quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

[8878] - "SANTA" FERNANDA...

Fernanda Feijoó Andrade nasceu na Brava, há já muitos anos e faleceu, também há muitos anos, em S. Vicente, com a linda idade de 75 anos, mas muito mais cedo do que aquilo que todos quantos a conheceram poderiam desejar. Ainda hoje estou convencido de que Ti Nanda se deixou, simplesmente, morrer, de saudade e dor pelo falecimento do marido, Clarimundo, que toda a gente conhecia como Mestre Polú.
Nascida no seio de uma família numerosa, tradicionalista, patriarcal e temente a Deus, Ti Nanda foi, sempre, a imagem da serenidade, da bondade espontânea, com um coração em que todos e cada um tinham lugar. Era tia e segunda mãe de minha mulher e, nos muitos anos que tive o privilégio de conviver com ela, nunca vi Ti Nanda mal humorada...Por vezes, triste, sim mas truculenta, zangada, ofensiva, nunca por nunca: ela vivia envolta numa aura de contenção quase mística, em que apenas a ansiedade, por vezes, lhe transmitia um estado de preocupação de enorme densidade, quando a saúde de alguém da família se presumia ameaçada, ou alguém do seu conhecimento passava necessidades que ela logo tentava minorar... Tia Nanda vivia mais para os outros do que para si própria!
Alimentava-se para viver, autenticamente, e o seu cardápio para consumo próprio era simples, repetitivo, sem preciosismos de confecção ou de aparência... Para os outros, no entanto, esmerava-se até à quinta essência e cozinhava divinamente. Não gostava de coelho: dizia que parecia lhe um gato, animal que ela adorava. No entanto, criava coelhos porque o marido, a sobrinha e eu próprio, apreciávamos o petisco, que ela preparava com requinte para nosso deleite...e sua repulsa dissimulada!
Permanentemente preocupada com tudo o que pudesse mexer com o equilíbrio das vidas das pessoas que lhe eram queridas - e que eu ouso dizer que eram tantas quantas as que ela conhecia - Ti Nanda era, se ele existe, o exemplo acabado do Anjo da Guarda... Só que ela não sabia pois, Ti Nanda não se fazia assim, Ti Nanda era assim!
Quando, exausta, nos deixou, abriu em nós um vazio que jamais se preencherá e uma saudade misto de gratidão e ausência mas, também nos legou o conforto de termos sido bafejados com a benesse de ter convivido com uma Santa humana.
Estas palavras, que difundo para conhecimento de tanta gente que não conheço pretendem, precisamente, fazer passar um pouco da minha emoção e de uma visão pouco explorada deste nosso mundo - a visão de que, afinal, os Santos existem mas nem todos têm, infelizmente, a felicidade de os conhecer!

N.E. - Este texto foi, antes, publicado a 9 de Setembro de 2009 no Arrozcatum...Hoje, numa conversa de ocasião com a Maiúca, veio à baila a Ti Nanda, essa Senhora com quem partilhámos, há muitos anos, alguns dos melhores momentos das nossas vidas em comum...E, claro, as saudades saltaram, lá das profundezas da nossa memória afectiva, inundando-nos a mente e marejando-nos os olhos... E lá voltei atrás no blogue e li, e reli o que sobre a Ti Nanda tinha escrito há cerca de sete anos...É com a mesma intenção de então que repito o texto que me provocou uma estranha paz interior e renovou a minha convicção de que a vida vale sempre a pena ser vivida principalmente, quando nela existem Ti Nandas...Cuidem bem das vossas, por favor!

3 comentários:

  1. Neste mundo onde os mexericos correm mais célere do que os actos de bravura, dá gosto ouvir o BEM de pessoas que marcaram as nossas existências. Sejam elas parentes, aderentes, afins ou mesmo ilustres desconhecidos.
    Sentímo-nos ainda mais felicidade quando se trata de alguém que tenha proporcionado momentos marcantes da nossa vida ou a de pessoa que nos é querida.
    Louvo a tua ideia de, mais uma vez, homenagear a saudosa Tia que foi fisicamente mas deixou enraizada lembrança no vosso coração.

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  2. Intervenho um pouco tarde, mas ainda a tempo de acompanhar o Zito nesta doce e sentida evocação. Apesar das maldades que por aí proliferam, de facto há criaturas que passam por este mundo e deixam o rasto indelével da sua humanidade, que para a Igreja é isso mesmo, santidade.

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  3. Bonita e comovente evocação à "nossa TiNanda"!

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