terça-feira, 2 de agosto de 2016

[9516] - SAL - ESPLENDOR TROPICAL...

Bom dia, boa tarde ou boa  noite, conforme a hora a que nos lerem:

Hoje iremos até à ilha do Sal com a Berta Renom, que nos mostra a peculiar mudança de estações  na ilha mais turística de Cabo Verde. Aprecie...



Para quem chega a Sal como visitante, naquela condição de quem deixa pegadas leves na memória das gentes, mas leva grandes lembranças à casa,  no geral vem à procura de temperaturas agradáveis, quer a prática de desportos náuticos.

Sol e vento, vento sem sol, e sol sem vento, que de manera natural determinam a estacionalidade da ilha e a temporalidade da vida no Sal: o chegar e o partir dos turistas, que influi nos níveis de atividade e na preguiça da rotina caboverdiana; as parodias na beira do mar, nos fins de semana de verão e as congregações de surfistas perseguindo uma mesma onda na Ponta Preta nos dias de inverno;  céu dum azul especial…

No entanto, para nós que moramos aqui, o sol e o vento, se bem que elementos identitários da ilha, são uma injusta simplicidade da estacionalidade da mesma.

No inicio da minha indefinida estadia em Cabo Verde senti falta da mudança de estações, aquele processo que determina e acompanha a mudança do próprio estado interno no decorrer do ano. Se calhar das estações europeias, porque agora acredito que estava a focar a minha atenção nos elementos errados; faltava-me sentir o verdadeiro bater do ritmo crioulo.

Sal possui, sim, estações, para além das do sol e do vento. No simples decorrer das vidas simples da ilha, a mudança de estações é um processo continuo, progressivo e modesto. Apesar de parecer, ou, aliás, de ser uma paissagem desértica, Sal possui uma riquesa maior do que a maioria de pessoas chegam a perceber.

A época da manga e da papaia  são os indicadores da chegada do verão. Assim que os dias començam a se elongar e o ambiente sente-se mais agradável, as meninas da rua irão anunciar a chegada dessa fruta saborosa na ilha, carregando enormes coloridas bacias de cheiro doce e intenso, enchendo narinas e corações.

As estrelas cadentes das noites quentes são a luz e os guias das tartaruga que saem à praia para desovar, nesse reptiliano ritual que tem acontecido durantes milhares de anos, testemunhas imutáveis da permuta de épocas e de gentes, voltando sempre à sua terra para perpetuar a cerimônia da vida. O fim do verâo é a época das chuvas, que é diferente à do vento e a do sol.

A chuva traz vida e esperança; enche os poços, hidrata as escassas árvores, fertiliza a pobre terra, deixa um sorriso nas caras dos miúdos. Quando chove, o vento vira a sua direção e por poucas vezes no ano sopra de sul. A chuva é um evento intenso e, como tudo aquilo que é intenso, breve. Mas ela permanecerá na terra, nas espontáneas lagoas que se formam em todos os lugares, na alteração que causou no paisagem, que por uns instantes será de um esperançoso verde.

Depois da chuva, Boavista aparece no sul do horizonte, aproximando a terra vizinha aos corações salenses. Chegam também os mosquitos. E os gafanhotos e as lagartas. E o corajoso verde desiste e vira para o dourado. Algumas  flores de cores discretos resistirão como lembrança das chuvas que nutriram momentaneamente o arquipélago.

No avanço dos avermelhados atardeceres, os filhotes de tartaruga espiam o horizonte à espera de perceber a sinal que a lua lhes mandará, eclosão e relé de gerações, esperança para a sobrevivência da espécie num mundo complicado.

E o vento voltará, furioso e ávido; ondunado ondas e enchendo velas. Terá chegado o inverno. Tempo de alimentos contundentes, de catchupa e de feijoada; e de um grogue no concluir da tarde.

Espero que tenha gostado . Até para a semana.

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(Colab. de Manuel M. Silva)

1 comentário:

  1. Ah, pois claro que gostei. Descrição realista e contida, mas eloquente e deixando uma "lagriminha" no canto do olho do leitor.

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