segunda-feira, 4 de julho de 2016

[9408] - CRÓNICAS DE TERRA LONGE...


O livro “Crónicas de Terra Longe”, de Luiz Andrade Silva, será lançado, pela primeira vez em Cabo Verde, hoje, segunda-feira,4, na Universidade do Mindelo. A obra é uma compilação de artigos distribuídos em 450 páginas e resulta de vários estudos realizados sobre a emigração cabo-verdiana. Especialista em emigração, Luiz aborda ainda, na qualidade de emigrante radicado desde 1968 em França, a experiência de outros países sobre o tema e os cabo-verdianos que tiveram a necessidade de sair da sua terra-natal para procurar melhores meios de sobrevivência no estrangeiro. Luiz Silva presta também uma homenagem aos emigrantes em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que, segundo ele, “são aqueles que sofram e de quem não se fala muito...


“Escrevo estas crónicas desde 1982. Visitei várias comunidades cabo-verdianas no estrangeiro. Quis estudá-las de forma profunda e explicar a realidade da emigração europeia, onde estive e outras, nomeadamente da América e África, onde também os cabo-verdianos criaram raízes. Pensei em como contribuir para melhorar as condições de vida desses emigrantes, mas também exigir uma melhor reflexão, outra visão da emigração, que é algo dolorosa. Ninguém saí do país por prazer. A emigração precisa ser vista no aspecto político, que é o que eu faço, e não simplesmente no aspecto económico”, explica, realçando que não se deve esquecer que a emigração constitui novas ilhas para servir Cabo Verde.

Este emigrante, agora aposentado, é formado em Sociologia e História, com especializações em emigração e cultura, daí sentir a responsabilidade de trazer em “Crónicas de Terra Longe” o testemunho da condição de emigrante e o sumo da sua tese, editada há mais de um ano e que se encontra esgotada em Portugal e no Brasil. Trabalhou como director de centro para emigrantes em França e esteve sempre em contacto com emigrantes através da vida associativa. Estudou a emigração de outros povos na Europa, nomeadamente na Europa de Leste, e Itália. Conta na obra a experiência destes países e de indivíduos que, assim como ele, sentiram a necessidade de abandonar Cabo Verde.

O livro descreve, por exemplo, como a Jugoslávia conseguiu resolver a sua crise económica aproveitando a emigração e o caso da Itália que direccionou a sua política para esta questão específica - os municípios dão maior apoio aos emigrantes. Luiz Andrade Silva defende que, “Cabo Verde deveria adoptar estas medidas, sendo que considera a emigração uma questão local depois para se tornar nacional”. Na mesma obra, fala também dos cabo-verdianos que foram para Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e dos que foram para a luta. Presta desta forma uma homenagem aos emigrantes que, para este escritor, “são os que não se fala, que são ignorados e que muito sofrerem com a sina de ir além do horizonte das ilhas”.

Do ponto de vista político, diz que “há pessoas que escrevem sobre a emigração e fico triste, porque pensam que a emigração é uma escolha de um individuo. Não, ela é um acto político que um individuo ou um grupo de indivíduos saem à procura de espaço para lutar e ajudar a sua terra. Nada na vida escapa ao político. Quer dizer que o emigrante sai sempre com grandes preocupações e, por isso, não se pode dizer que a emigração não é uma questão política. Ela é essencialmente política”.

Luiz Andrade, que escreveu sempre em revistas dedicadas a emigrantes – “Nos Vida”, Lusotopie, e Latitudes -, afirma que nada é mais justo do que agora apresentar estas histórias em Cabo Verde, numa altura em que há grande número de emigrantes no país. “Estou aqui para apresentar o meu livro, na presença dos emigrantes. Porque são eles que vão apreciar este livro e me julgar sobre este assunto que escrevo e que faz parte das suas vidas”, pontua.

Mas autor do «Crónicas de terra longe» garante que ainda fica muito por dizer. Espera, por isso, em 2017, “trazer artigos com novos estudos, não somente sobre o problema da imigração no aspecto económico, mas também sobre a literatura da emigração, os problemas sociais, a verdadeira política da emigração que deve começar na base - nas crianças -, passando para a juventude, que é uma fase importante da vida. Estes serão chamados para fazer a política da emigração para continuar a divulgar e lutar por Cabo Verde lá fora», realça.

Por agora, os leitores poderão apreciar “Crónicas de Terra Longe”, que testemunha emigração cabo-verdiana pelo mundo.

Vanina Dias

1 comentário:

  1. Felicitações ao autor. Li e recomendo. Um conjunto de ensaios reflectidos uns, e vividos (experimentados) outros, sobre diversos assuntos; apresentando todos eles um protagonista, o emigrante cabo-verdiano a partir da «Terra-Longe».

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