quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

[8804] - CRÓNICAS DA RÁDIO BARLAVENTO...


Do Progarama "Miradouro", poesia de Baltasar Lopes da Silva (Nhô Baltass), apresentada por António Aurélio Gonçalves (Nhô Roque)...

  : Isola-te, impregna-te da paz que trás o orgulho de andar sem ninguém, se queres possuir em ti a força e o poder de sanar todas as fraquezas, sem que aqueles que tu salvas conheçam a mão que lhes leva o bálsamo ou de onde vem a esperança da sombra amiga que lhes é oferecida…

“ Bem sei que ninguém conhece os meus caminhos. 
Ninguém sabe a paz que eu sinto
em ter este orgulho de andar sem ninguém
e com todos e em  tudo:
ninguém bata à minha porta,
eu é que baterei à porta dos outros…
Na estrada sou o médico para todos os desmaios,
mas ninguém conhece a mão que lhe leva o bálsamo, 
e de onde vem a esperança desta sombra amiga. 
Silenciosamente só, no meio dos meus companheiros emudecidos,
dos epitáfios dos camaradas mortos vou extraindo
letreiros sem palavras para os que hão-de vir, 
que são todos os que nasceram e vejo
em toda a extensão da minha estrada.
E eu te agradeço, oh pequena voz humilde,
que me ensinaste a virtude de saber renunciar às aristocracias que vêm nos livros de linguagens
e nunca consentistes  que quem quer que seja
afaste a minha sombra do meu corpo”.

Faminto: - Um homem recebe uma esmola. Mas aquela que o arrancaria à sua solidão de faminto que se sente expulso pela desgraça da sociedade dos homens – a certeza de haver alguém que comparticipa do seu destino e lhe ensina o caminho para ele se libertar da sua condenação – essa é-lhe negada…
“Ele chegou à minha porta;
e seus olhos não tinham brilho,
bem certo que eles não poderiam mais colaborar na maravilha da vida.
As suas mãos já não tinham aquele jeito potente de quem vai criar.
Ele não vinha para me matar, 
trazia apenas o modo pedinte de quem quer viver mais um dia, 
mas tive medo da palavra que sairia da sua boca. 
Ele vinha nu, dei-lhe os restos de uma manta velha
para se cobrir do frio.
Dei roupa para o seu corpo,
dei pão para a sua fome. 
Fui seu irmão e tive pejo de lhe confessar 
que a mesma penumbra contornava
as nossas duas sombras fatigadas
desta caminhada sem itinerário.
Eu devia ter chamado, para todos ouvirem, que ele era o desterrado,
e ensinar-lhe o caminho para ele se libertar da sua renúncia.
Nada disso. 
O que fiz foi somente dar-lhe a moeda das grandes traições.
No sangue ficou para sempre o travo desta culpa”

Capitão das Ilhas: - Será apenas a saudade, o desespero de uma vida aniquilada, a homenagem prestada à morte pelos vivos apavorados, os únicos motivos que nos empurram a acompanhar ao cemitério um amigo “que puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro”, quando falava connosco? Quem sabe? Às vezes pode ser a admiração por aquele que aceitou corajosamente o seu destino humano de entrar na morte, ou, por outra, no veleiro que todos navegamos…

“Morreu o capitão de um navio das ilhas.
Não foi porque ele era bom
e puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro
quando falava comigo
que fui ao seu enterro.
Nem tão pouco porque conheci,
entre flores e caída de branco,
o único poema que ele escreveu nesta vida.
Fui ao seu enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão
pela riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
(Quem sabe se a Poesia não será, afinal, a gente libertar-se 
                                                                      das dimensões)…
E pela sua incorporação no veleiro em que todos navegamos.
Meu velho amigo meu poeta morto”!


Solilóquio:- É certo que a vida quebra passos que teriam a magia de mãos de demiurgo criando um destino. Depois do desastre, é a noite, o escuro em que novos planos ou novos gestos se tornam impossíveis. Não importa; a treva é, por vezes, morte puramente aparente. Sem sabermos, é nela que a alma se tempera e adquire a qualidade, cuja posse deve ser a suprema ambição dos homens…

"É verdade que a Vida te prendeu nas suas mãos
e conteve o passo que ias dar.
É verdade que assim foi
e que nenhuma lâmpada  ilumina o esforço que se segue. 
(Orgulho de andar!
Só serve para baralhar a água lenta em que se desagua a Sabedoria)!
Chama todos os sábios do princípio do mundo
para te ensinarem a química dos teus passos.
Mesmo assim,
continuarás a mesma vela atirada aos ventos do Canal.
Mas que venham eles!
Levam-te, embora, para onde quiseres…
Viajarás de praia em praia, 
e nas tuas mãos a riqueza terá um esplendor de aurora, 
porque nunca se sabe quando é que Deus é nosso amigo.
Tens de dar passos inumeráveis para que os Seus desígnios se realizem,
e dêm à tua alma a qualidade de nunca suspeitaste…"

Mindelo, 11 de Agosto de 1955

(Pesquisa de A.Mendes)


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