quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

[8736] - IN MEMORIAM!...

9 DE DEZEMBRO DE 1974

ZITO AZEVEDO

9 de dezembro
 Dia Nacional da Rádio
 Dia do Assalto à Rádio Barlavento

Vai ser comemorado este ano, pela primeira vez, o Dia Nacional da Rádio, em Cabo Verde. Segundo o jornalista Carlos Santos, é uma data instituída pelo Governo como reconhecimento do importante papel que a rádio teve no processo de consciencialização dos cabo-verdianos para a independência nacional e na construção de uma sociedade moderna. Nada mais falso afirmar que este dia jogou um papel no processo da 'independência nacional'. Já estava tudo consumado. O objectivo era intimidatório e foi o primeiro teste para a instalação do sistema de partido único. O PIAGC neste dia esfregou as mãos de ‘contenteza’. Tinham reduzido a oposição a cinzas.
Decididamente, não podemos parar com a nossa indignação, pois o dia 9 de dezembro é o famigerado dia do assalto à Rádio Barlavento ocorrido há 41 anos, um dia que foi de euforia revolucionária no Mindelo mas que acabaria por ser, décadas passadas, um dia de má memória para a ilha S. Vicente, que se vê hoje mergulhada num marasmo social, cultural e económico. Hoje, sabe-se que a mando do PIAGC, e com a caução e conivência da delegação local do MFA, foi assaltada a Rádio Barlavento, desmantelando-se uma rádio privada que irradiava e servia igualmente todo o arquipélago de Cabo Verde. Não faço aqui julgamentos de valor sobre o posicionamento político-ideológico dessa rádio antes e depois de 25 de Abril de 1974, um direito que lhes assistia.
A escolha da data é, por conseguinte, de muito mau gosto, e constitui mais um insulto aos valores que se inscrevem na memória de uma ilha que se orgulha de ser baluarte da democracia. Cabe perguntar se não se trata de mais uma tirada irreflectida por parte de quem ignora ou finge ignorar partes importantes da própria história de Cabo Verde, ou se não é mesmo uma deliberada tentativa de achincalhar mais ainda uma ilha que já esgotou os limites da indignação.
Convém sublinhar que nunca o PIAIGC dos combatentes da Guiné tinha ousado comemorar tal dia, nunca quebrou aquilo que se tornou tabú e talvez um assunto de discórdia e de divisão em S. Vicente. De resto, uma certa tentativa de reconciliação nos anos 80 do século passado entre os derrotados da oposição e os veteranos do PAIGC no poder, mostra por si só o reconhecimento do erro cometido em 1974, e tanto assim que atiraram as culpas dos  desacatos cometidos para os jovens radicalizados. 
Esta data divide. Para uns, é uma data que condicionou o evento mais importante para a Independência de Cabo Verde e o início da sua História. Para muitos, a tomada da Rádio Barlavento foi, no imaginário do povo do PAIGC, equivalente à tomada do Palácio do Inverno na Rússia em 1917, sem o que o trajecto de Cabo Verde seria diferente e  teríamos, com muita probabilidade, outra versão do 5 de Julho: a independência, mas  sem que nenhum partido assumisse o protagonismo hegemónico da história e o poder total.  Para outros, é uma data para esquecer, o maior tiro nos pés alguma vez dado pelos seus habitantes: desmantelar a sua própria rádio ou contribuir activamente para que tal aconteça. Pois, apesar de defenderem a Independência de Cabo Verde, reconhecem que, na realidade, coincide com o começo do calvário para a ilha de S. Vicente, traduzido na sua marginalização política e económica. É caso para dizer que a ilha apostou na Independência como se aposta na lotaria. Como se pagassem com ‘monnaie de singe’ o facto de terem derrubado a dita elite colonial para a substituírem pela elite do PAIGC. Terá valido a pena o assalto à Rádio Barlavento e o desmantelamento da sua congénere Rádio Clube  Mindelo? 
A tomada da Rádio Barlavento reveste, pois, na narrativa do PAIGC, o significado de um acto Criador, um marco simbólico na história de Cabo Verde: representa o fim do colonialismo e o início da revolução cabo-verdiana em que não teria lugar quem se opôs e se opunha ao regime que se considerava de essência genuinamente popular. Para os revolucionários, pelo menos os que ainda acreditam na pureza das revoluções, a Rádio Barlavento era um refúgio dos representantes do ‘ancien’ regime, aristocratas e anti-independentistas reaccionários (mas que na verdade discordavam da Unidade da Guiné e Cabo Verde e do facto do PAIGC pretender ser Luz e Guia do Povo), que deveriam ser varridos do panorama político e intelectual de Cabo Verde, para poder emergir um país novo. Mas o problema é mais complexo do que permite esta leitura simplista. Terá feito sentido silenciar vozes discordantes que incomodavam, silenciar a Radio Barlavento para calar os inimigos do povo e escorraçá-los para o mar só porque  pensavam diferentemente? 
Para já, ninguém hoje poderá defender o assalto a uma rádio ou uma propriedade privada numa situação de pluralismo, a qual fora caucionada pelo 25 de Abril e vigorou entre essa data e o 9 de Dezembro de 1974. Apesar de tudo, essas duas rádios eram o que havia na ilha e serviam para a confrontação de ideias em torno do projecto Cabo Verde. Dando de barato o facto de o evento ter contribuido para abrir a via para a Independência de Cabo Verde, a questão que se coloca é se o povo foi verdadeiramente ganhador. A única coisa que mudou é que a informação começou a ser directamente produzida a partir da casa do Ministro da Informação, ele mesmo mandado pelo partido. S. Vicente ficou, pois, privada de duas rádios que eram estruturantes do ponto de vista sociocultural. O roubo não foi tanto aos sócios do Grémio, mas ao povo da ilha de S. Vicente. Sem rádio e cultura, com a informação reduzida a propaganda ideológica e política, a ilha ficou sem peso e sem voz, com todas as consequências futuras advenientes. As duas rádios que serviam a ilha e todo o arquipélago foram absorvidas pela Rádio centralista, denominada nacional, ao serviço exclusivo do regime e sob a sua voz monocórdica. A informação e a cultura que eram produzidas in loco, passaram a ser controladas e produzidas pelo partido, a partir da Capital. Por conseguinte, o desmantelamento da Rádio Barlavento virou-se contra a própria ilha, ‘l’arroseur, arrosé’. Os mindelenses, privados das suas rádios, foram perdendo paulatinamente o poder de influenciarem o destino do país e o rumo dos acontecimentos em Cabo Verde, acabando por serem arredados progressivamente do poder efectivo. Hoje, os mindelenses pagam o serviço público da Rádio e  TCV, que  paradoxalmente não transmitem, por exemplo, jogos de carácter nacional que ocorrem na ilha, o que constitui uma velada censura e um atentado à igualdade de tratamento informativo, desfocando a perspectiva geral do país. 
Com a tomada da Radio Barlavento, foi suspenso o pluralismo que se iniciava em Abril de 1974. Tivesse vingado, emergiriam personalidades fortes e líderes com carisma para se oporem à hegemonia de um poder que se refugiou na centralidade política  e cavou assimetrias inaceitáveis no espaço nacional.
Este assunto merece uma análise e um debate aprofundado.

9 de Dezembro de 2015
José Fortes Lopes

5 comentários:

  1. - Cabo Verde Visto por Gilberto Freyre-Apontamentos de Baltazar Lopes, lidos ao microfone da Rádio Barlavento.

    Poesias de Jorge Barbosa

    Cartas de Lisboa -- Teixeira de Sousa

    Cronicas de José Lopes

    Poemas de Baltazar Lopes -- Comentados por Aurélio Gonçalves

    Roupa de PIPI....

    Nhã candinha Sena
    .
    E . T . C

    Crónicas mortas de morte matada!

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  2. DIA 9 DE DEZEMBRO DE 1974 O DIA EM QUE O POVO DE S. VICENTE COMEÇOU A DAR TIROS NO PÉ.
    FOI NESTE DIA EM QUE A RÁDIO BARLAVENTO COMEÇOU POR SE TRANFORMAR EM RÁDIO VOZ DE S.VICENTE E ACABOU POR DESAPARECER NA POEIRA DO TEMPO.
    O AMIGO ZITO DE AZEVEDO ESTE MINDELENSE ADOPTIVO MAS DE GEMA QUE FOI LOCUTOR NESTA RÁDIO E ESTAVA DE SERVIÇO NESTE FATÍDICO DIA ESTÁ SEMPRE DE LUTO NOS DIA 9/12 DE TODOS OS ANOS.
    MAIS TARDE TEVE QUE SAIR DA SUA TERRA ADOPTIVA , QUE NUNCA IMAGINARIA FAZER, POR IMPERATIVOS DA SUA PRÓPRIA SEGURANÇA EXPULSO MANU-MILITARI PIOR QUE UM CÃO.
    NÃO PODEMOS CULPAR O POVO DO MINDELO POR ESTA 'FORFAITURE' / MALFEITORIA. POIS CORRIA UM BOATO QUE ESTARIA EM CURSO UM GRANDE OPERAÇÃO CONTRA-REVOLUCIONÁRIA CONTRA S.VICENTE E A SUA RÁDIO E HAVERIA 'REACCIONÁRIOS' À SOLTA NA ILHA.
    O POVO ACOLHEU-SE À RÁDIO BARLAVENTO, E EU FAZIA PARTE
    E DESTE POVO HUMILDE, PARA SALVAR A 'RÁDIO 'BARLAVENTO'.
    ESTAVA NA REALIDADE EM CURSO UM GOLPE DE ESTADO COM A COLABORAÇÃO DO POVO MINDELENSE QUE IRIA MUDAR O RUMO DE CABO VERDDE.
    S.VICENTE JOGOU TODOS OS TRUNFOS E IRIA PERDER TUDO NUM DIA. PUDERA A PROMESSA ERA TANTA QUE NÃO SE PODIA DEIXAR ESCAPAR A OCASIÃO....
    HOJE TODOS CONHECEMOS A VERDADEIRA HISTÓRIA.....

    Ao amigo Zito de luto hoje e todos os dias 9 de Dezembro 'que Deus ptá na Cruz ', o jornalista (na altura amador) apanhado na confusão destes eventos pouco dignos para a nossa digna cidade, um sorry por eu ter estado ali nesta noite, mas graças a Deus nem adolescente ainda era !!!

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  3. Associo-me de alma inteira ao vosso luto, que o deverá ser de todos os mindelenses que, por ignorância ou ingenuidade, serviram de testa de ponte a uma mudança do destino cabo-verdiano que haveria de de ser fatal para a sua ilha, atirando-a para a sarjeta da história. Os mindelenses que têm consciência da realidade e não são estúpidos, sobretudo os que têm alguma culpa no cartório, devem hoje bater repetidamente com a cabeça na parede.
    O José pede desculpas por "ter estado ali nessa noite", quando nem adolescente era ainda. Reconheça-se-lhe a grandeza do gesto, mas obviamente que o José fez o que fez na altura a maioria da criançada perante algo de novo que acontecia e não percebiam o seu significado. No entanto, o José tem sido um incansável paladino em defesa da honra e dos legítimos direitos da sua ilha, sendo dos poucos que se posicionam na linha da frente da denúncia de desmandos e iniquidades que hoje deviam envergonhar os mindelenses.

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  4. Aproveito para assinalar a minha grande satisfação de ver a música de regresso a este blogue. Ainda por cima, é nossa música de boas festas, aquela que nos enche a alma até mais não.

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  5. Meu caro José, os jóvens que, nessa noite se embriagaram das promessas de gente mal intencionada, alguns dos quais eram "gente da casa" e outros que inteligentemente - ou não - se haviam socorrido de um certo mimetismo ideológico para sobreviverem sem mazelas de maior, foram vítimas do seu fervor nacionalista autêntico, embora pueril e deram-se de corpo e alma a uma Passargada que acabou por nunca os acolher... Nem faltaram membros das elites que nesse dia se dizia pretender descer dos seus poleiros para ocuparem os lugares dos desalojados da noite de 9 de Dezembro...Vocês foram, na maior parte, tão enganados e tão espoliados como os expulsos!
    Um abraço
    Zito

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