quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

[8744] - OS BALEEIROS CRIOULOS {2}...


DRAMAS DA PESCA DA BALEIA
Por
Eugénio Tavares

A Barca “ Katleen”
II

Uma bela manhã a barca Ketleen, tendo embarcado os arpoadores e marinheiros de que precisava, desfechou para sudoeste, para os grandes “bancos de baleias”.
Depois de longos dias de monótona e fastidiosa viagem, apareceram os primeiros cetáceos. Estava um dia claro, azulino; o nordeste soprava encrespando as ondas; e as baleias estendidas sobre o mar, semelhavam bojos de navios virados. Faziam repuxar, pela extensão tranquila, colunas d’água  como jactos projetados por chafarizes . Os baleotes, na inconsciência do perigo, brincavam em redor das mães dormitando em prancha sobre as águas azuis encrespadas com o alto-relevo das carneiradas que adelgaçavam, à distância, na medida que os horizontes se afastavam.
Quatro canoas foram logo lançadas à água. E em poucos minutos essas frágeis embarcações, elegantes e velozes, semelhando, à distância, a gaivotas de asas alvíssimas voando à flor do mar; é que, quando bem timonadas, rompem com todo o tempo, com os ventos mais fortes, e o mar mais cavado; em poucos minutos, as canoas, tripuladas por valentes marinheiros, lançavam-se no meio dos monstros marinhos e a caçada, vertiginosa, impressionante, trágica, às vezes, cheia de peripécias heroicas, de cenas de uma grandeza epopeica, começava. As canoas aproximavam-se primeiro, com precauções, arriando as velas, usando pás em vez de remos, cujo chapear na água espantaria a caça. Abicavam sobre os dorsos negros; o arpoador, à proa empenhando a ambas mãos o terrível ferro, arremessando-o, vê-o entrar no bojo formidável.
O “ boat head” comandava; a canoa recuava rapidamente evitando as formidáveis rabadas da baleia, que sentindo-se ferida, agitava-se violentamente, fazendo um sarilho terrível com a cauda, desaparecendo, logo, num mergulho. A esse tempo silva a proa da canoa, nos rodízios, o cabo fino mas resistente como aço.
Colheram-se já mastros e velas amarradas a meio do bote, da proa à popa; os remos foram já recolhidos. Os marinheiros conservam-se imóveis a meio dos bancos; à proa um, com um balde, molha constantemente a linha que silva na roldana.
Um momento, à distância ergue-se um jacto de água. A baleia vem à superfície, levanta-se agita-se e se lança numa fuga louca. O cabo fino, mas resistente como aço, leva três voltas no cepo da proa; já não assobia na pequena roldana; estica-se e arrasta a canoa numa fuga vertiginosa, cavando na água um sulco profundo em que a canoa desliza entre duas ribas líquidas fugitivas, numa irisação fosforescente. Às vezes essas corridas duram muitas horas; outras vezes, poucos minutos, conforme tiver sido a baleia mais ou menos profundamente ferida.
O “ boat-head” manda puxar a linha e, pouco a pouco, a canoa se aproxima do monstro. Até que ele entregando a longa esparrela ao trancador, passa à proa, levanta nas mãos a terrível espingarda explosiva, desfecha. A baleia ferida de morte, arremessa ao céu uma coluna de sangue, e morre. 
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-- “ Nesse dia, na canoa do segundo piloto, o trancador arremessa o ferro com precipitação, ferindo levemente; a baleia sacudiu e o arpão voou. Na do primeiro piloto uma fora já morta e rebocada para bordo. Na minha (eu era o terceiro piloto do navio) tinhamos morta outra. Como fosse de grandes dimensões eu fizera sinal pedindo me ajudassem no reboque.
“ Nesse momento, a canoa do primeiro piloto, depois de ter deixado amarrada à barca a baleia morta, largava de novo e se lançava em perseguição do formidável “bull”, desesperado, furioso, que tinha já sido arpoado pelo trancador do segundo piloto. Com o dorso contraído, semelhante a uma couraça de rinoceronte, o “bull” recebeu o dardo que resvalou e se afundou na água. O monstro agitou-se, fez levantar o mar em cachões, chapeou a cauda e partiu, como uma lança arremessada, contra o navio.
“ Contaram-me, depois, os rapazes que estavam a bordo, que o choque fora terrível. O cetáceo apanhou o navio muito abaixo da linha de água; e a barca, rudemente sacudida, estremeceu, como uma baleia ferida de morte". 
Continua

Nota: No ano de 1913, só à ilha Brava, aportaram cem baleeiros. Daqui se pode depreender  quão importante foi este tipo de  tráfego para Cabo Verde.

(Colab. A.Mendes)
  

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