sexta-feira, 4 de março de 2016

[8976] - EDEN - PARK ...86 ANOS DEPOIS!


A 15 de Março de 1990, o Eden-Park completava 50 anos... Uma linda idade que, infelizmente, é capaz de não chegar aos 100!
Mas, a 15 deste mês, passar-se-á o 86º aniversário do desabrochar deste sonho de César Marques, que funcionava já desde 1922 e o futuro não se apresenta promissor na defesa deste marco histórico da vida social do Mindelo, silenciado há mais tempo do que o bom senso e o sentido de defesa do património poderiam alguma vez permitir que acontecesse...Mas, o laxismo das autoridades competentes, por um lado, e a inércia da sociedade civil, por outro, acabaram por levar a uma situação que todos lamentam mas ninguém resolve...
Por isso, achamos importante regressar ao passado e, nas palavras de Maria Luiza Marques da Silva, saber um pouco mais desse sonhador que, afinal, não se limitava a sonhar...

«ooOoo»


César Marques da Silva, nasceu a 5 de Outubro de 1894, na Ilha de S Nicolau e faleceu em Lisboa a 16/7/1947, para onde se deslocara, doente, em busca de tratamento.
Era casado com a D Francisca Honorata Soares Medina Marques da Silva, natural da Ilha de St° Antão.
Tiveram quatro filhos: Luís Filipe M da Silva, José Lopes M da Silva (já falecidos), António M. da Silva, residente nos E U A, e Manuel M da Silva, actualmente residente em Lisboa.
César Marques da Silva era um individuo empreendedor, nasceu e criou-se num meio em que imperavam preocupações culturais, nomeadamente o pai, que versejava, assim como era sobrinho direito do conhecido poeta Jose Lopes. O próprio César Marques era um homem muito preocupado com a cultura e pertenceu a uma geração que queria ver o desenvolvimento de Cabo Verde, mais particularmente da ilha de S.Vicente, onde ele vivia e era funcionário do telégrafo inglês.
César Marques, através de muito esforço, conseguiu dominar a língua inglesa com perfeição e isto abria-lhe novos horizontes no que diz respeito a leituras que nunca estariam ao seu alcance se ele não tivesse conseguido esses conhecimentos da língua inglesa.
Não é de por de parte a hipótese de aquando da fundação do cinema, ele ter sofrido forte influência da colónia britânica da época, alias, numerosa e com a qual ele convivia de perto, sendo certo que uma vez apareceu em S Vicente, como superintendente do telégrafo, onde já vimos que ele trabalhava, um notável cineasta e cinéfilo, Mr. Briggs, com quem ele se dava muito de perto... É de salientar que os ingleses projectavam filmes nas suas instalações, sessões  para as quais convidavam os seus funcionários e muitos elementos da intelectualidade Mindelense... Alem disso, César Marques teria em vista o aparecimento de um espaço digno onde pudessem ser realizadas palestras e conferências e a verdade e que tendo sido o Cinema fundado em 1922, logo 8 anos depois, foi no Eden-Park (6.12.1930), que o Dr. Baltasar Lopes da Silva proferiu uma conferência, em que ele traçava as linhas gerais que haviam de enformar o chamado Movimento Claridoso... Esta seria a sua primeira intervenção pública... E, enfim, "last but not the least" não esquecer os célebres bailes de Carnaval que animaram a cidade desde os tempos de César Marques e perduraram até aos anos 70 do século passado...

«ooOoo»

Ocorre, aqui, referir que os irmãos Marques da Silva se vieram a revelar músicos de notável qualidade tendo, com alguns amigos, formado o Conjunto Ritmos Cabo-Verdianos que, inclusivamente, participou, em Lisboa, num festival de conjuntos musicais da lusofonia com êxito assinalável...


Foram bastantes as oportunidades que este conjunto teve a oportunidade de pisar o palco do Eden-Park, devidamente engalanado para tais ocasiões em concertos memoráveis que entusiasmavam as salas repletas de um público vibrante e sempre disponivel.



De resto, o Eden-Park foi, desde sempre, um polo de multifacetas actividades como se pode extraír de um texto da já citada autora, a que demos um título que nos parece perfeitamente ajustado...

MANIFESTO...

A todos os Mindelenses e Amantes do Mindelo...
Assistimos hoje a uma grande mudança somos, hoje, as raras testemunhas do terminar de uma era. Para muitos de nós, este é um testemunho doloroso...
Todos nos habituamos a acarinhar o Eden-Park... Todos sabemos a importancia, o papel que, desde 1922 e por inictativa do empresário César Marques, este cinema teve para a cidade e  seus habitantes.
O que podemos dizer, em franca honestidade é que, para todos, foi muito mais do que um cinema: foi uma escola de vida, foi um companheiro de aventuras, de paródias, de amores, sempre presente  nas nossas vidas em tantos e tão importantes momentos. Mas foi também professor, lugar de descobertas, que nos proporcionava o assombro de, na nossa pequena ilha, poder espreitar e conhecer o mundo.
Foi, ainda um formador de consciências. Os filmes em que nos apercebemos dos dramas humanos, das desigualdades, da discriminação, da guerra, abriram-nos os olhos...
O Eden-Park ajudou os mindelenses a serem melhores cidadãos do mundo - mais democratas, cosmopolitas e ferozes defensores da liberdade... Alimentou os nossos sonhos, as nossas ambições, as nossas indignações, até as nossas raivas, quanto mais não seja contra aquele bandido que sempre teimava em ameaçar o "sport", tornou-nos melhores seres umanos quando nos emocionámos com a luta de Cochise pela liberdade do seu povo, quando chorámos ao ver o drama racial 'Imitação da Vida”, etc, etc,.
Graças também ao Eden-Park, os mindelenses sentiram-se menos estrangeiros quando partiam por esse mundo fora em busca da terra das suas ilusões...
Também nos alimentou o espírito, enquanto espaço privilegiado de cultura, teatro, musica, conferências, saraus e, até, combates de boxe...  Tornou-nos seres humanos mais ricos!
Muitos não esquecerão Nhô Cesar Marques, o Sr. Julinho Oliveira,  o Sr. Alfredo Marques, o Lulu Marques, o Djosa Marques, como não esquecerão Toi Cecílio, Satumino, Nhô Djack, Nhô Manim e muitos outros que dedicaram a sua vida ao Eden-Park...
Muitos, nunca esquecerão "as bocas da geral", o fino humor do mindelense, o som da mancarra a ser descascada, como verdadeiro pano de fundo dos filmes...
A família Marques e todos os colaboradores e amigos do Eden-Park orgulham-se do esforço que fizeram para oferecer aos mindelenses esse património cultural e social que foi o cinema Eden-Park.
Mas, esse tempo termina e transforma-se, aqui... Seremos testemunhas, agora, de um novo futuro e seremos, de agora em diante, nesta cidade e no mundo, os guardiões da memória deste presente poderoso e marcante nas nossas vidas.
Estamos certos que, no futuro e nos novos tempos que se aproximam, os mindelenses acabarão por encontrar as oportunidades e  novas formas que permitam que as novas gerações de mindelenses possam recriar as memórias e o património de que hoje formos portadores...
Obrigada a todas as entidades e instituições que desde sempre colaboraram com o Eden-Park...
Origada ao Povo Mindelense...
Até sempre,
Pel'A Gerência,
Maria Luiza Marques da Silva


Finalmente, anote-se que, no meio de muita celeuma, desleixo e más vontades, por vezes aparece um gesto de inteligência... Será o que aconteceu em 2001, quando a Academia de Estudos de Culturas Comparadas, atribuiu à Empresa Eden-Park, o Prémio Micadinaia 2001 para a Cultura, "pelos serviços prestados à Cultura nesta cidade ao longo destes 79 anos de existência"...O ofício que a Academia usou para dar a boa nova, de 17 de Março de 2001, vem assinado pelo Prof. Doutor João M. Varela...
Lá, do outro lado da vida onde se encontra, Nhô César deve ter soltado um suspiro de orgulho quando sentiu a neta ler tão grata notícia...


Em nome dos muitos milhares de mindelenses de nascimento e de coração que passaram, ao longo de tantas décadas, pelos bancos e pelas poltronas do Eden-Park, o Editor do "Arrozcatum" presta aqui homenagem ao Homem que se permitiu realizar um sonho e aos seus descendentes que conseguiram manter a chama acesa por tantos anos contra ventos e marés...
OBRIGADOS!!!










7 comentários:

  1. As minhas felicitações ao blogue Arrozcatum e em especial ao Zito Azevedo, rato do cinema, pelo amor que devota a causa do Eden Park, a verdadeira escola da modernidade em Mindelo e Cabo Verde. Trata-se dum documento importante para a historia cultural de Mindelo. Com a morte do Eden Parque desaparece um dos patrimonios mais importante de Mindelo e Cabo Verde. Aliàs uma cidade sem cinema não é cidade e a Câmara Municipal de São Vicente devia partilhar esta preocupaçao cultural e social do povo de São Vicente e de Cabo Verde.
    Luiz Silva

    ResponderEliminar
  2. Grande post e grande Eden Park. Só dizer isto já é dizer tudo.

    Braça com celulóide e mancarrinha,
    Djack

    ResponderEliminar
  3. Um especial agradecimento ao Senhor Zito Azevedo por esta singela e bela homenagem, repleta de significado para mim, para a minha mãe e irmãs, e , estou certa, para toda a família e para os Mindelenses, em geral. Reconhecer a grandeza daquele que foi o fundador desta grande Obra e dos seus continuadores, os filhos Lulu e Djosa Marques e mais tarde, pela minha mãe Maria Luisa, que pôde manter vivo o sonho por largos anos, atravessando um deserto muito árido, é para nós motivo de regozijo. Faço votos para que nasça das ruínas um novo projecto que sirva Mindelo tão bem e tão gloriiosamente como serviu este emblemático Cinema cujo nome EDEN PARK ou Jardim do Éden (Paraíso, Primeira morada da Humanidade), pela sua simbologia,testemunha a grandiosidade do sonho que acalentou a alma de César Marques, não esquecendo todos aqueles cabo-verdianos que abraçaram o projecto, desde o seu nascimento nos anos 20 do século XX, permitindo-o desabrochar da forma como desabrochou. Forte abraço para si. Em nome da minha mãe e irmãs e em meu nome próprio um Bem Haja!

    ResponderEliminar
  4. Amigos uma parte da História Cultural do Mindelo está aqui retratada. O Eden Park é património da Ilha e de Cabo Verde

    ResponderEliminar
  5. Uma linda homenagem ao Eden Park, que foi e continua a ser na memória popular uma referência. Parabéns ao Zito pela iniciativa e pelo trabalho realizado;

    ResponderEliminar
  6. Nunca é demais relembrar os feitos e os efeitos da iniciativa do Sr. César Marques Silva e dos Familiares que o seguiram na gerência do Cine-Teatro Eden Park.
    Fui um dos frequentadores assiduos, acompanhando o meu pai e depois comprando o bilhetinho com moedinhas juntadas, nunca pensando que um dia subiria ao palco para interpretar Gabriel Mariano, Sérgio Frusoni, Màrio Macedo e "Del Valle".
    Gratas lembranças que enriqueceram o meu curriculo e de muitos amigos ali arranjados. Isso fui eu, um milionéssimo dos jovens que ali aprenderam coisas essenciais que os ajuda(ra)m pela vida fora.
    Bem Hajam Todos !
    Uma nota negativa ao Municipio que nunca se lembrou de Sésar Marques da Silva na toponimia da cidade e votos para que, ao menos, seja colocada uma placa na casa onde sempre viveu. Nhô Césa foi, é e serà um Monumento da Cultura em Cabo Verde.

    ResponderEliminar
  7. Associo-me emotivamente a esta homenagem, que nos transporta ao rico passado cultural da nossa ilha, revivendo-o e teimando em referenciá-lo como paradigma de um futuro com que é ainda possível sonhar.
    Sem dúvida que o nome do senhor César Marques merece figurar na toponímia da nossa cidade.

    ResponderEliminar