terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

[8939] - CONTOS SINGELOS - {6}

Rua Direita - Nova Sintra - Brava - Cabo Verde
Contos Singelos
Guilherme da Cunha Dantas

“SCENAS DA ILHA BRAVA”
Segunda parte
JÚLIA
_________
Vinte anos depois...
De então para cá importantes mudanças tiveram lugar na vida do nosso herói, as quais cumpre-nos não esquecer.
Guiado n bom caminho pela solicitude paternal do João Gay, seu tutor e amigo, José Pedro tornou-se um mancebo varonil de esmerada educação.
 Saindo da escola aos quinze anos, entendeu que não devia esbanjar no ócio e em falsos deleites as imensas riquezas que de seu pai herdara, nem votar ao ostracismo os importantes conhecimentos que adquirira, as noções de honra, trabalho e caridade que recebera de seu pai, seu mestre e seu tutor.
Bem abonado pelo seu comportamento exemplar atestado pelas principais pessoas da terra que sabiam apreciar os dotes raros do mancebo, José Pedro alcançou um lugar de escrevente nas repartições da Alfandega da Ilha Brava. E como árvore também cultivada devia dar bons frutos, aos vinte anos era ele um distinto amanuense, honrado de seus superiores que lhe tributavam grande deferência, estimado e respeitado dos seus iguais e inferiores.
Então resolveu o mancebo dar o primeiro passo para a realização do mais ardente voto da sua vida.
Dotado de uma alma terna e sensível, acessível a todos os bons sentimentos, José Pedro amava. Amava com paixão sincera e pura dos vinte anos, do primeiro amor.
Chamava-se Elvira o objecto dos seus castos amores. O pai da donzela era o superior do moço amanuense, o director da Alfandega.
Feitos um para o outro, o pai de Elvira entendeu que devia unir estes dois corações pelos sagrados laços do himineu. E três semanas depois pedida a seu chefe a mão de sua filha, José Pedro, conduzia sua noiva aos pés do altar, e com o coração transbordando do mais inefável jubilo e amor, jurava fazer a felicidade daquela a quem estremecia mais do que à própria vida.
Desta sagrada união resultou um fruto, o complemento da felicidade dos dois esposos. José Pedro foi pai de uma encantadora menina, a qual quis que se chamasse Júlia, em memória de sua sempre chorada mãe.
Neste meio tempo teve José Pedro a desdita de perder o seu pai, João Gay.
JÚLIA - Como era bela aos quinze anos a filha de José Pedro! 
Seu belo rosto levemente moreno, dum aveludado igual ao do pêssego, era emoldurado por uns cabelos pretos, compridos e acetinados, que se lhe espalhavam pelas costas, de contorno admirável, em tranças opulentas e lustrosas como azeviche. Seu corpo donairoso, alto e flexível como a palmeira, parecia não se poder suster sobre uns pezinhos encantadores escondidos nuns sapatinhos de criança. E seus olhos negros e rasgados, de uma expressão indefinível que assombreados por bem desenhadas pestanas, lançavam às vezes daqueles reflexos que são o espelho da alma e a sua voz, que falam mudez, e parecem dizer ao imprudente que se atreve a fitá-los, a palavra mágica – amor! 
Mas o amor ainda não fizera palpitar aquele juvenil coração. – Quantos corações porém não palpitavam já por ela, tímidos e receosos?
Entre os mancebos, alguns dos quais bem distintos, que requestavam a formosa filha de José Pedro, fazia-se notar um certo prodigo libertino, temido e odiado de todos, mas procurado e respeitado pelo ouro.
Este ouro e encantos naturais da sua pessoa haviam feito decair muitos anjos, correr muitas lágrimas. 
José Pedro, que não ignorava os precedentes do mancebo, de quem até se contavam crimes inauditos, vigiava a filha com a solicitude com que um bom pastor guarda a ovelhinha querida que teme ver cair nas garras de lobo voraz. 
A casa de Ricardo Galvão era contígua à de José Pedro na mencionada povoação de “Santa Ana”.
Apesar desta circunstância, e das arrojadas pertinácias do mancebo nas poucas ocasiões em que via Júlia, jamais lhe pudera surpreender uma palavra, um olhar, um gesto sequer.
Todavia, as dificuldades, e resistências não fizeram maias do que irritar a sensibilidade pouco delicada do mancebo; e o sentimento inteiramente sensual que dantes experimentara pela filha do José Pedro. Foi- se convertendo pouco a pouco em amor – se este sentimento casto e puro pode penetrar num coração corrompido pelo vício das paixões. O amor que o libertino Galvão experimentava pela angélica Júlia era  um amor profano, por assim dizer, desesperado, furioso, insensato.
Pedido em casamento – Estavam as coisas neste ponto, quando certo dia anunciaram a José Pedro a visita do seu vizinho Ricardo Galvão.
O honrado pai de Júlia não deixou de estremecer pensando no que motivara aquela visita inesperada e fora de comum nos hábitos de seu vizinho.
Disse que o introduzissem na sala, onde logo o foi receber.

In: Voz de Cabo Verde 1912                                                                       Continua...
(Pesquisa de A. Mendes)



   
  

1 comentário:

  1. Sublinho a descrição da beleza da jovem Júlia. Literariamente soberbo.

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