sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

[8907] - CONTOS SINGELOS...{5}


CONTOS SINGELOS
Por
GUILHERME DA CUNHA DANTAS
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Eu estava com muito sono… parece-me que… antes de encher a colherzinha… deitei mais dormideira no copo.
O médico saltou um grito espantoso.
-- Desgraçado! Exclamou o médico, mataste-lo!
Eu?!  Mateio-o… O capitão tão meu amigo!...
E a pobre criança caiu semi-morta nos braços do pai.
O infeliz marinheiro sentia a alma trespassada da mais pungente angustia, por ver que fora o filho a causa, ainda que inocente, de tão desastroso acontecimento – Pois provado estava que o haver Rodolfo subministrado opio em demasia ao brasileiro, fora a causa do seu sono se prolongar eternamente.
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NA ILHA BRAVA
Quatro dias depois do infausto acontecimento que acabamos de narrar. A “Carolina” reentrara no pequeno porto da Furna.
O seu vogar parecia mais vagaroso e triste. No topo do mastro da popa tremulava funebremente uma bandeira preta. Nas vergas não se via um só marinheiro saudando alegre a terra natal, e os amigos que de braços abertos os esperavam.
Depois do navio lançar ferro e haver sido visitado pelo escaler da alfandega, fez-se participar o óbito de António Pedro às autoridades competentes, para que do caso fossem tomar nota e lavrar o respectivo auto, e igualmente se mandou aviso à família do finado.
António Pedro, ao partir da terra onde deixara as suas mais caras afeições, quis também deixar nela um peito amigo a quem pudesse confiar e que protegesse e consolasse estes entes queridos durante a sua ausência.
Esse amigo era João Gay.
Como o dia em que brasileiro recebera a funesta carta do seu tio, a sua família se achava reunida; porém à cabeceira da mesa via-se vago um lugar. Era o dele.
E Júlia, triste e abatida, conversava com João Gay sobre a viagem de seu marido, deixando entrever mil receios e presságios funestos, que João Gay não conseguia dissipar.
De repente, entrou na sala um homem trajando de preto, o qual logo à primeira vista se conhecia ser marinheiro.~
Júlia e Gay levantaram-se ao mesmo tempo, como se fossem movidos por uma mola. Acabando de reconhecer naquele homem que trajava de luto um marinheiro da “ Carolina”.
Que há de novo, Pancrácio – perguntou João Gay, com voz trémula.
Ao cumprimentar a infeliz esposa do seu defunto capitão, duas grossas lágrimas se escaparam dos olhos do marinheiro rolando-lhe pelas faces tostadas.
Meu marido!... meu marido… bradou a pobre senhora.
Morreu!... soluçou Pancrácio.
Como se de um raio tivesse fulminado D. Júlia caiu redondamente no pavimento, dando um grito sufocado. Transportaram-na inanimada para cima dum leito. Os mais assíduos cuidados conseguiram reanimá-la. Porém a infeliz só teve tempo para depor na fronte do filho um ósculo ardente. Longo e apaixonado, um ósculo de mãe, o derradeiro. E nos seus braços, sentindo o rosto orvalhado das suas lágrimas, deu a alma ao Criador!
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Pobre José Pedro! Tão moço, e já tão infeliz! Este órfão, só no mundo!... Quem te guiará no mar proceloso da vida? Quem livrará tua frágil mocidade de encalhar nos escolhos terríveis e imensos das paixões?
Quem? …. Ainda te resta um amigo, um segundo pai – João Gay a quem tua mãe te confiou na sua hora derradeira.
Quanto ao infeliz Rodolfo, que poderia a justiça fazer contra uma pobre criança, que não teve consciência do mal que fez.
Porém seu pai, oprimido de dor por haver, embora indiretamente, levado a desgraça ao seio de uma família quem devia tantos e repetidos benefícios, entendeu que se devia impor, e a seu filho, a pena dolorosa de não tornar a aparecer na ilha, enquanto nela durasse a memória de tão infausto sucesso.
Alistou-se com seu filho num navio mercante inglês que se achava no porto, e pouco dias depois afastaram-se. Talvez para sempre, da terra natal.
O tio de António Pedro morreu sem ter a consolação de o abraçar, instituindo-o seu universal herdeiro.
Triplico luto para o desditoso adolescente!

SEGUNDA PARTE

Júlia
Vinte anos depois
Vinte são decorridos depois dos acontecimentos da primeira parte desta VERIDICA história

Voz de Cabo verde- 1912

Pesquisa de A. Mendes                                                     
                                                                                       Continua...

N.E. - Gostaríamos de notar que estes contos são da autoria de um dos mais antigos escritores de Cabo Verde... Por motivos evidentes, não foram feitas quaisquer actualizações da linguagem utilizada pelo autor.


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2 comentários:

  1. É exactamente por ser uma obra antiga e pouco conhecida, que venho lendo estes episódios. Aguardemos pela continuação, esperando que a morte do capitão tenha sido o episódio mais infausto.

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  2. Como o seu nome indica: contos singelos. Graças ao Arrozcatum e ao Praia de Bote, nem só de política vivemos mas também de ficção.

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