terça-feira, 22 de março de 2016

[9037] - CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO...



EPISÓDIOS DA LONGA SAGA DE CLANDESTINOS E INDOCUMENTADOS MARÍTIMOS CABO-VERDIANOS


Sempre assim foi, decerto sempre assim será. Enquanto houver portos, navios e gente com espírito de aventura ou necessidades de sobrevivência (ou ambas) mas sem dinheiro ou documentação necessária para neles embarcar, haverá clandestinos e ilegais. Pelas suas características peculiares, de país insular com crises cíclicas de secas, erupções vulcânicas, falta de trabalho e consequentes fomes – hoje felizmente de bem menores consequências que antes para as populações –, Cabo Verde possui longo historial de ilegalidade migratória. Eu próprio o testemunhei, em pequeno, pelos anos 60 do século passado, enquanto vivi na Capitania dos Portos, a sempre estimada Torre de Belém, agora Museu do Mar. De vez em quando lá aparecia alguém, trazido pela Polícia Marítima, que tentara fazer a viagem sem pagar ou sem cédula marítima, passaporte ou bilhete de identidade, do Mindelo para Angola, da Praia para a Holanda, etc., etc., sei lá para onde mais, tantos foram os casos, descobertos em cargueiros, paquetes, mesmo em palhabotes, cúteres e escunas da cabotagem, até com objectivo curto, o cais mais próximo, no Porto Novo. Depois, era a espera por navio de torna-viagem que recambiasse o indivíduo para a origem, ele por ali vivendo de alguma benevolência do pessoal da capitania e dos botequins próximos. Não está feita a história da clandestinidade e de indocumentados marítimos cabo-verdianos, nem este pequeno artigo (e talvez um posterior) a irá colmatar. Mas do muito material que sobre o assunto tenho em arquivo repesquei alguns episódios, amostra do manancial contido em jornais e revistas à espera que lhe deitem a mão para se contar esse rocambolesco capítulo da história do arquipélago.
Podemos começar com exemplo de Dezembro de 1924, passado em Providence, Estados Unidos da América, em que a imprensa anunciava que 11 cabo-verdianos iriam ser escoltados dali para New Bedford, "sob guarda armada", para serem deportados. Acontece que do barco em que tinham viajado para os States e que se encontrava fundeado no porto, 12 passageiros ilegais tinham fugido durante a noite de dia 11, pelo que estes 11, também eles sem documentação, tinham ficado sob apertada vigilância das autoridades .
No Agosto seguinte, era a vez de Manuel Martins Jr., rapaz de 13 anos, ser apanhado a bordo do veleiro "Yukon", da carreira de Cabo Verde, que estava amarrado ao cais Merrill, em New Bedford. O miúdo desaparecera cinco semanas antes de casa e pretendia, em contracorrente pouco usual, ir para as ilhas. Astucioso, contou ao capitão Benjamim Costa que os pais haviam falecido e que se encontrava sem ninguém. Assim, foi "adoptado" por este e pela tripulação que durante duas semanas o alimentaram e protegeram. Mas outros dois jovens que ali trabalhavam, provavelmente acicatados por alguma inveja, começaram a desconfiar da história do Manuel e avisaram as autoridades. Foi então que, após algumas diligências, estas tomaram conhecimento através da mãe do rapaz que ele afinal havia fugido de casa, levando consigo 8 dólares roubados de um armário .
Por vezes, os casos de ilegais eram bem mais complicados que estes dois que vimos, configurando quase uma rede clandestina como aquele em que em 1926 os capitães Joaquim C. Duarte (da barca "Lina") e Elizeu Neves (da escuna "Fannie Belle Atwood"), ambos confessos culpados, foram sentenciados nos EUA, cada um a um ano de cadeia e à multa de 1000 dólares "por permitirem a entrada ilegal de estrangeiros n'este país". Curioso, por revelar parte da teia que estava por detrás deste negócio de envio de cabo-verdianos para os States, é o conjunto de depoimentos de alguns deles durante o julgamento: "Ontem, um número de estrangeiros [diga-se cabo-verdianos] que foram trazidos para New Bedford pelo capitão Duarte na barca 'Lina' e que se evadiram num dos escaleres de bordo somente para serem capturados em Wareham dentro de 24 horas, testemunharam pela acusação. Disseram que tinham pago dinheiro a 'um homem' do Fogo que se chama Tony Salomão. Todos exoneraram o capitão Duarte de ter tomado parte nos arranjos financeiros que foram feitos antes da viagem. (…) Rezendes dos Santos declarou que quando a barca 'Lina' parou no Fogo, pagou $257 [dólares] a Tony Salomão, que tem um escritório ali, pela sua passagem para New Bedford. Disse que o capitão estava fora do escritório quando foi feita a transacção. O Santos testemunhou que apesar de estar registado como membro da tripulação, não fez o trabalho de um marinheiro enquanto esteve de viagem. Disse que se evadiu da barca 'Lina' com outros nove, sendo presos mais tarde em Wareham. Declarou que o piloto estava dormindo quando se evadiram e que o capitão não era conhecedor dos seus planos de evasão."   
Quanto aos pontos de origem, desejado destino e despejo antecipado destes homens (e por vezes mulheres, embora em número assaz inferior), eles são os mais diversos. Nos finais de Abril de 1927 eram desembarcados no Caniçal, ilha da Madeira, três cabo-verdianos que no vapor grego "Anapeny" pretendiam atingir o porto alemão de Hamburgo . E no mês seguinte era a vez de o comandante do vapor italiano "Nereide" entregar à Polícia Marítima de Lisboa uma série de clandestinos. Porém, o barco onde estes se haviam infiltrado em Cabo Verde era o "Agrés Gevigios", matriculado no porto do Pireu, Grécia, e o seu repatriamento no "Anapey" fora promovido por Fernando Abecassis, cônsul português em Bacelona. Eram eles todos gente de ilhas do Norte, portanto de Barlavento: António Monteiro, de 19 anos, natural de Santo Antão; João Silva, de 16 anos, de São Nicolau; e Miguel Rosa de Oliveira, de 21 e José Andrade, de 14, ambos de São Vicente .
Parece ser no entanto a América o território onde mais casos de ilegais eram detectados, frequentemente em grande número de cada vez. Ainda desse ano de 1927, e de Maio, é a notícia de mais uma leva apanhada nas redes da justiça e dos serviços de imigração dos Estados Unidos, de certo modo digna de enredo de filme de gangsters. Ei-la, neste caso, reproduzida na íntegra: "Com permissão do comissário de imigração dos Estados Unidos, partiu ontem para Boston a acompanhar 19 passageiros cabo-verdianos que foram encontrados a bordo da escuna 'Mathew S. Greer', chegados a New Bedford, há dias, procedentes de Cabo Verde, o inspector de imigração John C. Hagberg. Este funcionário foi acompanhado para aquela cidade pelo seu colega D. J. McDermoutt. Aqueles passageiros ficarão detidos na estação de imigração de Boston até serem ouvidos e julgados pelas respectivas autoridades. O inspector Hagberg contratou um grande camião para conduzir a Boston os 19 imigrantes. A escuna 'Greer' está atracada ao cais do estado, estando ontem embandeirada juntamente com os navios de guerra que visitaram o porto de New Bedford". 
Resta dizer que neste caso do "Mathew S. Greer" o seu comandante, capitão José J. Pereira foi condenado à multa de apenas 1 (!) dólar, porque segundo o juiz William M. Morton do Tribunal do Distrito Judicial dos Estados Unidos se provou que não foi ele quem levou estrangeiros para os Estados Unidos mas sim o vapor da Guarda Costeira que lhe rebocou o barco para New Bedford, ainda por cima a seu pedido, por este estar a meter água e em perigo de afundamento… Por outros processos esperava Pereira levar bem maiores multas mas a que pagou por este muito o deve ter feito rir e aos patrícios a quem contou o divertido episódio .


Joaquim Saial – mindelosempre@gmail.com

2 comentários:

  1. As crónicas escritas pelo Joaquim Saial são produto de aturadas pesquisas e enorme vontade de desenterrar de arquivos esquecidos e bolorentos peças importantes da história das ilhas. Essa decisão do juiz juiz William M. Morton devia fazer parte dos anais da Justiça.
    Tal como o José comentou no Praia de Bote e eu o secundei, o Joaquim merece uma cátedra em S. Vicente sobre a história da ilha e do território.

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  2. Serei mais um da lista do pedido a apresentar para que isso aconteça.
    Nos tempos que correm, e em certos lugares onde a xenofobia é fomentada, devemos dar a cara para a defesa das nossas verdades. Sobretudo nôs que vivemos num passado não muito longinquo onde o "movimento clandestino" era como um desporto (ou uma necessidade?) para os maritimos do Porto Grande.
    Força com mais artigos, irmão !!!

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