segunda-feira, 21 de março de 2016

[9032] - A NOVA ALVORADA...

Ontem, a democracia cabo-verdiana ganhou! A alternância política é um sinal de maturidade!

A questão angustiante que se colocava no fim de semana a todos os democratas, tendo em conta a máquina avassaladora do PAICV, era se, não obstante a sensação de cansaço após 15 anos de poder de um mesmo partido, os ‘jovens' seriam seduzidos pela estabilidade, pelo conformismo, ou se apostariam na Mudança, em novas políticas.
Convenhamos que 15 anos de poder de um mesmo partido, é muito tempo, corresponde a um tempo quase infinito em política, em que a própria oposição poder-se-ia perder inevitavelmente, e a própria democracia tornar-se num circo, com um partido hegemónico, quase único, e uns partidos ‘confetis’ fazendo de conta (cenário em que se transformariam o MPD e a UCID, caso a oposição perdesse as eleições). Cabo Verde podia cair numa situação de democracia ‘tipicamente africana’. Ora, tal não aconteceu, a democracia saiu reforçada e Cabo Verde está prestes a entrar no clube das democracias avançadas, mas ainda com  um enorme esforço a empreende para viabilizar-se politica e economicamente, o que está longe de o ser caso, não obstante a propaganda que vinha sendo alardeada pelo partido ora apeado do poder.
A nação cabo-verdiana tem um verdadeiro estaleiro à sua frente, pejado de destroços e salvados,   um autêntico desafio que o novo governo terá que tentar ganhar e certamente vai ganhar se houver engenho, discernimento e vontade: abolir a partidocracia, mandar a politiquice e a política barata de vez para o vazadouro das torpezas (ao fim de 40 anos), criar uma economia moderna, competitiva e independente do estado, logo dos partidos, criar uma sociedade civil autónoma, e iniciar um conjunto de reformas para modernizar o país e o estado, abrindo caminho para um modelo de regionalização que devolva mais poder às ilhas.
O estado da economia cabo-verdiana foi analisado estes dias num interessante post de Gualberto do Rosário na sua página Cabo Verde XXI. Do Rosário apresenta um quadro comparativo em que compara a economia de Cabo Verde com a de alguns países liliputianos similares, que proliferam pelo mundo. A conclusão que se tira é que a economia cabo-verdiana é praticamente inexistente, razão por que não consegue gerar recursos para ser independente e tem que andar de mão estendida à espera da comunidade internacional, para garantir a 'cachupa' no prato. O panorama é desafiador, é difícil mas possível, pelo que importa sem demora mudar este quadro pois, caso contrário, não haverá viabilidade possível para Cabo Verde, dado que terá que se endividar cada vez mais para sustentar a sua débil economia até ao derradeiro momento, em que atirará a toalha ao chão. Esta é uma dura e crua verdade que os cabo-verdianos têm de ouvir.
Na realidade, a economia de Cabo Verde nunca mudou em 40 anos, é uma economia subdesenvolvida: 'show me' os sectores da economia  competitivos e exportadores? Os existentes?! Por isso, acho irresponsável algum discurso facilitista dos partidos sobre a realidade económica do país.
A questão é encontrar os nichos dentro deste mercado global onde a economia cabo-verdiana poder-se-á inserir. O Turismo que poderia ser uma aposta, parece-me uma miragem, não se explorando a fundo as vantagens competitivas de Cabo Verde neste sector. Sobre outras áreas não disponho de informação suficiente para me pronunciar. 
Cabo Verde ainda está a tempo de emendar a mão para, olhando a realidade exactamente como ela é, proceder às reformas de que carece (políticas e económicas) de modo a entrar neste mundo competitivo e adaptar-se às regras por que se rege a economia global com as suas demandas, exigências e desafios. A encruzilhada é: 'Reforms or Perish', pois é evidente que ninguém mais vai querer continuar a levar ao colo um país que 40 anos a fio não conseguiu viabilizar-se economicamente. O Estado tem de saber dimensionar-se dentro das proporções compatíveis com o papel soberano que verdadeiramente lhe cabe e com a margem de acção que cabe à iniciativa privada como condição para que ela se projecte e crie riqueza. Os partidos políticos têm de se cingir à função social que lhes cabe como forças estruturantes de ideias sobre a organização do estado e disputa do poder político. Não podem ser trampolins para a infiltração dos seus pares nas estruturas da economia nacional, contaminando-a e submetendo-a à lógica do aparelhismo.
Não é desejável nem aceitável a repetição de cenários de perpetuação no poder que se devam mais à captura da sociedade por manobrismo e caciquismo em meio a artes de ilusionismo político do que a uma meritória acção governativa. É tempo de os nossos partidos repensarem os seus modelos organizativos e definirem o seu verdadeiro pensamento ideológico, para que a sociedade saiba com o que conta antes de lhes confiar o seu voto. A par disso, urge estabelecer um pacto entre todas as organizações partidárias no sentido de um claro e consensual entendimento sobre os elevados princípios ético-morais que a todas devem nortear na fronteira que deve impor-se entre o interesse nacional e o interesse partidário. A sociedade não pode mais continuar vulnerável ao primado do interesse partidário sobre o nacional, à influência do partido em detrimento do mérito do cidadão no acesso aos cargos públicos. Isto aplica-se a todos os partidos sem excepção e o momento é de grande expectativa sobre a resposta que o MpD vai dar nos próximos dias. O novo partido do governo só colherá dividendos se for exemplar na sua conduta e der o mote para que os seus opositores partilhem da boa nova de tempos diferentes para a nação cabo-verdiana. Precisamos disso como de oxigénio para a revitalização da vida nacional.
Como escrevi no artigo ”Quando os políticos e as fraldas devem ser mudados pela mesma razão”, os partidos cabo-verdianos precisam de uma profunda reformulação e reestruturação, ou então sujeitarem-se àquilo que designei em tempos de ‘Hara-Kiri’, ou seja auto-extinção, seguido de ressurreição, através da qual se realizará a refundação de novos partidos com ideologias bem específicas. Acredito que só assim Novos Tempos se imporão em Cabo Verde, em que a política se converterá realmente em debates de ideias e projectos de sociedade, e não teatro e disputas futebolísticas de hostes fanáticas.
Esta é a mensagem para os principais partidos: não basta ganhar eleições (o mais fácil), o importante é o que se vai fazer amanhã! Esperemos que a alternância política em Cabo Verde inicie um novo ciclo.

José Fortes Lopes

2 comentários:

  1. Totalmente de acordo com a «Nova Alvorada». Dos políticos, isto é de quem nos governa, passando pelos partidos, indo ao debate de ideias e das políticas, tudo necessita de uma profunda reformulação, reestruturação, aqui nas ilhas.Também concordo que governar para além de dois mandatos é perigoso, cria vícios, arrogâncias e clientelismo...

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