sexta-feira, 25 de março de 2016

[9056] - MUDAR DE "CLUBE"?!

Não posso deixar de admirar quem, após 20 de Março, se mantém firme no seu apoio ao PAICV. Atenção, não é uma ironia ou uma crítica, é um elogio sincero. Porque depois de 20 de Março, o instinto de sobrevivência começou a falar mais alto. A troca de t-shirts, para alguns, foi quase imediata...


Desde que nasci que convivo com um crente. O meu único irmão, mais velho 15 anos, é assumidamente um crente no Sport Lisboa e Benfica. Nas derrotas ou nas vitórias, nas tempestades ou nas bonanças, ele mantém-se estóico no apoio ao clube da Luz. Muitas vezes foi gozado nas derrotas, muitas vezes o tentaram demover da sua crença, mas ele tem-se mantido firme na sua fé: o SLB é o SLB, está tudo dito! Mas não, dizem vocês, estou a aplicar o termo errado, ele não é crente, é fanático. Mas não, digo eu, ele é mesmo crente. Aliás, também eu herdei essa crença, e sofro do mesmo mal, apesar de, actualmente, nem conseguir dizer o nome de cinco jogadores do plantel principal. Não me interessa, sou do Benfica e apoio o clube, nem que seja num jogo de matraquilhos. Só que ambos, irmãos de sangue e de crença futebolística, possuímos o discernimento suficiente para reconhecer as muitas vezes que o Benfica esteve menos bem, seja dentro ou fora das quatro linhas. Temos amigos e familiares adeptos de outros clubes, que amamos e respeitamos. Temos a capacidade de engolir piadas e até rir de algumas quando somos goleados de forma escabrosa. Isso interfere com a nossa crença? Nadinha. Vamos morrer benfiquistas, nem que o clube acabe na 3ª divisão e todos que nos conhecem o sabem.

Por outro lado, a minha mãe, que tentou toda a vida acompanhar a nossa fé, rendeu-se às evidências, deixou de tentar perceber essa tal crença inabalável por derrotas sucessivas e tomou uma posição firme no que toca a preferências futebolísticas, conhecida e acarinhada por todos: é do que ganha!

Por isso não posso deixar de admirar quem, após 20 de Março, se mantém firme no seu apoio ao PAICV. Atenção, não é uma ironia ou uma crítica, é um elogio sincero. Porque depois de 20 de Março, o instinto de sobrevivência começou a falar mais alto. A troca de t-shirts, para alguns, foi quase imediata. Desconfio até, que muitos boletins de voto foram surripiados e lançados ao mar, pois a quantidade de apoiantes do MpD que surge agora é tal, que os 53% de eleitores que o partido alcançou ficam muito aquém das (agora) manifestações de voto.

Apoiar alguém na vitória é fácil. Difícil é mantermo-nos crentes na derrota. É aí que se revela o verdadeiro carácter, ou a falta dele.

Ulisses Correia e Silva afirmou-o durante a campanha e reconfirmou na primeira entrevista à TCV após as eleições legislativas: pretende ser primeiro-ministro de todos os cabo-verdianos, partidarismos à parte. Até prova em contrário, nada me leva a duvidar da sua palavra.

Por isso deixo aqui um conselho: deixem-se de servilismos bacocos, ergam a coluna vertebral, exerçam o direito universal de ter crenças, opiniões e assumir posições, que o preço da fisioterapia e dos remédios para as dores das costas não estão para brincadeiras. (in Cabo Verde Direto)

Marisa de Carvalho | m_a_carvalho@yahoo.com

[escrito com a antiga grafia da língua portuguesa]

1 comentário:

  1. Não podemos ser incondicionais com as nossas preferências. Para o que é clubismo temos de ser far-play e aceitar a derrota. No que concerne a Politica devemos votar por quem nos apresenta o melhor programa e renovar se houver necessidade. Somos seres pensantes e não devemos ser carneiros.

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