa direita, se podem localizar todos os anteriores pedacinhos mas não retiro razão ao seu reparo...No próximo episódio vou ensaiar uma espécie de "resumo da matéria dada..."
    Abraço
    Zito

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