segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

[8790] - CRÓNICAS DA RÁDIO BARLAVENTO...

Alguns Poemas
de Baltasar Lopes
pelo Dr. António Aurélio Gonçalves

O comentário brevíssimo para servir de introdução a uma pequena colectânea de poemas de Baltasar Lopes, que serão lidos por Guilherme Chantre, e que foi escrito a convite do poeta Jorge Barbosa, dar-me-á a matéria para a crónica de hoje. A colectânea que vai ser escutada, felizmente, dá-nos uma ideia exacta da arte do seu autor. Pela sua originalidade, pela sua profundeza, pela sua beleza e pelos estéticos que a sua leitura levanta, estes poemas estão naturalmente destinados a um público educado no amor e na compreensão da poesia. São versos para serem meditados. A sua linguagem, o seu fundo de ideias e de sentimentos fá-los bem diferentes daquela poesia a que está acostumada a maioria dos poucos leitores que ainda se interessam por versos. Creio que a sua apresentação pela rádio não favorece  a meditação que exigem. Mas isto, no fim de contas, constitui mais um motivo para que o ouvinte os escute com redobrada atenção.  
Uma qualidade salta ao espírito, logo se toma conhecimento desta poesia: é a sua intensidade de impressão, que nos fica à primeira leitura, de um poder de exprimir que já nos toca e impressiona pela força de choque de um jorro de água apanhado junto à nascente, quando o pensamento que enforma o poema ainda se não nos revelou claramente. Para muitos, quando se atinge este ideal de expressão fortemente e intensamente poética, já se criou a feição primacial da autêntica poesia. Era Mallarmé que ensinava a Degas que a poesia se faz com palavras e não com ideias.
Não nos deixemos vencer pela tentação de discutir e falemos agora de intensidade das ideias ou dos sentimentos, para a qual nos encaminha irresistivelmente, aliás, o primeiro aspecto já referido, pois que é raro que uma coisa vá sem a outra. “Poesia é o desenvolvimento de uma interjeição”. Assim falou Paul Valéry e quer-me parecer que nesta frase encontramos uma definição que se ajusta com singular felicidade à poesia de Baltasar Lopes. Um estado emotivo simples, um grito que eleva e se prolonga. Por via de regra, quando um poeta escreve, produz-se em nós a convicção de que há uma mudança de plano quando se passa da sua vida para a poesia. Aqui fica-nos a sensação diferente: a de que existe uma identificação entre a vida e a poesia, a sensação de uma poesia que foi captada junto à origem, logo no seu primeiro surto, e que conservou o vigor, a intensidade do seu primeiro instante. 
Para completar este brevíssimo esquisso, refiro-me agora a um aspecto, ainda em suspenso, mas no qual já o ouvinte arguto teria pensado. Qual, então, o aglomerado de sentimentos que se deposita e se exprime na poesia de Baltasar Lopes? Á medida que esta poesia se vai compondo e nos seus melhores momentos, vai-se organizando um grupo de ideias e de emoções, dispostas em torno de uma preocupação principal., que vem a ser o sentimento de fraternidade entre os homens. Escutem estres três versos simples e belos, tirados do poema que tem por titulo “Só":

“… Ninguém sabe a paz que eu sinto
em ter este orgulho de andar sem ninguém
e com todos e em tudo…”

E mais estes, respigados do poema “Capitão das Ilhas”:

“… Fui ao seu enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão
pela riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
(Quem sabe se a poesia não será, afinal, agente
                                 libertar-se das dimensões…)
e pela sua incorporação no veleiro em que todos 
                                                            navegamos…."

Última arcada e último exemplo, acrescentamos, estes, colhidos em “Família”:

“… Fui seu irmão e tive pejo de lhe confessar
que a mesma penumbra contornava
as nossas duas sombras fatigadas
desta caminhada sem itinerário…”

Com toda a certeza, ouvinte caboverdeano que não nos negaste hoje a tua atenção, que a beleza formal destes versos não te escapou. Em todos se manifestam dois sentimentos, aparentemente, antinómicos, mas igualmente fortes, coexistindo e acabando por irmanar-se e por se completar: o orgulho da solidão, adoptada como defesa de um e cuja riqueza, para se conservar, se deve conservar, se deve manter secreto, a humildade de se sentir um homem entre os homens, de compartilhar de todos os aspectos da humanidade, de andar com todos e em tudo, de se incorporar no veleiro em que todos navegamos, de ser uma sombra fatigada ao lado de outra sombra nesta caminhada sem itinerário. O todo que deriva da íntima conjugação destes dois sentimentos – eis a matriz de onde emanam e que transmite a sua tonalidade a todos os sentimentos cantados por Baltasar Lopes na sua poesia.
Mindelo, 11 de Agosto de 1955                                                                                                                                         (Continua)

Do programa “ Miradouro”, apresentado semanalmente aos microfones da Rádio Barlavento, em S. Vicente.

(Recolha de A.Mendes)


5 comentários:

  1. CRÓNICAS DA RÁDIO BARLAVENTO...UMA PRENDA DO NATAL DE ZITO AZEVEDO UM DOS STARS DA RÁDIO BARLAVENTO QUE TEM MUITA COISA NO BAÚ.
    RECORDE-SE QUE ZITO FOI CORRIDO DE CABO VERDE A CHUTO PELO PAIGC em1974 É UMA PROVA VIVA DA INTOLERÂNCIA POLÍTICA É UMA PESSOA QUE PODERIA TESTEMUNHAR CASO FOSSE ABERTO UM JULGAMENTO AOS ABUSOS COMETIDOS DE 1974 A 1977 QUE ENLUTARAM S. vICENTE, INCLUINDO O ASSALTO À RADIO BARLAVENTO.

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  2. "Ninguém sabe a paz que eu sinto
    em ter este orgulho de andar sem ninguém
    e com todos e em tudo…"
    Que a paz seja nossa companhia em 2016. Beijo a todos com carinho e fraternidade.

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    1. Uma parte importante da minha formação literária deve-se ao homem que escreveu estes versos...Uma vez, enviou-me obras de Molière, na língua original, imagine-se, que ele dominava como se fosse a sua...Foi meu professor... Conhecí-o durante muitos anos e nunca conseguiu chamar-me Zito: smpre me tratou por Zico! Levou o segredo com ele, quando gerações choraram a sua morte!
      Que a Paz ilumine todas as veredas da sua da minhada!
      Bjs.
      Zico!!!

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    2. QUIS ESCREVER "CAMINHADA", saíu "da minhada"...I'm sorry!

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  3. Quando Aurélio Gonçalves leu este "esquisso" aos microfones da Rádio Barlavento, eu era ainda um petiz de 11 anos. Mesmo que eu tivesse ouvido, não teria percebido patavina. Na altura eu andava na admissão aos liceus a consolidar os conhecimentos da gramática da língua pátria às mãos do Alfredo Brito.
    Mais tarde, no liceu, nunca tive a percepção de que Baltasar Lopes fosse um homem de letras de alta estirpe, pois o ensino naquela altura seguia os estereótipos do livro único e da estandardização do pensamento oficial. Se calhar seria um sacrilégio explicar aos rapazes e às raparigas que, enquanto se debruçavam na carteira sobre um João de Deus, um Cesário Verde, um Gomes Leal ou um António Nobre, tinham um poeta de carne e osso no seu característico vaivém entre as carteiras, como era seu hábito. Um poeta com um estofo cultural pouco comum. Também o Aurélio Gonçalves era um intelectual de se lhe tirar o chapéu, como se pode ver pela qualidade deste texto.
    Não tenho qualquer constrangimento em confessar que não aprendi grande coisa no liceu, por culpa própria mas também pela metodologia de ensino então dominante. Como só tive português até ao quinto ano, tenho a noção de que teria beneficiado muito com o ensino da língua nos anos complementares e com mestres da estatura de Baltasar, Aurélio e até Antero Simões, este muito mais jovem. Como assim não aconteceu, tive de apreender por conta própria pela vida fora (e a aprendizagem é contínua), mas com a constatação de que o Alfredo Brito (nem sei que formação tinha) e o Baltasar Lopes foram mestres que me preencheram as medidas. E que jamais esquecerei.
    Volta e meia, leio os poemas do Baltasar.
    Dou os meus parabéns ao Artur Mendes por esta pesquisa.

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