quarta-feira, 31 de agosto de 2016

[9622] - A PÁGINA NEGRA...



31 de Agosto: A página negra da história recente de Cabo Verde

O dia 31 de Agosto é uma das páginas mais difíceis da história recente de Cabo Verde. Na base, esteve a implementação da reforma agrária proposta pelo governo do PAICV durante o regime de partido único vivido no País desde a independência até à abertura política que ocorreu em 1991. No livro “A tortura em nome do partido único”, Onésimo Silveira, na introdução do mesmo, escreveu que durante este período, foram cometidos “actos que além da sua crueldade, constituem um atentado inqualificável contra a dignidade e a maneira de ser de todo o povo cabo-verdiano”.



Maximiano Antão Dias foi uma das vítimas das consequências da reforma agrária e não quer que este episódio da história seja esquecido. Episódio que terminou com uma morte no dia 31 de Agosto. Um cidadão de nome Adriano Santos. “Quero que as pessoas saibam que a história de Cabo Verde tem de ser contada com tudo o que aconteceu de bom e de errado sobre o que fizeram ao povo no passado”. Este cidadão que viveu o 31 de Agosto diz que o seu objectivo é chamar a atenção, principalmente das autoridades do País, para trazerem o tema a debate público, porque sente que ainda não há um entendimento do que aconteceu na época e que a história tem sido escondida às pessoas.

“Pela primeira vez depois da independência, o povo teve a coragem de sair à rua para dizer que não queria mais”. E sublinha que aconteceu num período difícil de regime de partido único com forças de repressão da população. “Não tem sido camuflado, os cabo-verdianos não têm interesse na própria história e apenas contam a história dos outros. A reforma agrária tem muito para contar”, reitera.

Para Max, como é conhecido, o apelo é que os responsáveis da altura do Estado possam vir a público explicar o que esteve por detrás da reforma agrária e explicar as agressões que fizeram às pessoas. “Apelo principalmente a Pedro Pires (Primeiro-ministro na época) que antes de morrer possa ser ouvido. Não que seja condenado mas que a sua voz fique registada na história para saber o que aconteceu na altura e sobre o 31 de Agosto. Tem de ser entrevistado para se levantar esta poeira”.

Para Max, muitos se esconderam dentro das instituições do Estado e nunca foram ouvidos e nem julgados pelo que fizeram durante a época do partido único. “Para mim, Pedro Pires tinha que ser ouvido pela justiça. Pedro Pires nunca contou o que realmente fez”.

O apelo deste cidadão é que as pessoas possam assumir o que fizeram durante o período de partido único e que se possa divulgar às pessoas o aconteceu no País, para que todos possam saber que há uma página escura na história do País.

História de Max

Max, como conta, era dos mais jovens a fazer parte da reforma agrária. Vivia em João Afonso e diz que foi um acontecimento que o apanhou de surpresa, isto quando tinha 23 anos de idade. “Não esperava que o regime na altura tivesse capacidade de tanta maldade, de fazer o que aconteceu em Santo Antão. O que fizeram foi bastante bárbaro e foi um acto que nunca mais será esquecido pelo povo de Santo Antão”.

Segundo Max, as reivindicações das pessoas eram contrárias à reforma agrária. O regime tinha prendido pessoas que se opunham à reforma agrária. No dia 31, as pessoas juntaram-se em Boca de Figueiral para pedir a libertação dos presos. Antes desse dia, Max conta que tinha havido uma manifestação e no local viu um civil com uma arma. Tinha terminado o serviço militar na altura, falou com o indivíduo e tomou e levou a arma para casa, com medo de ao entregar a arma às autoridades, houvesse represálias. Depois da primeira manifestação começou a envolver-se na luta contra a reforma agrária.

“No dia 31 havia muitas pessoas provenientes de quase todas as zonas de Ribeira Grande em Boca de Figueiral. Aqui conheci algumas pessoas que mais tarde iria encontrar na prisão. Mas não tínhamos formado um grupo à primeira. Foi quando nos juntámos em Boca de Figueiral que começámos a criar aquela união. E fomos exigir que libertassem algumas pessoas que tinham sido presas”.

A única morte que aconteceu foi a de Adriano Santos e Max conta na primeira pessoa o que viu aquando da morte de Adriano. “Estava muito activo, mais dos que os outros. Sentimos tiros, as pessoas começaram a dispersar-se e a esconder-se. Adriano ficou exposto e foi neste meio tempo que um senhor, Lela Guerrilheiro, que era combatente, tomou uma arma a um soldado e atirou no Adriano. E foi ele, e eu vi com os meus próprios. E não foi apenas um tiro foram vários tiros”.

Acrescenta que com a morte de Adriano as pessoas desanimaram-se e entraram no desespero e pânico porque, como conta, houve tiros a torto e a direito. “Passados alguns dias, começaram a prender várias pessoas e ouvimos todas as notícias. No dia seguinte, resolvi fugir com a minha família de casa, na madrugada saímos a andar no deserto.

“Quando estava a sair, ouvi pessoas a entrarem em minha casa. Andei para chegar no Concelho do Porto Novo para me esconder em Ribeira Fria”. Apesar da fuga, acabou por ser preso em Ribeira Fria e foi obrigado a andar até ao Porto Novo onde começou a ser interrogado, “e aí começou a tortura”. Depois, foi colocado na cadeia de Povoação, antes de ser enviado para São Vicente onde ficou encarcerado na zona militar do Morro Branco. “Na prisão fui ganhando o espírito revolucionário contra o regime de partido único”.

Conta que durante o tempo que ficou na cadeia alimentou-se apenas com um pedaço de pão e água. E acrescenta que ficou doente e que os espancamentos começaram a fazer-lhe mal à saúde e que, ainda hoje sofre sequelas dessa época. “E muitos que já morreram, acredito que tenha sido por causa das torturas recebidas”.

Hoje, apresenta uma certidão judicial com os nomes de todos os que foram torturados e julgados, por um total de vinte e cinco páginas com cerca de cinco nomes cada página e a razão da acusação, “para que qualquer pessoa que entenda de direito possa ver no que se basearam as acusações”.

Max teve pena suspensa mas não se esquece pelo que passou nos seis meses de prisão que, para ele, pareceram mais de dez. Espera que os responsáveis de tais actos possam dar a cara e explicar o que aconteceu na época.




8 comentários:

  1. Uma vez mais, o "astuto negociador" é chamado à pedra... Será, alguma vez, chamado à barra?!

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  2. Vou tentar proximamente apresentar um ponto de vista sobre este processo numa perspectiva global da época em questão. Todavia parece-me muito fácil individualizar a questão pela sua complexida e o número de actores e autores. É todo o sistema, que criou e gerou este processo e outros processos, que configuram crimes, que deve ser chamado à barra. Julgo que a coisa não pode circunscrever-se àalguns bodes espiatórios. Esta é minha opinião.

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    1. Desculpe, amigo: não são bodes, são criminosos!!!

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  3. É uma das páginas sombrias sobre o poder autocrático que instaurou e conduziu a independência de Cabo Verde. Podem perdoar-se excessos policiais ou de medidas políticas, mas nunca assassínios. Jamais. Segundo ouvi e li, esse Lela Guerrilheiro e o Tchifão de má memória não tiveram pejo em disparar arma de fogo contra a nossa gente. E ao que parece o primeiro matou mesmo.

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  4. Amigo Zito desculpa-me ter usado termo. Eu sei que não se pode brincar com estas coisas, sobretudo que tu fostes uma vítima. O que eu queria dizer é que temos que julgar em primeiro lugar o sistema todo que produziu os crimes denunciados. Responsáveis há-os. Agora em CV há uma disputa partidária que não ajuda e esta disputa pessoaliza a questão, para aliviar a responsabilidades do MPD e descarregar tudo no actual PAICV. Isto é que não pode ser na minha opinião

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  5. Eu sei, eu sei! Mas, os relatos de diversos quadrantes da sociedade, como este, de Santo Antão são, em si próprios, uma denúncia vivida que corporizam um julgamento civil...Aliás, não me repugna acreditar que muitas das acções de energúmenos conhecidos tenham sido levadas a cabo à margem das Instituições e, aí, não é o sistema que está em causa, são os actores... Por outro lado, também reconheço que algumas das cúpulas de então possam vir, agora, colocar panos quentes na questão, alegando desconhecimento dos factos, individualizando, assim, as acções dos algozes e sacudindo a água dos capotes encharcados de culpa! Repito: não há vontade política para olhar esta questão de frente sem medo de denunciar aquilo que, afinal de contas, todo o mundo sabe! O actual PAICV, que na altura ainda era PAIGC pode, mesmo assim, suscitar um acto de contrição política pois, se não recusa ser fiel depositário das glórias do partido deve, também, ser responsável pela reparação dos erros do passado...Se errar é humano, reconhecer os próprios erros é dignificante!

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  6. Aí está Zito exprimiste melhor do que eu o meu pensamento. Tentar desrresponsabilizar o sistema e individualizar a questão atirando culpas a um mandante, ou pior a executantes, pode ser a maneira de matar a questão. Esta é a minha genuina preocupação.

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