quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

[8767] - MORNAS CENTENÁRIAS - {03}

Além deste trabalho, o A.Mendes enviou-nos um desabafo de uma pessoa com quem tive o privilégio de privar, companheiro do Conjunto "Os Centauros" e de algumas aventuras musicais gravadas na Rádio Barlavento e que, infelizmente, foi furtado do nosso convívio muito antes do que sería legítimo esperar...Trata-se de Ângelo Lima que, embora afirme que não era músico foi, no entanto, um extraordinário executante, inclusive de viola eléctrica, no tal conjunto em que actuava com seu irmão Hermes (contra-baixo), Naldinho (piano) e Faia Torres (bateria), e a que eu dava, por vezes, alguma sonoridade vocal...
Mais do que uma vez falámos sobre o assunto desde escrito, e ambos concordávamos que os "tocadores" da época - nem todos, claro - se preocupavam mais em fazer-se ouvir do que em  colaborarem num todo melódico e harmónico, não retirando à morna aquela sonoridade aveludada e romântica que lhe é característica...
Com a minha admiração e a minha saudade, dou a palavra a Ângelo Lima:

A MORNA DETURPADA
Apontamento de ÂNGELO LIMA

A propósito de alguns programas de mornas que venho ouvindo através da rádio (música gravada e emissões directas), não pode resistir ao veemente desejo de me pronunciar acerca de interpretação que tão lamentavelmente lhes tem sido atribuída.
Começo por me referir, principalmente, ao ritmo exageradamente apressado com que os executantes têm alterado a suavidade da sua lenta cadência, para depois frisar o errado emprego de instrumentos impróprios à parte cantante (banjos, cavaquinho e outros similares) e acompanhamento inadequado (batimento forte nas cordas e variações constantes com sabor à batucada brasileira).
A morna, canção crioula de sentimento expressivo, foi, desde a sua adolescência, amoldada em princípios por que são regidas as chamadas músicas dolentes, género que melhor traz à luz da humanidade a expressão tão intima quão sentida de uma alma ao manifestar alegria ou tristeza.
Urge protege-la, conservando intactos as suas apreciáveis qualidades que dignamente e elegeram voz da alma cabo-verdeana.
Alterando o seu andamento, perde-se, em percentagem bastante elevada, o brilho fulgurante das suas sublimes melodias que, a qualquer ser humano em pleno uso das suas faculdades psíquicas, embala a alma e faz com que reviva, de forma aprazível, os melhores ou piores momentos de um passado às vezes longínquo…
Há mesmo algumas que chegam a ser executadas de maneira a confundirem-se com a marcha!
A morna, a genuína morna que a meu ver deve ser conservada, tem o seu andamento exclusivo e há que respeitar as cláusulas da sua original, remota e definitiva formação.
Interpretá-la servindo-se do violão – banjo ou cavaquinho - dá lugar a que certas notas que deveriam ser prolongadas, sejam mantidas com a sua própria repetição para se conseguir preencher o valor da figura, porque qualquer desses instrumentos não é dotado de vibração suficiente para conservar a nota em pé. Isto impressiona desagradàvelmente a nossa sensibilidade e não corresponde aos preceitos da sua composição artística; logo passa a ser uma deturpação contra a qual alguns autores têm protestado. 
O acompanhamento de violão seria mais acertado se variasse nos intervalos da música, nas mudanças dos tons e o menos possível. Os nossos tocadores, principalmente quando se trata de dois violões, têm a preocupação de se fazerem destacar individualmente, não pugnando pelo conjunto, o que origina um amontoado de incompreensíveis variações. Este factor torna fastidiosas as condições de audição e não permite ao violino, instrumento que melhor se adapta ao género de música no qual a morna se acha enquadrada, marcar o ponto desejado.
Não pretendo dar aqui lições – longe de mim semelhante intento – porque infelizmente não sou músico nem mesmo passo de um simples apaixonado da morna, em particular, e da música em geral.
O meu propósito é somente chamar à realidade os nossos músicos para que, ao lançarem para o ar o nosso tradicional hino, a norma, se lembrem de que ele vai ser julgado por quantos o oiçam e é triste e é até certo ponto desoladora a forma como os rádio-ouvintes aceitam um programa de mornas-batuque, não lhe rendendo assim a homenagem a que tem jus. É, pois, de urgente necessidade melhorar as precárias condições em que a nossa querida morna está sendo radiodifundida.
Tudo isto a propósito de alguns programas de mornas que venho ouvindo através da rádio (música gravada e emissões directas)
S. Vicente, Janeiro de 1955

2 comentários:

  1. Nunca tive o privilégio de ouvir os irmãos Lima mas sabia das suas competências musicais cujo sentimento vinha da raiz, da terra da Morna, Boavista.
    Do que diz o autor do artigo pude notar pois, mesmo sem ter uma cultura musical, pude interferir nos ensaios que dirigia, relativos à encenação dos espectàculos do Conjunto Cénico Castilho. Atenção tinha de ter sobretudo depois de ter recebido do Maestro Jacinto Estrela as mornas por ele musicadas com versos de Gabriel Mariano.
    E nunca esqueci esse momento em que, concentrado, saiu o seu metrónomo, indicando-nos as cadências, e com o seu bandolim nos interpretou "Mudjer Bunita" e "Esse qu'ê nha terra" (Não me vem o titulo agora).
    Antes ouvia (ou dançava) nas mornas interpretadas por Muchim de Monte e Manê Querena, violinos, Lela de Maninha e Luluzim, cavaquinhos, sem falar das composições de B.Leza (que nunca ouvi ao vivo) e do Sr. Luiz Rendall que me "reteve" uma tarde inteira num lugar insólito que não menciono aqui por ser outra estória.
    Concordo que se defenda a MORNA com unhas e dentes. Cada melodia com seu ritmo.

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  2. Apreciei a leitura dos dois textos, o do Zito e o do Ângelo Lima. Como sou apenas um apreciador da morna, sem qualquer conhecimento musical, foi-me particularmente útil a exposição do Ângelo Lima, que se reporta a uma data muito recuada (ano de 1955). Gostaria de saber o que ele pensava da morna na actualidade.

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