segunda-feira, 20 de junho de 2016

[9348] - CABO VERDE, ESPECTADOR DO FUTURO...



Em 9 de Junho, passado, editámos no "post" Nº 9305, um trabalho de José Almada Dias, cuja releitura recomendamos para melhor entendimento do comentário que se segue, de César Palmieri Martins Barbosa...


Prezados Leitores
Prezado José Almada Dias

CABO VERDE FORA DA UNIÃO EUROPEIA E NA ROTA DA IMIGRAÇÃO NIGERIANA.

O problema de Cabo Verde não é a falta de chuva, mas escassez de dinheiro.
Não é possível fazer capitalismo sem capital.
No mundo existem várias e vastas áreas sem uma atividade econômica desenvolvida, e a pobreza é predominante em toda a História da Humanidade, sendo a riqueza privilégio de minorias, como ocorre atualmente no nosso planeta, no qual a maior parte das 7 bilhões de almas vive em condições que nem parece que estão no século XXI.
Uma das causas determinantes da pobreza e da riqueza é o fluxo financeiro internacional.
Os países que se encontram fora da rota dos fluxos financeiros internacionais, como Cabo Verde, padecem na pobreza apesar das suas grandes potencialidades, e aqueles que observam Cabo Verde isoladamente não conseguem entender ou explicar porque esse País não consegue, ao menos, o mesmo desempenho econômico dos seus pares da Macaronésia.
O compararmos Cabo Verde com as Canárias e Madeira, e mesmo os Açores, salta aos olhos que há algo de errado. 
A mesma comparação nos mostra que arquipélagos oceânicos que recebem ricas verbas orçamentárias de tesouros centrais poderosos, como o Hawaii, o Tahiti, ou mesmo o arquipélago de Fernando de Noronha, no Brasil, possuem uma infraestrutura e serviços muito além dos seus próprios recursos, e não precisam manter forças armadas, banco central, comunicações, saúde, relações exteriores e todas as caríssimas despesas que são um flagelo para os pequenos países.
No Hawaii o seu poderoso turismo é importante, mas secundário para a economia havaiana, que possui na administração pública a sua principal atividade econômica. Os Estados Unidos mantém na Hawaii bases militares, universidade e escolas, observatórios astronômicos, hospitais e tantas outras riquezas que o turismo, que de acordo com a Hawaíi Tourism Authority 8,3 milhões de turistas visitaram o arquipélago em 2014, gastando 14,7 mil milhões de dólares (http://www.hawaiitourismauthority.org/default/assets/File/research/monthly-visitors/December%202014%20Visitor%20Stats%20Press%20Release%20(final).pdf).

A OPÇÃO DE CABO VERDE PARA, AO CONTRÁRIO DOS OUTROS ARQUIPÉLAGOS DA MACARONÉSIA, OPTAR PELA INDEPENDÊNCIA E SOBERANIA INDIVIDUAL

Creio que a opção pela independência que Cabo Verde escolheu, ao contrário dos seus pares de Açores e Madeira, agora manda a sua fatura com o insustentável nível de endividamento cabo-verdiano, como se pode verificar nas maiores relações de dívida pública e do PIB no mundo, como se lê:

DÍVIDA PÚBLICA % PIB - LISTA DE PAÍSES
Japão- 230.% 
Grécia- 177% 
Líbano- 134%
Jamaica- 132.7% 
Itália - 132.3% 
Portugal- 130.2% 
Cabo Verde- 114.2% 
Irlanda- 109.7%
Chipre- 107.5% 
Bélgica- 106.5% 
Estados Unidos- 102.98%

Essa bancarrota do tesouro cabo-verdiano (sendo o escudo de Cabo Verde atrelado ao euro por meio de acordo monetário entre Cabo Verde a União Europeia, por intermédio de Portugal) torna-se ainda mais grave com a crise do euro, inserida na maior crise financeira da História desde a Revolução Industrial, maior até do que a crise de 1929.
O problema de Cabo Verde como pequena nação independente é ainda maior do que a sua viabilidade econômica, mantidas as atuais circunstâncias (ceteris paribus), pois as coisas não estão constantes. 

A AMEAÇA MIGRATÓRIA CONTRA CABO VERDE 

Para comodidade dos leitores, segue abaixo a reprodução do texto dos nossos comentários citado pelo Articulista, com sublinhados os parágrafos referentes à ameaça migratória:
“Primeiramente desejo deixar bem claro que concordo com a importância do turismo para Cabo Verde, pois é relevante até para os Estados Unidos e para a os principais países europeus e do mundo, e Cabo Verde de facto possui todos os requisitos de beleza e encantamento para ser tão bem sucedido como os mais famosos arquipélagos oceânicos do mundo, como o Hawaii, Tahiti, Seychelles, os caribenhos, enfim, nada fica a dever em potencial aos melhores destinos, principalmente para os turistas europeus.
Todavia, é necessário ponderar que o cenário actual desse ano de 2015 não é perene, e a qualquer momento a crise mundial pode afetar dramaticamente o País pondo tudo a perder, até o turismo, por óbvio.
O século XXI está sendo cruel com diversos estados que estão a ser destroçados em sequência, com características simulares: Líbia, Iraque, Yemen, Síria e Afeganistão sofrem o caos completo pela luta das superpotências pelas antigas terras desde o oriente até África que já foram dominadas totalmente outrora pelos impérios da Pérsia, de Alexandre Magno, de Roma e Otomano. Egito, Tunísia, Argélia, Arábia Saudita, Líbano, Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Emirados árabes Unidos, Omã, Qatar, irã e outros vivem o agravamento das suas ameaças.
A descolonização que se deu no século XX, na qual Cabo Verde nasce como país soberano em 1975, criou muitos estados independentes que agora voltam a entrar em colapso.
Os países descolonizados que se situam nas regiões de conflito histórico dos grandes impérios já possuem um padrão de ameaça de desintegração.
Cabo Verde se situa entre os numerosos pequenos países sem capacidade própria de resistir a uma invasão e se defender militarmente que proliferaram no século XX, principalmente após a II Guerra Mundial com a supremacia dos Estados Unidos e da União Soviética, quando foram desmantelados os resquícios dos outrora poderosos impérios europeus.
Essa crise econômica mundial, por si só, parece ser bastante para arrasar com a grande maioria dos pequenos países independentes em especial os mais pobres, como os pequenos países arquipélagos oceânicos, como é o caso de Cabo Verde.
O editorial do Expresso das Ilhas de 2 de outubro de 2015, alerta:

"Essa possível evolução da economia não é uma boa notícia para Cabo Verde. Não torna os parceiros mais generosos na dispensa da ajuda internacional, seja por que vias for. Afecta negativamente a procura para bens e serviços cabo-verdianos e tende a diminuir o fluxo de capitais que eventualmente o país poderia atrair."
Por enquanto ainda não há uma sequência de quebras como no caso dos países do antigo Império Otomano, mas em breve países inviáveis economicamente deixarão simplesmente de existir como independentes, por decisão estratégica própria, unindo-se a outros países, ou por desintegração política em razão da bancarrota e do peso de sua dívida insustentável, crises migratórias, tudo se unindo para causar o fim do estado organizado.
Outra grave ameaça para o futuro de Cabo Verde é a crise migratória para o País proveniente principalmente da Nigéria.
Ao longo desse século XXI a população dos actuais caboverdeanos se manterá estável entre 600.000 e 1 milhão de habitantes, enquanto a população da Nigéria em 2030 deverá chegar a 310 milhões de pessoas, em 2050 alcançará aproximadamente 450 milhões de pessoas, e no final desse século deve atingir a fantástica cifra de mais de 900 milhões de almas.
Os demais países da áfrica Subsahariana também crescerão dessa forma impressionante, e Moçambique, por exemplo, deve chegar em 2050 com 50 milhões de habitantes.”
Com essa realidade populacional, Cabo Verde, em 2050, já deverá possuir mais habitantes nigerianos do que os descendentes da sua actual população.
Os emigrantes africanos que devem aportar em Cabo Verde deverão ser movidos pelas perseguições políticas, religiosas e das guerras, trazendo consigo o flagelo dos refugiados.
Pesem bem, chegou o momento de pensar Cabo Verde com consequencialismo para não virar simples espectador do futuro.
Da mais alta estima
Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016
César Palmieri Martins Barbosa

1 comentário:

  1. O Palmieri bate na mesma tecla dos que analisam crítica e realisticamente a actual situação de Cabo Verde.
    É cada vez mais claro que a nossa querida e saudosa terrinha, que quis ser país independente, está a um passo de se tornar um estado inviável. Tem razão o Palmieri quando fala da "desintegração" dos estados que acreditaram que podiam ser independentes, mas eu preferiria usar o termo "colapso". Quanto à extinção da raça cabo-verdiana por progressiva e inexorável absorção (invasão) dos vizinhos africanos, este cenário também o debatemos exaustivamente há tempos. E não é ficção.
    O que espanta é que os pseudo líderes políticos da nossa terra continuam impávidos e serenos na rotina do seu alheamento. Não sei do que se está à espera para um movimento de fundo entre os cabo-verdianos lúcidos para pedir a cabeça daqueles que, por ignorância, vaidade ou simples alucinação, fizeram com que a nossa terra e a sua gente se metessem num beco sem saída. Essa gente tem de ser julgada, ainda que simbolicamente, e a sua memória varrida definitivamente da história da vida do nosso povo. Posto isto, só restará pedir à comunidade internacional que faça o que for possível para termos o mínimo de pão para a boca e conservarmos a nossa dignidade e a nossa cultura. Não sei como será, mas também não me compete dar uma resposta porque não contribuí para estarmos nesta ingrata situação de temer o futuro.
    Leia-se com atenção esta advertência de um brasileiro que já demonstrou gostar do povo cabo-verdiano.

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