sexta-feira, 4 de março de 2016

[8977] - CRIME NEFANDO NO MINDELO...

Em S. Vicente, apareceu no mar o cadáver d’um recém-nascido. Recaem fundadas suspeitas de infanticídio nos pais e na parteira.

A criminologia em Cabo Verde regista mais um exemplo bem frisante de aberrações da natureza. 
Nesta província, onde, o público raramente é surpreendido com notícias de crimes onde os requintes de malvadez e o cinismo de baixas educações morais sobrenadam na sua perpretação, acaba de ser consumado um dos crimes mais gritantes que a degeneração humana pode conceber… o infanticídio.
A 21 de Fevereiro último na cidade do Mindelo pelas 13 horas, circulou o boato de que fora encontrado o cadáver d’uma criança de cor branca, junto a uma das pontes da casa Millers & Corys.
O boato era verdadeiro e pouco depois, comparecendo as autoridades er o pequeno cadáver removido para o hospital. 
Tratar-se-ia d’um crime? 
A afirmativa passou por todas as mentes; julgava-se contudo ter sido a criança deitada ao mar, de bordo de algum vapor.
Devido à actividade e inteligência do delegado da comarca, Dr. Roberto Martins, no dia seguinte achava-se o fio à meada. 
Sabe-se quem eram os pais. Era já um grande passo, mas teria presidido a intenção criminosa ou simplesmente uma precipitação nascida da inconsciência do acto praticado?
Teria a criança nascido viva ou morta?
A autópsia o diria. 
Feita esta, por parecer dos peritos, Drs. Gilberto Pinto e José Augusto Ferro, que  a causa da morte, fora a sufocação  e que a criança teria vida extra- uterina. 
Nascera pois viva a criança e fora morta pela sufocação.
Não podiam os pais os pais da criança, ser imediatamente presos por se tratar de ingleses -- o telegrafista de 1ª classe, Loth e sua esposa, e nessa qualidade, ao abrigo do tratado com a Inglaterra, pelo qual os seus súbditos não podem ser pronunciados   e presos sem culpa formada. 
Presas, entretanto a parteira conhecida pelo vulgo Mã Bia e a criada, fez revelações altamente comprometedoras para Miss Loth e para Mã Bia.
Declarou que, desde os cinco meses da gravidez de Miss Loth, era incitada pela parteira que a mandava à farmácia comprar certos medicamentos que segundo parece, têm propriedades abortivas.
Sobre o crime, consta ter ela dito que a criança nascera viva e que, depois de deitada n’uma lata, de cabeça para baixo, pôde, de relance, que as perninhas ainda mexiam.
Tudo o que relata é o que mais ou menos constava por fora, pois devido ao sigilo com que se vem encaminhando o processo, nada seguramente verídico se pode formular.
Contudo, que alguma culpabilidade se não toda, existe por parte dos pais.
Promovida a querela contra os supostos autores, pelo delegado da comarca, o meritíssimo lavrou despacho de pronúncia: - pronunciando os pais com a fiança de seis contos de reis, cada um, a criada com cinquenta mil reis e a parteira sem fiança…
Segundo informações, declarou esta última que, tendo por certo o degredo, faria revelações interessantes. Parece pois, não existirem dúvidas de que se trata de um monstruoso crime. 
O telegrafista Loth, conta o caso da seguinte forma: -- “ Estava ele segurando a mulher, e a parteira debruçada e com uma colcha sobre a cabeça e os ombros, se preparava para receber a criança; nascida esta não diz se viva ou morta; a parteira conduzindo-a para um quarto contiguo ao da parturiente, ficando ele a cuidar da sua mulher. Pouco depois aparece Mã Bia, de cachimbo na boca (SIC) lhe declarou que a criança nascera morta…. Que fazer? Perguntou-lhe ele.
-- Não se preocupe isso é comigo, respondeu-lhe ela.
Pouco depois pergunta-lhe que destino dera ao filho, ao que ela respondeu que o mandara deitar ao mar.
O que haverá de verdade nestas declarações? As indagações o dirão.
Sobre a culpabilidade dos seus supostos autores, dividem-se as opiniões…
A colónia inglesa, indignada na sua maioria não crê na culpabilidade do pai, pois, conforme dizem, sabem quanto é extremoso pelo único filho que tem; afirmam contudo que é dominado pela mulher.
Esta, criatura de nenhuma educação moral, ex – bailarina d’um café concerto, não sabemos se em Londres ou Paris, levava em S. Vicente uma vida imprópria de uma senhora casada.
É sobre esta parteira que cabem as maiores suspeitas de culpabilidade.
A opinião que mais avulta, é que houve um infame conluio entre a mãe e Mã Bia.
….
Sobre a inocente vítima, algumas palavras: era uma criança perfeita, pesando 4 K 120 e poucas vezes temos visto um rosto infantil tão encantador…
Esperamos que a impoluta integridade dos magistrados da comarca, saibam fazer justiça, como o crime demanda.

In: Voz de Cavo Verde – 1912

“Nota: revistos os jornais até 1913 , não foram encontradas noticias sobre o veredito judicial."
(Pesquisa de A. Mendes)   

 

2 comentários:

  1. Entristece ler isto, mesmo nos tempos de hoje em que quase se vulgarizam crimes do género.

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  2. Um acto simplesmente imundo que veio a suceder em S.Vicente nos fins dos anos 40 do século passado, onde uma jovem mãe, desesperada, não encontrou outra solução para se desvencilhar do que não queria, com a ajuda da irmã mais nova que entrou em pânico na altura do parto.
    Nesse dia, a cidade levantou-se em alvoroço com a noticia de que tinha sido encontrado o cadàver de um bebé, por baixo do cais da Shell. Foi então um desfile de mirones como se fosse espectàculo de ver. Na praia e no Caizim era gente em penca mas nada se via Era uma tropida incrivel. E a noticia correu célere pela ilha toda porque ninguém tinha memôria de um acto igual, antes mesmo de o corpo ter sido removido pelos agentes hospitalares por despacho do Procurador da República que ordenou a autopsia.
    A Policia, cuja Esquadra jà se encontrava face ao Plurim de Pêche, foi accionada e logo o Chefe, tal Sherlock mas um "home piqnim", não levou tempo para descobrir a(s) pessoa(s) culpada(s). O homem tinha uma pista que ia explorar e... acertou:
    A criança levava à volta do pescoço uma fita de uma cor que ele, o "sherlock home piqnim" conhecia porque usada por uma amiga de eventuais momentos: Violeta (duas vezes porque fita e nome). So a mãe esteve alguns anos no Fortim d'El Rey.
    Pouco tempo depois o primeiro sargento demitiu-se da Policia, passou a arbitrar partidas de futebol, para o sustentento, antes de ir para a Guiné onde faleceu tempos depois.
    V/

    P.S. - Este comentàrio de horrivel acontecimento substitui dois outros sacrificados por capricho da Net.

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