sábado, 11 de junho de 2016

[9312] - SANTOS DA CASA...


A arte de fazer instrumentos musicais de corda em Cabo Verde sobrevive graças ao esforço, entrega e paixão dos construtores mindelenses. Luís Baptista e Aniceto Gomes preservam ainda este saber-fazer que herdaram do mestre Nhô Baptista. A falta de matéria-prima adequada no mercado e a ausência de medidas para estimular a compra de instrumentos musicais constituem dois dos maiores entraves ao desenvolvimento desta arte no país. Fabricar instrumentos musicais em Cabo Verde: Uma arte que sobrevive graças ao mercado estrangeiro...

O Kriolidadi esteve à conversa com os dois maiores construtores de instrumentos musicais em São Vicente e ambos contam que esta arte poderia ser rentável se houvesse apoio e incentivo para a massificação dos produtos no mercado nacional. Segundo Luís Baptista, filho do conhecido Mestre Baptista, "quem trabalha nesta área [em Cabo Verde] é por amor". Já para o artesão Aniceto Gomes o "período mais difícil foi ultrapassado" e o futuro desta arte está "salvaguardado".

Passada de geração em geração pelo Mestre Baptista aos filhos, a arte de construir instrumentos musicais procura reafirmar-se e reclama um lugar de maior destaque no panorama musical cabo-verdiano. Pouco valorizada entre portas, é no estrangeiro que, tanto Luís Baptista como Aniceto Gomes encontram os seus maiores compradores. "Os compradores dos meus instrumentos são estrangeiros, principalmente franceses. Se não fosse o mercado lá fora, seria complicado sobrevivermos desta arte e correríamos o risco de termos de mudar de profissão", confirma Aniceto Gomes.

Na mesma linha, Luís Baptista também defende que é neste mercado que consegue vender a maior parte dos seus produtos. "Se vendêssemos só para o mercado nacional, as coisas estariam bem complicadas. Felizmente há alguns emigrantes e turistas que compram os nossos instrumentos para levarem como recordação. Há também músicos internacionais que procuram os nossos serviços porque conhecem o nosso nível nesta área de construção ou porque ouviram o som dos nossos instrumentos e reconheceram a sua qualidade. Sou muito procurado", assegura.

Se em tempos passados os instrumentos nem chegavam a subir aos palcos e muitas vezes eram utilizados mais como peças decorativas, hoje o cenário é diferente. Os artesãos são cada vez mais procurados por músicos internacionais, e não só, sobretudo pela qualidade com que são produzidos. "Aquilo que fazíamos há 20 anos, hoje fazemos de forma totalmente diferente. Antigamente, os músicos muitas vezes nem utilizavam os nossos instrumentos de corda em palco. Eram considerados mais obras de arte do que outra coisa. Porém, isto hoje já não acontece. Quem compra hoje quer que ele toque e que tenha qualidade", afirma Aniceto, para quem é preciso estimular os jovens a agarrarem esta arte como uma profissão de futuro.

Fabricar instrumentos de forma artesanal em Cabo Verde ainda está muito longe do seu potencial, isto sem retirar o mérito ao excelente trabalho feito pelos fabricantes. Conforme explica Luís Baptista, a falta de matéria-prima no mercado condiciona e muito a vida dos construtores. "Não temos madeira de boa qualidade para fazer os instrumentos musicais. Às vezes passo horas e horas a escolher madeiras que possam servir-me. Há dias em que não encontro nada. Se tivesse todos os materiais disponíveis no meu ateliê poderia fabricar qualquer instrumento, desde cavaquinho, violão, banjo, guitarra portuguesa e clássica, violoncelo, contrabaixo, violino, etc.”, assevera o artesão mindelense.

A mesma opinião tem Aniceto, que há 34 anos vive desta profissão. "Há grandes dificuldades em conseguirmos a madeira certa para fazemos o nosso trabalho". O construtor refere a falta de alternativas que leva à única solução: trabalhar a mesma madeira que as marcenarias. "Até ao momento, é desta forma que temos sobrevivido. O comentário dos músicos profissionais é que a nossa qualidade é boa. Mas é claro que temos a consciência que o material que usamos não é o indicado para se fazer instrumentos musicais", diz.

Apesar do trabalho criativo desenvolvido por estes dois fabricantes, a sua arte encontra-se relegada ao abandono por parte das autoridades que tutelam a área da cultura. São raras as oportunidades que têm para exporem os seus produtos e, muitas vezes, isto não é suficiente para fazer despoletar o aumento das vendas. Pontualmente, recebem encomendas para fabricar violões para as escolas de música. Entretanto, estes estímulos são ainda insuficientes para dinamizar a criação de um mercado nacional de venda de instrumentos musicais.

A madeira ideal para fabricar instrumentos musicais é tão cara que fica impossível aos construtores conseguirem importá-la do exterior. Com excepção de algumas peças que revestem as caixas-de-ressonância dos violões e cavaquinhos que Luís Baptista consegue trazer de França, o resto é tudo adquirido em Cabo Verde. Em alguns casos até são recuperadas peças de madeira consideradas "lixo" por não terem utilidade para a carpintaria.

Com quatro jovens a trabalhar no seu ateliê, Aniceto Gomes diz que, para já, vão conseguindo dar conta do volume de encomendas. Mas adverte que seria necessário ter mais mão-de-obra para aumentar a produção e satisfazer a demanda do mercado internacional. "Isto obriga o instrumento a ficar mais caro porque levamos mais tempo a construí-lo. Já se produzíssemos em quantidade, em princípio, cada instrumento ficaria mais barato", aponta este fabricante.

A frequentar o terceiro ano do curso de design no MEIA, Luís Baptista afirma que a arte de construir instrumentos musicais tem ainda um longo caminho a percorrer.

Daí que este artesão realça que, mais do que produzir em quantidade, é preciso pensar na satisfação do cliente. Assim, apesar de reconhecer que há uma evolução nas técnicas de fabricar os instrumentos, prefere dedicar-se ao segmento de produção de instrumentos personalizados. "Não me interessa ter dez instrumentos no "atelier" para vender,  prefiro fazer um instrumento personalizado à imagem do cliente", alega.

Odair Cardoso - (A Semana)

6 comentários:

  1. Com a revitalização da Economia da Ilha (o Turismo sustentável, que deixa proveitos à terra) está aqui um exemplo, o artesanato, entre muitos, de um tipo negócio que pode prosperar, e quem sabe com algum potencial para a exportação (este tipo de trabalho é muito valorizado por alguns turistas fortunados da Europa do Norte que gostam de coisas verdeiras ). Só precisa de promoção e marketing, coisas que não existem em CV.
    A dinamização cultural da ilha pode ser um dos importantes vectores para a dinamização da economia de SV.

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  2. Estamos perante uma profissão nobre que deve ser acarnhada (respeitada) na medida em carece de bastante tempo para a fabricação de qualquer unidade. Ademais, não temos as madeiras adequadas para cada tipo de instrumento.
    Portanto, é de louvar os jovens que seguem a profissão que o Pai lhes transmitiu e que muitos nos honram.

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  3. Até parece que o problema não tem solução...Um violão artesanal, custa cerca do dobro de um importado...Os violinos Stradivarius, também eram artesanais...Quero crer que os violões dos mestres mindelenses valerão bem a diferença, para um qualquer violão saído de uma fábrica robotizada em o que mais conta é a quantidade e a aparência final, certamente replandescente de reluzente verniz já que lacados não serão, certamente... A questão está em que o Estado devia ter - se os não tem - organismos de apoio a artes e ofícios que sejam parte integrante do património cultural sem o que se acabam por perder tradições, "know-how" e artesãos que deviam ser acarinhados e ajudados!
    Se se continua a "ver a banda passar" assobiando para o lado, então não tarda que as artes populares e as obras dos verdadeiros artesãos acabem por levar o caminho do património histórico, entregue à acção destruidora das intempéries naturais e ao laxismo humano...Que Diabo, gente, anda tudo a dormir?!
    (Este comentário estará, também, no Arrozcatum)
    Braça enfurecido...
    Zito

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  4. Ao falar do fabrico artesanal dos instrumentos musicais (Lutherie" em francês) não quis trazer o Artesanato em geral que é o espelho de um pais. Isso não foi reconhecido depois da independência e avanço até que nunca pensaram debruçar neste capitulo que merece ser inspeccionado severamente pois, em vez de incentivarem os autóctones, permitiram a estrangeiros adulterar o que é nosso, sabotando o trabalho dos nacionais.
    Cito uma conversa havida com um turista que conhecia o Senegal e que foi teimosamente abordado por um vendedor de rua que queria impingir a sua bugiganga. Aborrecido, o turista disse que o produto nada tinha de caboverdiano ao que o vendedor respondeu: "é souvenir do Senegal porque aqui não têm".
    Se não temos, tivemos. Quem se lembra dos trabalhos de chifre, dos trabalhos de sementinha. Ninguém que eu saiba! No meio dos meus amigos poucos sabem que os ingleses da Western levavam artesanato em ferro (miniaturas) feitas por um senhor de Chã do Cemitério. Digam-me se os bonecos de barro não são representativos. Se não valem mais que as bugigangas vendidas pelas ruas do Sal e do Mindelo, pelo menos.
    Para ordenar isso tudo nem é preciso um Ministério; basta gente capacitada para ordenar e fiscalizar.

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  5. Subscrevo todos os comentários já produzidos, em particular o do Zito, que interpela a indiferença e a inoperância daqueles que exercem a governação mas que se limitam a "ver passar a banda".

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  6. Não podemos esquecer que o preço das coisas depende do mercado: se a oferta é pouca os custos de produção são repercutidos e ficam elevados, e não há estado que salve isso a menos que esteja disposto a investir a fundo perdido no 'savoir faire' dos poucos que sobram. Todos sabemos que tipo de estado é o cabo-verdiano!! Mas Covenhamos que o verdadeiro incentivo d«a este tipo artesanato só poderá vir da economia da ilha, mais florescente, ou seja encontrar os consumidores (por exemplo turistas e ou muitos artistas locais). Mas isso são contas de outro rosário....
    Quem pega na ilha?
    Haverá ainda gente com vontade de pegar nela?
    E Costuma-se dizer: Show me the money!!
    Este é o busílis, e já falamos sobre isso abundantemente!!!

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