segunda-feira, 5 de setembro de 2016

[9643] - AS CRÓNICAS DE BERTA RENOM...


Como a vida mesma, todas as coisas são relativas e dependem do ponto de vista, dos olhos do observador, das suas vivências e dos seus traumas pessoais.

As ruas de Santa Maria, sem dúvida nenhuma, tem multiplos pontos de vista:

- O dos pedestres, que nunca pensaram que pudesse existir nenhuma outra perspetiva possível, a rua é das gentes e, por conseqüência, as mais variadas atividades acontecem nela: intensas conversas, que pela sua intensidade não podem ser interrumpidas, perturbadas nem alteradas sob nenhuma circunstância.

Os vizinhos da zona, sentados, tomando o fresco, grelhando peixe para o jantar, ou simplesmente lá fora observando a cadência do dia, oferecendo sempre algum comentário desavergonhado a quem passa.

E as crianças, para as quais a rua não é outra coisa que um terreno de jogos basto, a extensão do quintal das suas casas, o lugar aonde se encontrar, correr e voar.

Se não for pelo passo cada vez menos ocasional de alguma viatura, eu quase conseguiria esquecer da existência de qualquer estrada a os observar absorta na espontaniedade dos seus sorrisos e das suas brincadeiras.

- Há também o ponto de vista dos cães, que não entendem de sentidos de circulação nem de prioridades. Para eles a rua é, mesmo que para as pessoas, o lugar de encontro social. E é também a sua casa, uma casa de límites virtuais ou, pelo menos, não visíveis aos olhos humanos, mas que eles, os cães conhecem muito bem. Defendem o seu território com garras e dentes, especiallmente desse terrível inimigo  que são as rodas dos carros passantes.

- Os ciclistas são na sua maioria infratores inconcientes, confusos por que se sentem pedestres com rodas.

- Depois existe o mundo dos taxistas. A vida é uma corrida e eles devem ser os primeiros. Qualquer contratempo – as badias fofocando acaloradamente, o cão dormindo no meia da estrada que se recusa levantar, o rapazinho correndo atrás da bola que escapou, o ciclista errático que cumprimenta gentes várias – não é da sua responsabilidade e irrita-lhe. Mas aí andam, a toda velocidade, conseguindo evadir todos os obstáculos como se de um video-game se trata-se ao ritmo de zouk ou funaná.

- Finalmente, há o meu ponto de vista, que dependendo da hora, é o do transeúnte solitário, o do ciclista ciente das próprias infrações e que foge dos cães que criticam o seu percusso, ou o do condutor taquicárdico na tentativa de esquivar os elementos vários que dão vida à rua.

No entanto, em qualquer uma dessas visões há sempre a consciência e, com ela, o prazer silenciado, de que não importa quantas estradas decidam contruir, estas não conseguirão apagar a almas dos que nessas ruas sempre encontraram o lugar de reunião, de evasão, e de diversão.

Espero que tenha gostado . Até para a semana.

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1 comentário:

  1. Antigamente era mesmo assim. E as pessoas era mais solidárias e mais felizes.

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