segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

[8756] - OS BALEEIROS CRIOULOS - {3}


DRAMAS DA PESCA DA BALEIA
Por
EUGÉNIO TAVARES

A Barca “Katleen”
(Conclusão)

“ O capitão viu o sinal que eu tinha feito, e mandou virar de bordo para se aproximar. O oficial que saltou à proa para folgar as escotas, ao passar pela escotilha, viu que o navio se enchia de água. Correu à popa, avisou o capitão, que mandou logo içar bandeiras nos três mastros, que é o sinal dos grandes perigos, chamando todas as canoas para bordo.
Quando, vimos esse sinal, cortamos as linhas que prendiam as baleias mortas, e aproamos ao navio. Poucos minutos depois, não teríamos singrado um quarto de milha, vimos a barca inclinar-se para bombordo, erguer a popa e desaparecer. À distância divisámos o único bote que ficara a bordo, carregado com as vinte e uma pessoas e equipagem.
Anoitecia. Reunidas todas as canoas, o capitão nos disse que a barca fora posta no fundo por uma cabeçada de baleia que lhe arrombara algumas tábuas do costado. 
Chamou os oficiais a conselho; e ficou resolvido que, como estávamos a mil milhas ao sueste dos Antilhas, devíamos navegar para noroeste, afastando-nos o possível de dia, à descoberta de navios, e reunindo-nos ao escurecer para navegar, de noite, de conserva. A tripulação foi dividida, assim como um saco de bolacha e um pequeno barril de água, o que, só, tinha sido possível trazer.
O tempo estava bom; soprava uma leve brisa do nordeste. Na canoa do capitão, que ia mais avançada, eu via destacar-se a figura da mulher, senhora dotada de aquela coragem e sangue frio que é a linha da educação viril que os americanos dão às mulheres.
No dia seguinte de manhã debalde estendi a vista pelo mar; não se via uma só embarcação. Na imensidade tranquila, a brisa, amortecida, deixava de fazer florir em escuma as ondulações largas e azuladas. O sol rompeu vermelho e sequioso. Ao meio dia a calma absoluta fizera de completo adormecer o mar. 
Nove dias se passaram, num sofrimento que é impossível descrever. A fome e a sede tinham-nos derreado a mim e aos meus homens. Estávamos, talvez, condenados a morrer de sede, nessa casca de noz abandonada sobre as águas faiscantes, brilhando ao sol como a face de um espelho.
Naquela manhã formou-se um pequeno aguaceiro à proa. Os meus homens ergueram-se num impulso:
-- Chuva?
-- Talvez.
Mas o aguaceiro passou longe, a barlavento; apenas, na cauda, uma orvalhada fina, que fez arrepiar as águas azeitadas, humedecendo a vela. Os marinheiros corriam a língua pelo mastro ensebado, onde a chuvinha fina se rorejara em pequeninas gotas; ou humedeciam os lenços sobre a borda molhada, chupando-os depois. Pelo meio-dia outro aguaceiro se formou, também de popa.
Os horizontes subitamente se fecharam, negros, pesados. O sol, à proa, atufou-se, pálido, na água.
Antes que tivéssemos tempo de pôr nos rizes a pequena vela, o vento com chuva torrencial desfechada obliquamente de um céu pedrês, arrebatou a canoa violentamente e nos arrastou com velocidade terrível. Os meus homens precipitaram-se sobre uma celha que se enchera de água. Arranquei-os do perigo de beber de mais, e de descurar o governo da canoa.
Era uma fuga fantástica sobre a superfície lisa do mar, onde a violência do vento se arrastava não deixando que as ondas se erguessem.
Uma noite e um dia lutámos assim.
Na noite seguinte o mar cavou-se, o vento fixou-se de nordeste, e soprou com mais violência. E a canoa só com pequeno bolso de pano voava nas asas violentas da tempestade.
No dia seguinte, subitamente, na nossa frente, dentro da bruma cinzenta, surgia uma grande sombra negra. Era a ilha Dominica. Entrámos numa pequena enseada abrigada.
Fomos desembarcados em braços. No dia seguinte enviaram-nos a Rousseau; dias depois chegávamos à Antígua onde tomámos um paquete para New York.
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O mar, aqui, nesta pequena ilha, é o nosso pai e a nossa mãe. É o campo largo onde vamos colher o sustento das nossas casas, o futuro dos nossos filhos, e a tranquila felicidade das nossas mulheres. Sem o mar, a nossa miséria não teria “equiparência”. Dá-nos  a independência, dá-nos o pão, dá-nos a alegria. É verdade que às vezes apanha-nos o coração; quantos bravos marinheiros nos não tem levado o mar, que è a força do nosso coração?
Às vezes sofremos imenso; mas passada a tempestade, serenado o tempo, continuamos a nossa faina, lutando pela vida, tendo no horizonte longínquo visionado pelo nosso espirito, uma pequenina estrela, a esperança de regresso ao lar, a alegria de beijar velhos que amamos, mulheres que constituem a luz mais clara dos nossos lares de pobres!
O mar parece que se sente com direito de nos matar às vezes, porque, afinal, é ele quem dá vida sempre àqueles entes que adoramos…” 
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N.E. : São incontáveis os relatos de naufrágios de navios baleeiros, causa de muitas tragédias e sofrimentos. Os Cabo-verdianos, marinheiros intrépidos que viveram essa epopeia, bem que mereciam que, lá no cume do Porto da Furna lhes erguessem um memorial, como testemunho de perpétua gratidão.

(Colab. A.Mendes)

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