segunda-feira, 25 de julho de 2016

[9490] - NETA DE PEIXE...



A MAGIA DA PRAÇA NOVA

Há momentos em que, sem querermos, quase ao acaso, apercebemo-nos de que a retrospectiva das coisas que nos aconteceram ganha um valor diferente. Um sabor até especial, de recordação sentida. Através de uma maneira mais actualizada de olhar para a realidade que vivemos no passado.

Encontrei nos escritos do meu avô Adriano Lima um poema que tem o título Noite de Luar na Praça Nova. Ah, é a praça que conheci em 2012 quando pela primeira vez visitei a cidade do Mindelo. Então, deu-me para ler esse poema, que não tinha ainda lido. Foi como se quisesse encontrar nas memórias pessoais que nele se celebram alguma correspondência com as minhas próprias memórias da visita que fiz.

Já agora, digo que estive sentada nos bancos da Praça Nova mais de uma vez, principalmente quando íamos ao hotel em que ficou hospedada a minha tia Ana e que ficava mesmo ao lado. Lembro-me de que a praça era muito frequentada à noite e havia muito movimento de pessoas a andar para cima e para baixo. As crianças brincavam, umas andando em pequenas bicicletas, outras em “scooters” e “skates”, outras correndo e fazendo as normais tropelias infantis. Achei aquilo tudo muito semelhante às rotinas das praças em Portugal das cidades médias da província. Por sinal, o tempo atmosférico era nessas noites muito agradável, apetecível para se estar ao ar livre e deixar correr o tempo. Ou não estivéssemos em Julho…

É desta maneira, tentando recompor a memória fotográfica que guardei da Praça Nova, que a tento ver agora sob o olhar do autor do poema. Mas leio o poema e surgem perguntas inevitáveis: - avô, quem era o B. Leza, esse de quem dizes: “E em vão procurar B. Leza entre os rapazes da serenata e só conseguir ouvir a plangência do seu violino no lento suspiro da noite e na terna placidez das raparigas girando em redor da praça”. Pergunta feita e fico a conhecer o músico, que pertence às memórias do autor. Percebi o sentido da metáfora. Os músicos estão em toda a parte e a toda a hora na cidade do Mindelo.
Mas de música só ouvi um dia a do coreto da Praça. Ela saiu “da clausura da pauta e foi pousar nas folhas das árvores, nas réstias de luar, no riso das moças, nos vestidos das damas, e depois!... foi senti-la a evadir-se, dengosa e insinuante, pelas ruas de Mindelo.”
Agora sinto que foi pena não conhecer este poema à data da minha visita. Mas eu tinha então só doze anos… Os actuais dezassete, feitos há uma semana, fazem a diferença, o que é natural.

Mas as perguntas continuam: avô, não vi esse cinema Eden Park de que falas quando escreves: … “Ei-la afinal presente e ausente na sedução do olhar, na volúpia dos lábios, no langor do sorriso, da Marlene Dietrich, além no cartaz do Eden Park!...”. Com a resposta à pergunta, fiquei a saber que esse cinema terminou há muito os seus dias. Que pena! Numa época em que não havia televisão, internet e os outros aparelhos que nos fazem as delícias actualmente, entendo o sentimento que o autor deixa transparecer no poema.

O Eden Park já tinha sido, já era só memória, mas… ahhh, as vendedeiras de mancarra (amendoim) essas lá estavam e comprei uma mancheia do produto: … “Deixar soltar a voz ridente da vendedeira de mancarra e ouvi-la cantarolar sodade di nha cretcheu até cair a penugem da noite na cálida nudez dos seus enfeites”. E eu que achei essa mancarra com um paladar diferente, mais saborosa, como se tivesse sido acabada de torrar...

Na minha jovem idade, quatro anos fazem uma enorme diferença. Aquilo que vivi em 2012 foi mais à flor da pele da menina de doze anos, diferente do que permite a minha idade actual, e ainda mais depois de ter estudado bem as disciplinas de português e filosofia. Mas o poema de Adriano Lima, que li agora, veio avivar-me o sentimento e mostrar-me uma Praça Nova iluminada não por uma noite de luar mas por luzes que pertencem à alma.

Enfim, a nostalgia do avô é agora minha: “Ó doce e inefável fixação do olhar feiticeiro
que alumia a noite na Praça Nova!”

Quarteira, 23 de Julho de 2016

 Maria Beatriz Lima Barreiro

...oooOooo...

NOITE DE LUAR NA PRAÇA NOVA

É tempo de abrir
As grades dos jardins
E soltar as flores
À plenitude da música
Na noite de luar da Praça Nova,
E em vão procurar B. Leza
Entre os rapazes da serenata
E só conseguir ouvir
A plangência do seu violino
No lento suspiro da noite
E na terna placidez das raparigas
Girando em redor da Praça.

Ai Amsterdão, Paris, Londres, Lisboa!...
Para quando o exótico sentir
Da ânsia acalentada,
Do transe da espera,
Do enlevo do reencontro
De uma noite na Praça Nova?

É tempo de abrir
O avulso repertório
Do povo da Praça Nova.
Deixar soltar a voz ridente
Da vendedeira de mancarra
E ouvi-la cantarolar sodade di nha cretcheu
Até cair a penugem da noite
Na cálida nudez dos seus enfeites.
Ver o rapaz da maleta de drops e chesterfield
Definir seu território,
Exibir sua pose galante
E invadir o deleite
De meninos e moços.
                                                                                                                             
É tempo finalmente
De abrir o coreto 
E libertar a música
Da clausura da pauta
E deixá-la pousar
Nas folhas das árvores,
Nas réstias de luar,
No riso das moças,
Nos vestidos das damas,
E depois!...
Senti-la a evadir-se,
Dengosa e insinuante,
Pelas ruas de Mindelo.  

Mas já são seis voltas 
À Praça e ela não  aparece...
Nem a brisa me antecipa
A fragrância do seu perfume…
Ah, mas vejo-a agora!
Ei-la afinal presente e ausente
Na sedução do olhar,
Na volúpia dos lábios,
No langor do sorriso,
Da Marlene Dietrich,
Além no cartaz do Eden Park!...

Ó doce e inefável fixação
Do olhar feiticeiro
Que alumia a noite na Praça Nova!

Tomar, 30 de Dezembro de 2001

Adriano Miranda Lima
   

                                                             


7 comentários:

  1. Quanto ao poema e ao texto que nele se inspirou, basta dizer que sendo ambos limianos (sem queijo, obviamente), estão um para o outro e enchem o papo de quem gosta do rectângulo chamado Praça Nova. Por outro lado, a escrevente mais pequena está a autonomizar-se a passos largos do escrevente maior e a pertença que existe esbate-se pela qualidade que já demonstra. Não pode é parar de dar à tecla que isto de escrita é como a agricultura: é necessário estar sempre a deitar a semente à terra. Ponto final, portanto, quanto a isso.
    Quanto à foto, feita de longe e tremida, consegue ainda assim tramnsmiir o espírito local na perfeição de um domingo à noite com tcheu gente ta rudiá e muzca sabim na corete. Voltei atrás alguns bons anos e soube-me bem.

    Braça c'sorvete na Picnic,
    Djack

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  2. a) - A Foto
    Sempre foi assim quando a muzga era sabe e melhor ainda quando eram as Bandas do Almirante Saldanha (brasileiro) ou Juan Sébastian d'Elcano (espanhol), ou ainda a barca Sagres, menos frequente. Com a banda brasileira era um pouco diferente porque as pessoas dançavam e depois acompanhavam os mùsicos da Praca ao Cais Novo onde os esperavam as gazolinas. Não digo que era Carnaval mas... era(m) noite(s) de festa.
    Naquel tempe SonCente era sabe !
    b) - Os escribas.
    Gostaria de estar na pele do Adrano. Escrevia tais versos sobre a minha terra e depois sentava como um pachà a deliciar-me com o que pensa, sente e diz a neta.
    Simplesmente

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  3. Peço desculpa pela aparente (?) desfocagem da imagem mas foi a melhor que encontrei para ilustrar, nomeadamente, o poema que, ao fim e ao cabo, é o "culpado" de toda esta explosão de talento!
    Braça ao som da banda,
    Zito

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    Respostas
    1. Acentuando a conversa sobre a foto. Como material técnico, não é grande coisa, de facto; mas como material documental é excelente. Olha-se para ela e estamos na Praça Nova, vemos, ouvimos e cheiramos o sítio. 9 pontos em 10, por isso.

      Braça com MELOices,
      Djack

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  4. E eu que pouco ou nada pude presenciar dessas bandas de música navais que o Val evoca. A sua presença é uma mostra cosmopolitismo que a nossa ilha outrora já teve.

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  5. Que belos textos poéticos! Avô e neta sintonizados e encantados com a cidade aprazível e a mais cantada de sempre na poesia e na música cabo-verdiana. As memórias do Adriano a comporem o presente da Beatriz. Belo! reitero.

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