sexta-feira, 15 de julho de 2016

[9453] - SINFONIA MARINHA...

Foto Zeca Soares / Praia-de-Bote

Quando eu era miúdo - muito miúdo, mesmo - andei anos convencido de que a sardinha era a fêmea do carapau e custou-me entender que houvesse um peixe chamado "cavala" pois, para mim, a cavala era, obviamente, a fêmea do cavalo...Aliás, sempre estranhei o facto de as éguas terem tal nome uma vez que eram igualzinhas aos cavalos... Havia pormenores - grandes pormenores - de que só mais tarde me apercebi!
Em Cabo Verde, desde os meus 9 anos que me habituei a conviver com a cavala que eu já sabia nada ter de equino e até era um petisco grelhada fresca ou cozida depois de salgada, tal como a sarda, por exemplo...
Por isso, quando o Mindelo deu início ao ciclo de Festivais da Cavala Fresca, fiquei duplamente confuso: primeiro, porque se andaram dezenas de anos a ignorar a pobre coitada, que passou a estrela de um dia para o outro, segundo porque, talvez para merecer as honras de um festival, foi crismada de kavala e, claro, passou a ser fresk, em vez de fresca... Não tenho nada contra os "K", intrusos que nem sequer fazem parte do abecedário da língua portuguesa mas, não sei porquê, com este fato (não confundir com o novo "facto"...) não parece o mesmo peixe honesto que sempre conheci...
Por outro lado, consta que outros peixes, habituais locatários das águas hesperitanas e quiçá com mais pergaminhos no ordenamento social da peixeirada cabo-verdiana, não desdenhariam gozar da mesma visibilidade e ter-se-ão reunido em assembleia-geral para estudar formas de luta reivindicativa que leve à realização de um Festival do Peixe, de todo o peixe... Estiveram presentes, entre outros: a plombeta, o esmoregal, o bidião, o charroco, o badejo, a benteia, o chicharro  e a salema, uma selecção digna de uma caldeirada real! 

4 comentários:

  1. Pois bem, Caro Zito.
    Duas coisas. A primeira e mais importante, passei a detestar o "K" e não mudo.
    Outra coisa é a falta de atenção ao atum "intchode", um acepipe que vale um bacalhau. Quando regresso de Cabo Verde, nem faço atenção ao grogue ou ao ponche mas trago sempre o meu peixe preparado no Tarrafal de Monte Trigo.

    ResponderEliminar
  2. Meu amigo, se vamos falar de "gourmet" a conversa é outra...Atum "inchode" eu não sei o que é, mas a barriga do mesmo, na brasa, é um pitéu e, embora não seja muito usual em C.Verde, o mesmo bicho em salmoura, cozido com semilhas e cebolas também é um manjar dos deuses...Mas, isso são outras histórias; hoje, a coisa era só para provocar um sorriso!
    Braça sem escamas
    Zito

    ResponderEliminar
  3. Honra seja feita, a cavala é um grande peixe e barato

    ResponderEliminar
  4. Em primeiro lugar, o meu apreço literário pelo texto do Zito, que é divertido, saboroso e picante.
    Penso que se a cavala foi a eleita é por ser o peixe mais barato e capaz de igualar todas as bolsas no festival da comezaina.
    Essa barriga de atum grelhada, um verdadeiro pitéu, descobri-a há 10 anos quando voltei a Cabo Verde.
    Mas esse atum "intchode" tem também o seu lugar.
    Quanto ao resto, abaixo os "k".

    ResponderEliminar